Mais uma vez recorro à sabedoria dos antigos.
Umafábula de Esopo conta que um homem tinha um cachorrinho e um burro. Elecostumava brincar com o cachorro. Dava-lhe comida na boca, deixava-selamber, tomava-o no colo. O burro, que espiava tudo, viu que o homemera feliz quando brincava com o cachorrinho. Ficou com ciúme e achouque também devia agradar o patrão. Dito e feito. Começou a lamber orosto do homem e queria sentar-se no colo dele. Só deu para o burro. Ohomem ficou zangado, bateu nele e o amarrou em uma árvore para quenunca mais se atrevesse a tanta familiaridade.
Amoral da história é simples. Cada um de nós só pode ser ele mesmo,querer ser o “outro” não vai dar certo. Lembrei-me dessa fábularefletindo sobre as palavras de Jesus. O Senhor nosalerta a não ter medo dos que podem matar o nosso corpo e tirar assim anossa vida. Ao contrário, Ele nos ensina a ter medo dos que querem epodem matar a nossa alma. Esta, enfim, é a nossa própria identidade,tão original como cada um de nós o é.
Infelizmentea sociedade nos leva a ser imitadores, mas nem sempre no sentido bom dapalavra. Jesus também nos pede de segui-lo, e São Paulo fala mesmo deser imitadores de Jesus, explicando que devemos ter os mesmossentimentos dele. O resto é macaquice.
Todasas vezes que deixamos de escolher com a nossa cabeça, de agir conformea nossa consciência, de assumir as responsabilidades das nossasescolhas, simplesmente por querer ser como os outros, pensar como osoutros, ser até confundidos com os outros, acabamos deixando roubarem,ou matarem, a nossa alma. Pior é que tudo isso está acontecendo deforma tão sutil, que nem percebemos.
Quandovejo crianças caprichando na imitação de cantores, dançarinas, atores eatrizes famosas, pergunto-me: o que será delas quando crescerem? Quandovejo que certas modas acabam desnorteando a personalidade dos nossosjovens, trocando a sua cultura e a sua história para acompanhar oconsumo de roupa, músicas e palavras de outros, questiono-me sobre aglobalização. Será ela o achatamento das pessoas, ou a oportunidadepara uma comparação sadia, que ajude a crescer e a amadurecer?
Existetambém o perigo contrário, de querer ser diferentes de todo e qualquerjeito. É o caso dos que não aceitam mais nenhum conselho, acham-se osdonos da verdade, ou estão convencidos de que o mundo esteja começandocom eles. Assim, sem perceber, passam da originalidade e dacriatividade, das coisas boas e positivas, para a esquisitice que levaao isolamento.
Tambémna religião assistimos à tentação do individualismo. Cada um faz a suaprópria “fé” conforme os seus gostos. Mistura tudo e no final não sabemais em quem acreditar.
Nemmacaquice, nem esquisitice. Precisamos de uma honesta e sincera buscado sentido da vida, de lançar mão da farta experiência humana, docaminho traçado por outros, do exemplo de quem nos precedeu. Nas coisasboas e nos erros também. A história é mestra de vida, sempre nosensinaram. Entretanto parece que hoje pouco vale a reflexão dosantigos. Gritam mais alto a propaganda e as promoções de todo equalquer produto e de todo e qualquer pensamento. Não podemos esquecero passado, mas nem por isso devemos repeti-lo sem crítica e semcritérios. A cada geração cabe o desafio de experimentar algo novo, naesperança de que seja melhor. Não deixemos que matem a nossaoriginalidade.
Basta um burro que perdeu a cabeça e quis ser cachorrinho. Não deu certo.
Fonte: CNBB – por Dom Pedro Conti – bispo de Macapá