Formação

O primado da palavra

comshalom

Dom Walmor Oliveira de Azevedo


Aatual pauta da sociedade contemporânea está incluindo, com bastantefrequência, temas importantes sobre a religião, confissões religiosas,vivências de fé, tradições, ritos e igrejas, além das suas relações comoutras instituições. Particularmente diversificadas são as opiniõesacerca do Estado laico e os alcances de suas relações com igrejas epráticas religiosas. O Estado é laico, é uma assertiva já com tom deantífona, mas a sociedade é marcadamente religiosa. Ainda, a laicidadedo Estado não pode permitir que um tratamento discriminatório ouindiferente venha por parte dele, em se considerando especialmente seudever de cuidar das necessidades básicas de sua sociedade. Seria umatemeridade banir religiões e igrejas dos cenários de uma sociedade.

Éimportante, então, que se faça esta discussão. É um percurso importantede maturação na compreensão destas questões. Trata-se de umacompreensão cuja clarividência é indispensável para que se possagarantir o bem comum, sem desconsiderar aspectos e dimensões que têmreal importância na vida de um povo.  Esta discussãotrata sobre o alcance e a significação da grande importância que areligião e suas diversificadas formas de confessionalidade têm tido navida de cada pessoa. Assim também, tem tido grandes influênciassociais, culturais e políticas na vida e na história dos povos. Porisso, é interessante acompanhar e fomentar esse debate para qualificara reflexão que a sociedade contemporânea precisa produzir como alimentodado a ela mesma.

Estedebate sobre o lugar da religião e consequências práticas de suavivência, ritos, tradições, como outros aspectos que a definem, temoportunizado o início de uma abordagem mais substantiva sobre asquestões que tocam o âmago das necessidades vitais da sociedade e dosseus integrantes. Não se pode tecer uma sociedade madura apenas com um‘lero-lero’. Modo popular de dizer ‘conversa fiada’ e multiplicada, semforça de novas configurações, de mudança de mentalidade e produção deentendimentos sociopolíticos e antropológico-culturais novos.

Nãoé, portanto, só o PIB, o pré-sal, a destinação dos seus sonhadosresultados financeiros, a sucessão presidencial ou o superávit primárioque têm importância e garantem uma sociedade modernizada edesenvolvida. O que a sua população e instituições podem e sabemdiscutir e refletir tem força determinante sobre seu destino edesdobramentos na sua história.

Énecessário que a sociedade discuta questões que dizem respeito àimportância e necessidade incontestável da religiosidade na vida de seupovo. Avançar, então, na discussão sobre a laicidade do Estado e daconfessionalidade de Igrejas significa avaliar qualidades,procedimentos e comprometimentos. Não se pode brincar com vivênciareligiosa, mesmo descontando o natural e insubstituível respeito àsliberdades individuais. E menos ainda entender e fazer do afazerreligioso um negócio ou exploração mercadológica.  Nestaimportante discussão de interesse para a sociedade é preciso focar asraízes, motivações e história das práticas religiosas. Não bastasimplesmente fazer uma lei geral, considerada por muitos como um riscode liberação geral, para acalmar e acomodar fúrias religiosas ougarantir conivências políticas.

Nãose pode correr o risco de garantir direitos de inventar uma religião esuas práticas a qualquer um. Do contrário, valerá o que cada umsimplesmente disser, como se diz, tirando de ‘detrás da orelha’, eproclamando como verdade e como dogma o que anuncia. O cristianismo nasua autenticidade, enraizado na tradição judaica, se afirma peloprimado da palavra – que não é anunciado por qualquer pessoa. É oprimado da Palavra de Deus. A Palavra de Deus que é Jesus Cristo, oVerbo que se fez carne e habitou entre nós.

Esteprimado da Palavra exige dos discípulos de Jesus Cristo uma escutacotidiana desta Palavra. Sem manipulações arriscadas que a enjaula numapanacéia milagreira, reduzindo a exigência de uma experiência de fé,obediência e confiança para transformar a vida, em expectativas dereceber simplesmente o que se precisa, como se Deus fosse prateleira desupermercado na qual se apanha, gratuitamente, o que se quer.

Oprimado da Palavra de Deus tem no episódio contado por São João nocapítulo seis do seu Evangelho, depois da multiplicação dos pães, adireção certa, quando muitos entenderam como duro demais o que Jesusestava dizendo, e o abandonaram. Perguntados os discípulos se queriamir embora também, Pedro respondeu: “A quem iremos nós, Senhor, só tutens palavras de vida eterna”. O primado da Palavra de Deus é fonteinesgotável de qualificação de toda palavra que se pronuncia, de todojuízo e de toda edificação. Palavra é vida e compromisso. O primado daPalavra de Deus é exigência de escuta permanente para qualificar o quese diz, e com o que se diz edificar.


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