Formação

O amor seja sincero

Dom Walmor Oliveira de Azevedo


Atransparência é um dos mais valiosos pontos de equilíbrio e dereferência nos desdobramentos de processos institucionais e noestabelecimento sadio de relações interpessoais. Em âmbitointernacional, institucional, nos processos de controladoria e naprática das auditorias, fica claro o quanto é ouro a transparência.Comprometida a transparência, qual seja o nível, os prejuízos sãoenormes. Entre os maiores comprometimentos está a conduta pessoalnão-transparente no manuseio de coisas, no estabelecimento dosrelacionamentos e no exercício de responsabilidades. Trata-se de umcomprometimento tão grave que não poupa nenhuma das instituições -políticas, governamentais, privadas ou religiosas – de grandesdificuldades, levando-as ao fracasso ou à incompetência no atendimentode seus propósitos, finalidades e missão.

Considerando-sea pessoa, sua autoridade, o desenvolvimento de seu potencial deliderança e o bem que pode fazer, tudo é proporcional à capacidade deser transparente. No entanto, não é tão simples. O descartável daconfiguração contemporânea está temperando o desafio de sertransparente, aportando riscos sempre mais graves para o presente efuturo da sociedade e da humanidade. Há sempre um comprometimento datransparência, seja pela fluidez na personalidade, por comprometimentosna estrutura do próprio caráter, por conveniências e, mais grave, porperversidades que nascem do desejo de poder e do apego ao dinheiro.

Étriste observar o que está se tornando configuração cultural pelaprática da mentira. Esta tem sido um forte contraponto, minando agrandeza e a nobreza da transparência, qualidades estas que seconquistam com um permanente exercício e por meio de disciplina, quediariamente deve corrigir vícios e relativizações perigosas quanto àpalavra pronunciada, ações efetivadas e sinceridade em todos os atos,sem deixar de considerar aqueles de menor monta social e política, osdomésticos e rotineiros. A preciosidade da transparência é umaconstrução e uma conquista. Não é um produto pronto, disponível emlojas e supermercados. Seu lugar é a interioridade, a personalidade, ocaráter, a capacidade de participar de processos com lisura edignidade. O apóstolo Paulo, dirigindo-se em Carta aos Romanos,conhecedor deste desafio que aflige a humanidade e envenena o seupercurso, recomenda a sinceridade no amor: “O amor seja sincero.Detestai o mal, apegai-vos ao bem” (Rm 12,9). O amor sincero é apreçopela verdade.

Háum compromisso prioritário e irrenunciável que é não comprometer averdade por uma visão interesseira ou adulterada. Há um poder, com ouso da palavra, que está ao alcance de todos. O controle mais eficaz éa própria consciência e o uso adequado da liberdade. É comum aadulteração da verdade no uso da palavra, quando se espalha uma leituradistorcida da realidade e se avalia de maneira estreitada umacircunstância ou uma conduta. Hoje, é sempre maior o risco decomprometimentos da verdade e, consequentemente, do amor sincero, emrazão da necessidade de assegurar, nas questões maiores ou rotineiras,um voto para si, especialmente quando se trata de cuidar da própriaimagem. Compreendeu-se que a tentativa de manipulação da verdade é maisrentável. Está sendo travada uma luta insana em se tratando daapropriação autoritária e uniforme da palavra. É uma clara pretensão depoder que precisa ser permanentemente desmontada sob pena detotalitarismos, manipulações e prejuízos grandes para a vida dahumanidade.

Aliberdade do uso da palavra tem recebido balizamentos nas legislaçõesexatamente para que se tenha clareza a respeito dos limites eimplicações do seu uso. Do contrário, as sociedades continuarão refénsdos poderosos, dos ditadores, dos iconoclastas e dos mentirosos. Porisso, toda consciência amante da verdade é chamada à dupla tarefa devigilância e denúncia crítica. Este é um compromisso determinante daconsciência cristã. Paulo apóstolo também recorda, escrevendo aosGálatas, que ‘para a liberdade Cristo nos libertou’. É a liberdade daverdade que liberta e que põe o cristão em alerta diante de qualquerconcessão ativa ou passiva à mentira.

Cadacidadão tem uma grande responsabilidade não só pela palavra contráriaao pensamento, mas também por todo poder da palavra – que não serve àverdade para maior comunhão na comunidade e no relacionamentocotidiano. O comprometimento da verdade, em qualquer circunstância ougrau, afeta o amor sincero que se deve a cada pessoa. Isto prejudica aprópria dignidade, gerando degradação moral e pessoal. No exercíciopara a conquista da transparência ajuda um provérbio árabe: “Somossenhores das palavras que não pronunciamos, mas escravos das que nosescapam”.


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