Formação

O Espírito como guia na Escritura

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Depois desta premissa, vamos ao versículo do capítulo oitavo da Cartaaos Romanos, sobre o qual eu gostaria de me deter hoje: «todos os quesão conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus» (Rm 8, 14).

O tema do Espírito Santo – guia não é novo na Escritura. Em Isaías, todoo caminho do povo no deserto é atribuído à guia do Espírito. «OEspírito do Senhor os guiou a descansar» (Is 63, 14). O próprio Jesus«foi levado (ductus) pelo Espírito ao deserto» (Mt 4,1). Os Atos dosApóstolos nos mostram uma Igreja que, pouco a pouco, é «conduzida peloEspírito». O próprio projeto de São Lucas de fazer que os Atos dosApóstolos siga os Evangelhos, tem o objetivo de mostrar como o mesmoEspírito que havia guiado Jesus em sua vida terrena agora guia aIgreja, como Espírito de «Cristo». Pedro vai para Cornélio e os pagãos?É o Espírito quem ordena (cf. Atos 10, 19; 11, 12); em Jerusalém, osapóstolos tomam decisões importantes? É o Espírito quem as sugeriu (15,28).

A guia do Espírito se exerce não só nas grandes decisões, mas tambémnas coisas pequenas. Paulo e Timóteo querem pregar o Evangelho naprovíncia da Ásia, mas «o Espírito Santo o havia impedido»; tentamdirigir-se para Bitínia, mas «o Espírito de Jesus não o consentiu»(Atos 16, 6 s). Compreende-se depois o porquê desta guia tãoimportante: o Espírito Santo impulsionava deste modo a Igreja nascentea sair da Ásia e assomar-se a um novo continente, a Europa (cf. Atos16, 9).

Para João, a guia do Paráclito é exercida sobretudo no âmbito daconsciência. É Aquele que «guiará» os discípulos até a verdade completa(Jo 16, 3); sua unção «ensina tudo», até o ponto que quem a possui nãoprecisa de outros mestres (cf 1 Jo 2, 27). Paulo introduz umaimportante novidade. Para ele, o Espírito Santo não é só «o mestreinterior»; é um princípio de vida nova («os que são guiados por Ele sãofilhos de Deus»!); não se limita a indicar o que se deve fazer, mastambém dá a capacidade de fazer o que manda.

Nisso, a guia do Espírito se diferencia essencialmente da da Lei quepermite ver o bem que deve ser cumprido, mas que deixa a pessoa a sóscom o mal que não quer (cf. Rm 7, 15 ss). «Se, porém, vos deixais guiarpelo Espírito, não estais sob a lei» (Gál 5, 18).

Esta visão paulina da guia do Espírito, mais profunda e ontológica(enquanto toca o próprio ser do crente), não exclui a mais comum demestre interior, de guia no conhecimento da verdade e da vontade deDeus, e nesta ocasião é precisamente disso que eu queria falar.

Trata-se de um tema que teve um amplo desenvolvimento da Igreja. SeJesus Cristo é «o caminho» (odos) que leva ao Pai (Jo 14, 6), oEspírito Santo – diziam os Padres – «é o guia ao longo do caminho»(odegos). «Este é o Espírito – escreve Santo Ambrósio –, nossacabeça e guia (ductor et princeps), que dirige a mente, confirma oafeto, atrai-nos onde quer e orienta para o alto nossos passos». Ohino Veni creator recolhe esta tradição nos versos: «Ductore sic tepraevio vitemus omne noxium»: convosco como guia todo mal evitaremos. OConcílio Vaticano II se compreende nesta linha quando fala «do Povo deDeus, movido pela fé, que o impulsiona a crer que quem o conduz é oEspírito do Senhor».


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