Formação

O frio por dentro – a falta de fogo do Espírito

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Dom Pedro José Conti

Apósum desastre, seis pessoas se encontraram na escuridão, numa noitegelada, numa ilha deserta. Cada uma segurava um pedaço de madeira namão. Não tinha outra lenha naquele lugar perdido no meio do mar. Nocentro, um pequeno fogo estava se apagando por falta de combustível. Ofrio era cada vez mais insuportável. Era o preciso fazer alguma coisa.A primeira pessoa era uma mulher branca. Numa rápida olhada ela viu orosto de um homem de pele escura. Pensou que não valia a pena gastar oseu pedaço de madeira para quem, talvez, nem trabalhasse; sem dúvidaele era um vagabundo. Apertou a lenha mais ainda na mão. O homem queestava ao seu lado viu outro que não era do mesmo partido, sentiu ódioe resolveu segurar o seu pedaço de madeira. “Nunca ajudar o inimigo”,pensou. A terceira pessoa era mal vestida, estava com um agasalho muitosujo e escondia, por baixo dele, o seu pedaço de madeira. Com certeza oseu vizinho era um homem rico. Não iria dar o pouco do que tinha a quemnão faltava nada. O rico, por sua vez, estava sentado, pensando nassuas riquezas, nas mansões, nas empresas, nas contas nos bancos. Estavaocupado com o celular tentando inutilmente fazer uma ligação. A bateriahavia descarregado. Achou que devia guardar o seu pedaço de madeirapara depois. Era mais seguro. O homem do rosto escuro sentiu certogosto de vingança. Agora todos estavam com frio, sem nenhuma distinçãoou privilegio. Não ia colaborar, não. Quantas vezes o haviam desprezadopela cor da sua pele. Segurou com raiva o seu pedaço de madeira. Oúltimo era um homem desconfiado. Não fazia nada sem ganhar algumacoisa. Podia até fazer um bom negócio naquela situação, mas, de graça,não dava o seu pedaço de lenha, de jeito nenhum. Também ele o seguroufirme na mão. No dia seguinte, quando chegou a equipe de resgate, osseis foram encontrados  mortos por causa do frio. Cada um segurava umpedaço de madeira na mão, e o fogo já estava apagado havia muito tempo.Não foi o frio por fora que os matou, mas o frio por dentro, que haviatomado conta dos seus corações.

Nodia de Pentecostes, os Atos dos Apóstolos apresentam a chegada doEspírito Santo com os sinais do vento e do fogo. Ambos são sinaisbíblicos, bem fáceis para ser compreendidos. O vento nos lembra a forçae a liberdade. O fogo recorda a luz e o calor. Sem energias e semespaço não vamos a lugar nenhum. Mas também sem claridade e sementusiasmo, ficamos parados e inseguros.

Odom do Espírito Santo é o fogo da missão. Representa a coragem de sairda nossa acomodação, a vontade de comunicar a alegria da boa notícia deJesus. Algo de tão forte que não dá mais para segurar, deve mesmo sermanifestado.

Essefogo é dado a todos, está guardado no fundo do nosso coração. Só semanifesta por fora se o mantivermos aceso e alimentado por dentro. Se odeixarmos apagar ficamos frios e indiferentes. Não entendemos maisporque deveríamos nos animar. Pensamos que não temos nada de importantepara comunicar aos outros; consideramos perda de tempo pensar em Deus eno próximo. Rezar também seria totalmente inútil. Participar dacomunidade: ocupação para desocupados. Ajudar os pobres, um desperdício.

Parareanimar esse fogo precisamos aprender a doar algo de nós, algo de queos outros precisem. Ao nosso redor há muitos irmãos na mesma situação.Estão sozinhos, fechados, olhando somente para si. Muitos sofrem porqueninguém os procura; ninguém os visita. É urgente quebrar esses muroscom gestos de aproximação, de diálogo, de solidariedade. O frio doegoísmo, da indiferença e da insensibilidade pode matar tanto quanto aviolência, o ódio e a exclusão.

Nodia de Pentecostes Jesus repete para nós: “Como o Pai me enviou, tambémeu vos envio. Recebei o Espírito Santo”. Se não queremos morrer todosde frio, cabe a nós não deixar apagar nunca o fogo do Espírito, o fogoda missão, o fogo do amor.


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