Formação

O Deus que fala

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VERBUM DEI

 "No princípio já existia o Verbo,

e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (…)

e o Verbo fez-Se carne" (Jo 1, 1.14)

  O Deus que fala

 Deus em diálogo

6. A novidade da revelação bíblica consiste no facto de DeusSe dar a conhecer no diálogo, que deseja ter connosco.[14] A Constituiçãodogmática Dei Verbum tinha exposto esta realidade, reconhecendo que «Deusinvisível na riqueza do seu amor fala aos homens como a amigos e convive comeles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele».[15] Mas ainda nãoteríamos compreendido suficientemente a mensagem do Prólogo de São João, se nosdetivéssemos na constatação de que Deus Se comunica amorosamente a nós. Narealidade, o Verbo de Deus, por meio do Qual «tudo começou a existir» (Jo 1, 3)e que Se «fez carne» (Jo 1, 14), é o mesmo que já existia «no princípio» (Jo 1,1). Se aqui podemos descobrir uma alusão ao início do livro do Génesis (cf. Gn1, 1), na realidade vemo-nos colocados diante de um princípio de carácterabsoluto e que nos narra a vida íntima de Deus. O Prólogo joanino apresenta-noso facto de que o Logos existe realmente desde sempre, e desde sempre Ele mesmoé Deus. Por conseguinte, nunca houve em Deus um tempo em que não existisse oLogos. O Verbo preexiste à criação. Portanto, no coração da vida divina, há acomunhão, há o dom absoluto. «Deus é amor» (1 Jo 4, 16) – dirá noutro lugar omesmo Apóstolo, indicando assim «a imagem cristã de Deus e também a consequenteimagem do homem e do seu caminho».[16] Deus dá-Se-nos a conhecer como mistériode amor infinito, no qual, desde toda a eternidade, o Pai exprime a sua Palavrano Espírito Santo. Por isso o Verbo, que desde o princípio está junto de Deus eé Deus, revela-nos o próprio Deus no diálogo de amor entre as Pessoas divinas econvida-nos a participar nele. Portanto, feitos à imagem e semelhança de Deusamor, só nos podemos compreender a nós mesmos no acolhimento do Verbo e nadocilidade à obra do Espírito Santo. É à luz da revelação feita pelo Verbodivino que se esclarece definitivamente o enigma da condição humana.

 

Analogia da Palavra de Deus

 

7. A partir destas considerações que brotam da meditaçãosobre o mistério cristão expresso no Prólogo de João, é necessário agora pôr emevidência aquilo que foi afirmado pelos Padres sinodais a propósito dasdiversas modalidades com que usamos a expressão «Palavra de Deus». Falou-se,justamente, de uma sinfonia da Palavra, de uma Palavra única que se exprime dediversos modos: «um cântico a diversas vozes».[17] A este propósito, os Padressinodais falaram de um uso analógico da linguagem humana na referência àPalavra de Deus. Com efeito, se esta expressão, por um lado, diz respeito àcomunicação que Deus faz de Si mesmo, por outro assume significados diversosque devem ser atentamente considerados e relacionados entre si, tanto do pontode vista da reflexão teológica como do uso pastoral. Como nos mostra claramenteo Prólogo de João, o Logos indica originariamente o Verbo eterno, ou seja, oFilho unigénito, gerado pelo Pai antes de todos os séculos e consubstancial aEle: o Verbo estava junto de Deus, o Verbo era Deus. Mas este mesmo Verbo – afirmaSão João – «fez-Se carne» (Jo 1, 14); por isso Jesus Cristo, nascido da VirgemMaria, é realmente o Verbo de Deus que Se fez consubstancial a nós. Assim aexpressão «Palavra de Deus» acaba por indicar aqui a pessoa de Jesus Cristo,Filho eterno do Pai feito homem.

 

Além disso, se no centro da revelação divina está oacontecimento de Cristo, é preciso reconhecer que a própria criação, o libernaturae, constitui também essencialmente parte desta sinfonia a diversas vozesna qual Se exprime o único Verbo. Do mesmo modo confessamos que Deus comunicoua sua Palavra na história da salvação, fez ouvir a sua voz; com a força do seuEspírito, «falou pelos profetas».[18] Por conseguinte, a Palavra divinaexprime-se ao longo de toda a história da salvação e tem a sua plenitude nomistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus. E Palavra deDeus é ainda aquela pregada pelos Apóstolos, em obediência ao mandato de JesusRessuscitado: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura»(Mc 16, 15). Assim a Palavra de Deus é transmitida na Tradição viva da Igreja.Enfim, é Palavra de Deus, atestada e divinamente inspirada, a SagradaEscritura, Antigo e Novo Testamento. Tudo isto nos faz compreender por quemotivo, na Igreja, veneramos extremamente as Sagradas Escrituras, apesar da fécristã não ser uma «religião do Livro»: o cristianismo é a «religião da Palavrade Deus», não de «uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado evivo».[19] Por conseguinte a Sagrada Escritura deve ser proclamada, escutada,lida, acolhida e vivida como Palavra de Deus, no sulco da Tradição Apostólicade que é inseparável.[20]

 

Como afirmaram os Padres sinodais, encontramo-nos realmenteperante um uso analógico da expressão «Palavra de Deus», e disto mesmo devemosestar conscientes. Por isso, é necessário que os fiéis sejam melhor formadospara identificar os seus diversos significados e compreender o seu sentidounitário. E do ponto de vista teológico é preciso também aprofundar aarticulação dos vários significados desta expressão, para que resplandeçamelhor a unidade do plano divino e, neste, a centralidade da pessoa deCristo.[21]

 Dimensão cósmica da Palavra

 8. Conscientes do significado fundamental da Palavra de Deusreferida ao Verbo eterno de Deus feito carne, único salvador e mediador entreDeus e o homem,[22] e escutando esta Palavra, somos levados pela revelaçãobíblica a reconhecer que ela é o fundamento de toda a realidade. O Prólogo deSão João afirma, referindo-se ao Logos divino, que «tudo começou a existir pormeio d’Ele, e, sem Ele, nada foi criado» (Jo 1, 3); de igual modo na Carta aosColossenses afirma-se, aludindo a Cristo «primogénito de toda a criação» (1,15), que «tudo foi criado por Ele e para Ele» (1, 16). E o autor da Carta aosHebreus recorda que «pela fé conhecemos que o mundo foi formado pela palavra deDeus, de tal modo que o que se vê não provém das coisas sensíveis» (11, 3).

 Este anúncio é, para nós, uma palavra libertadora. De facto,as afirmações da Sagrada Escritura indicam que tudo o que existe não é fruto deum acaso irracional, mas é querido por Deus, está dentro do seu desígnio, emcujo centro se encontra a oferta de participar na vida divina em Cristo. Acriação nasce do Logos e traz indelével o sinal da Razão criadora que regula eguia. Esta feliz certeza é cantada nos Salmos: «Pela palavra do Senhor foramfeitos os céus, pelo sopro da sua boca todos os seus exércitos» (Sl 33, 6); eainda: «Ele falou e as coisas existiram. Ele mandou e as coisas subsistiram»(Sl 33, 9). A realidade inteira exprime este mistério: «Os céus proclamam aglória de Deus, o firmamento anuncia as obras das suas mãos» (Sl 19, 2). É aprópria Sagrada Escritura que nos convida a conhecer o Criador, observando acriação (cf. Sb 13, 5; Rm 1, 19-20). A tradição do pensamento cristão soubeaprofundar este elemento-chave da sinfonia da Palavra, quando por exemplo SãoBoaventura – que, juntamente com a grande tradição dos Padres Gregos, vê todasas possibilidades da criação no Logos[23] – afirma que «cada criatura é palavrade Deus, porque proclama Deus».[24] A Constituição dogmática Dei Verbumsintetizara este facto dizendo que «Deus, criando e conservando todas as coisaspelo Verbo (cf. Jo 1, 3), oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmona criação».[25]

 A criação do homem

 9. Deste modo, a realidade nasce da Palavra, como creaturaVerbi, e tudo é chamado a servir a Palavra. A criação é lugar onde sedesenvolve toda a história do amor entre Deus e a sua criatura; porconseguinte, o movente de tudo é a salvação do homem. Contemplando o universona perspectiva da história da salvação, somos levados a descobrir a posiçãoúnica e singular que ocupa o homem na criação: «Deus criou o homem à suaimagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 27). Istopermite-nos reconhecer plenamente os dons preciosos recebidos do Criador: ovalor do próprio corpo, o dom da razão, da liberdade e da consciência. Nistoencontramos também tudo aquilo que a tradição filosófica chama «leinatural».[26] Com efeito, «todo o ser humano que atinge a consciência e aresponsabilidade experimenta um chamamento interior para realizar o bem»[27] e,consequentemente, evitar o mal. Sobre este princípio, como recorda São Tomás deAquino, fundam-se também todos os outros preceitos da lei natural.[28] A escutada Palavra de Deus leva-nos em primeiro lugar a prezar a exigência de viversegundo esta lei «escrita no coração» (cf. Rm 2, 15; 7, 23).[29] Depois, JesusCristo dá aos homens a Lei nova, a Lei do Evangelho, que assume e realiza demodo sublime a lei natural, libertando-nos da lei do pecado, por causa do qual,come diz São Paulo, «querer o bem está ao meu alcance, mas realizá-lo não» (Rm7, 18), e dá aos homens, por meio da graça, a participação na vida divina e acapacidade de superar o egoísmo.[30]

 O realismo da Palavra

 10. Quem conhece a Palavra divina conhece plenamente tambémo significado de cada criatura. De facto, se todas as coisas «têm a suasubsistência» n’Aquele que existe «antes de todas as coisas» (Cl 1, 17), entãoquem constrói a própria vida sobre a sua Palavra edifica de modoverdadeiramente sólido e duradouro. A Palavra de Deus impele-nos a mudar onosso conceito de realismo: realista é quem reconhece o fundamento de tudo noVerbo de Deus.[31] Isto revela-se particularmente necessário no nosso tempo, emque manifestam o seu carácter efémero muitas coisas com as quais se contavapara construir a vida e sobre as quais se era tentado a colocar a própriaesperança. Mais cedo ou mais tarde, o ter, o prazer e o poder manifestam-seincapazes de realizar as aspirações mais profundas do coração do homem. Defacto, para edificar a própria vida, ele tem necessidade de alicerces sólidos,que permaneçam mesmo quando falham as certezas humanas. Na realidade, já que«para sempre, Senhor, como os céus, subsiste a vossa palavra» e a fidelidade doSenhor «atravessa as gerações» (Sl 119, 89-90), quem constrói sobre estapalavra, edifica a casa da própria vida sobre a rocha (cf. Mt 7, 24). Que onosso coração possa dizer a Deus cada dia: «Sois o meu abrigo, o meu escudo, navossa palavra pus a minha esperança» (Sl 119, 114), e possamos agir cada diaconfiando no Senhor Jesus como São Pedro: «Porque Tu o dizes, lançarei asredes» (L c 5, 5).

Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini –Introdução »

I Parte:
O Deus que fala »
Cristologia da Palavra »
A Palavra de Deus e o Espírito Santo »
Deus Pai, fonte e origem da Palavra »
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja »
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada »
A relação entre Antigo e Novo Testamento »
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas »

II – Parte:
A Igreja acolhe a Palavra »
A sacramentalidade da Palavra »
A palavra de Deus na vida eclesial »
Leitura orante da Sagrada Escritura e "lectio divina" »

III-Parte
A missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo »
Palavra de Deus e compromisso no mundo »
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes »
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas »
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso »

Conclusão
A palavra definitiva de Deus »


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