Formação

O homem é um ser orante

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Como você já sabe, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus e, como tal, foi criado para viver a intimidade com Deus, para relacionar-se “pessoalmente” com Deus, para conhecê-lO profundamente, para ser seu amigo (Gn 3,8). Pelo pecado original, que é um não dito à amizade e à submissão a Deus, o homem rompeu com o seu Criador, optando por não viver a comunhão com Ele, por não depender d’Ele, por não tê-lO como o sentido verdadeiro de sua vida. Fechou-se em si mesmo e a seu divino amigo, tornou-se seu inimigo, afastando-se do plano de Deus para a sua vida. Os seus pensamentos já não eram mais os pensamentos de Deus, os seus sentimentos, os seus desejos, deformando assim a imagem e semelhança de Deus e conseqüentemente perdendo a intimidade com Ele.

Quanto mais você se afasta da presença e da amizade de Deus, mais você se afasta da retidão e da sua vida verdadeira. É a mesma coisa que fosse retirado o ar que você tanto precisa para viver. Nós podemos verificar isso concretamente em nossas vidas: quando nos afastamos de Deus é como se perdêssemos a bússola para nos conduzir estando em alto mar. Quantas vezes erramos, nos sentimos derrotados em nossas opções de vida porque ficamos inteiramente cegos, surdos e conseqüentemente confundidos! A luz que iluminava nossos caminhos se tornou cada vez mais fraca, cada vez mais opaca. Já não sabemos mais quem somos nós e nem qual o nosso projeto de vida. Deus se encontra em um lugar e nos ficamos em outro completamente diferente. É como se não enxergássemos um palmo na frente do nosso nariz. E ficamos convictos de que o que optamos está muito certo, é a melhor coisa para as nossas vidas.

O próprio São Paulo estava convicto que a melhor coisa para a vida dele e de toda a humanidade era o judaísmo. No entanto ele precisou “cair do cavalo” para descobrir que as suas convicções não eram tão certas assim. E ele mesmo diz: “Certamente ouvistes falar de como outrora eu vivia no judaísmo: com que excesso eu perseguia a Igreja de Deus e a assolava; avantajava-me no judaísmo a muitos dos meus companheiros de idade e nação, extremamente zeloso das tradições de meus pais… Mas, quando aprouve àquele que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça para revelar seu Filho em minha pessoa, a fim de que eu o tornasse conhecido entre os gentios, imediatamente, sem consultar a ninguém, sem ir a Jerusalém para ver os que eram apóstolos antes de mim, parti para a Arábia… Damasco… Jerusalém… regiões da Síria e da Cilícia. Eu era ainda pessoalmente desconhecido das comunidades cristãs da Judéia; tinham elas apenas ouvido dizer: ‘Aquele que antes nos perseguia, agora prega a fé que outrora combatia’. E glorificavam a Deus por minha causa” (Gal 1,13-23).

Nós não tínhamos mais como, por nós mesmos, voltar a esta amizade com Deus, para que Ele nos conduzisse, nos alimentasse e nos levasse a viver a vida que nós tínhamos sido criados para viver, que era a vida divina, que era ser a imagem e semelhança de Deus. Porém, através da vinda de Jesus ao mundo, toda inimizade entre o homem e Deus foi destruída (Ef 2,12-18) e por Ele a imagem e semelhança de Deus no homem foi restaurada. Os pensamentos, os sentimentos, os desejos de Deus foram colocados novamente no mais íntimo do seu ser (Ez, 36,27) e agora o homem pode viver a vida de amor com o Deus para o qual foi criado, pode ser íntimo de Deus, pode ter vida interior e divina, pode participar da vida divina.

Foi desterrada toda apatia do seu coração, foi destruída toda indiferença que paralisa a ação divina e afasta as suas graças e feito arder o zelo pela glória de Deus. Pela morte e ressurreição de Jesus, o muro de separação foi destruído e aconteceu a efusão do Espírito Santo no coração de cada homem. Afirma São João que “de sua plenitude todos recebemos graça sobre graça” (Jo 1,16). “Assim como a chuva, em sua estação, desce abundantemente do céu e se acumula entre as cavidades rochosas da montanha até encontrar um caminho para o exterior e poder transformar-se em fonte que jorra dia e noite, no verão e no inverno, assim também o Espírito desceu e se acumulou completamente em Jesus durante a sua vida terrena até encontrar na cruz um caminho, uma ferida e transformar-se para a Igreja em fonte que brota para a vida eterna” (1).

Pelo Espírito Santo que habita no interior do homem através da graça do batismo, o seu coração está habitado por um germe de oração. A oração é fruto de uma graça que é gerada por Deus no homem, por isto o homem não pode criá-la mas seguir seus impulsos e suas inspirações. O homem foi criado para orar, e se, pelo pecado, havia se desviado desta vocação, o Pai, através de seu Filho, pelo poder do Espírito Santo, pelo batismo restituiu-lhe a graça de orar.

O homem é o único ser criado que tem a capacidade de superar as suas limitações, como também o único capaz de auto-transparência, de transcendência e de liberdade, isto é, é o único ser criado aberto, capaz de um encontro pessoal com Deus, de um diálogo com seu Criador.

Diz o Concílio: “Por sua interioridade é superior ao universo inteiro. A essas profundidades (de si mesmo) retorna quando entra em seu coração, onde o aguarda Deus, perscrutador dos corações, e onde ele, pessoalmente, sob o olhar de Deus, decide seu próprio destino” (GS 14). O homem precisa voltar-se para dentro de si mesmo, para o centro do seu ser e descobrir o seu coração de oração. É um movimento de regresso ao centro de si mesmo para encontrar nele Deus presente e operante.

Através da oração, isto é, deste encontro do homem com o seu Deus, deste relacionamento de intimidade com Deus, deste diálogo penetrante e transformador, a imagem de Deus nele vai resplandecendo passo a passo e o homem vai adquirindo a sua verdadeira imagem, a sua verdadeira dignidade O homem vai tornando-se verdadeiramente humano e Deus vai lhe restituindo o sentido real de sua vida e assim vai sendo conduzido para alcançar o seu destino último: a vida eterna com Deus, a vida eterna de felicidade e de realização.


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