Formação

O livro do Êxodo

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O segundo livro da Bíblia tem especial importância. Ele está para a Antiga Aliança como os Evangelhos para o Novo Testamento. É que os fatos que aí são narrados mostram o verdadeiro aparecimento de Israel, povo escolhido, para o qual Deus devota especiais atenções. A libertação do cativeiro egípcio, onde jaziam oprimidos os hebreus; a figura ímpar de Moisés; as pragas do Egito; o êxodo ou partida e a travessia do Mar; a caminhada até o Sinai; a teofania neste lugar; o Decálogo; o Código da Aliança; a aliança de Moisés e dos anciãos; as instruções para a construção da Arca e do santuário; o bezerro de ouro; o outro relato da Aliança e o decálogo cultural; a gloria de Moisés; a construção da Arca e do santuário, tudo está repleto de profundo significado. Javé é o Deus libertador que constitui a sua nação predileta em vistas à vinda do Redentor prometido. O nacionalismo e a religiosidade israelitas fulgem no êxodo de maneira clara. Os hebreus perceberam, ao vivo, o excelso ato salvífico do Todo-Poderoso. Neste se prefigura a salvação que Jesus operaria para toda a humanidade. No dizer de São Paulo as realidades espirituais se deram com Cristo, elas que estavam simbolizadas no que ocorreu outrora (1 Cor 10,1-6). A temática do êxodo impregnou a mente dos escritores sagrados. Para São Pedro (1 P 1,18) e São João (1,29) o Messias é o Cordeiro Pascal, sem mancha, cujo sangue resgata e liberta. Várias outras passagens do Novo Testamento fazem referência aos eventos narrados no êxodo. Aliás já os profetas assim procederam, como Jeremias: “Maldito o homem que não ouvir as palavras desta aliança, a qual eu fiz com vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito, daquela fornalha de ferro, dizendo: Ouvi a minha voz, e fazei todas as coisas que vos mando, e sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus …” (11,4). Os salmistas também estavam imbuídos do senso soteriológico do Êxodo, como se pode ver, por exemplo, nos salmos 105 e 135. Neste último se lê: “Louvai ao Senhor dos senhores, porque sua misericórdia é eterna … O que feriu os egípcios nos seus primogênitos, porque a sua misericórdia é eterna. E tirou Israel do meio deles, porque a sua misericórdia é eterna, com mão poderosa e braço levantado, porque a sua misericórdia é eterna. O que dividiu em duas partes o Mar Vermelho, porque a sua misericórdia é eterna. E fez passar Israel pelo meio deles, porque a sua misericórdia é eterna. E precipitou Faraó e o seu exército no Mar Vermelho porque a sua misericórdia é eterna. O que conduziu o seu povo pelo deserto, porque a sua misericórdia é eterna”. É que Deus se revelou a Israel através de seus feitos admiráveis e fez com ele um trato de escachoante ternura. Aglutina forças humanas para salvar quem estava na casa da escravidão. Uma aventura do amor do Onipotente que está ao lado de Israel como seu salvador e protetor. Como observa Stroete, “o que Israel pensava de Deus não era resultado de especulações e raciocínios que partissem das criaturas para encontrar a Deus, mas de uma experiência direta, histórica, possível pela fé. Israel conheceu o seu Deus nos seus feitos, nos grandes acontecimentos pelos quais Ele se manifestou historicamente, agindo em favor deste povo. Javé não é o fecho de um raciocínio que pretende explicar racionalmente a essência das coisas, mas um Deus de salvação, um Deus redentor que se revela na história e é, pela fé, encontrado na História”. O significado histórico-religioso do êxodo é, deste modo, de valor atual. Realizou-se, além disto, plenamente com Cristo tudo que as várias passagens tipicamente retinham. Assim como Israel foi libertado do Faraó por Moisés, por Jesus o novo povo de Deus se livra do cativeiro de Satanás. A caminhada pelo deserto representou bem a trajetória humana rumo à Jerusalém celeste. O Deus que liberta exige a fidelidade e a obediência à sua lei. “Amor com amor se paga”, e não com ingratidão, é o eco sublime do livro do Êxodo. Nelis pondera que a explicação da travessia do deserto depende do “ponto de vista didático-moralizador em que se colocam teus textos. O Salmo 95,10 declara que Israel, durante aqueles quarenta anos, foi para Javé uma abominação, porque o povo sempre de novo errava e não mostravam compreensão dos caminhos de Javé (cf. Ez. 20,10-26), por isso o salmista faz um apelo aos seus contemporâneos, para que agora escutem a Deus e não endureçam o seu coração como em Massa e Meriba (v. 7 s; cf, Deut 6,16), quando seus antepassados tentavam Javé (Sl 78,18,41; 81,12 s; 95,8; 106,14). Javé, porém, está sempre pronto para lhes conceder os mesmos e até maiores benefícios, contando que queiram andar pelos seus caminhos” (81,14-17). Acrescente-se que o decálogo, que compendia a lei natural, é o regulador de todas as normas possíveis em todos os tempos. É a regra fundamental da moralidade. Não se trata, em absoluto, de imposição de Deus, mas de um roteiro da felicidade que Ele oferece. Por isto agredir a ordem ética é provocar horripilas desordens, sempre a deixarem funestas seqüelas. Uma delicadeza divina foi delinear claramente para os homens exigências éticas que apelam para o que há de mais recôndito na consciência do ser racional. É por tal razão que os dez mandamentos não estavam destinados exclusivamente a Israel, mas a todos os povos, particularmente para o novo Israel que é a Igreja de Cristo. Sábio é quem ama e pratica a Lei do Senhor Libertador. Eis a mensagem suprema do Êxodo. * Professor no Seminário de Mariana – MG

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Fonte: Católicanet


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