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O que é o amor e quem é o Amor? (Caso Eloá)

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 Aindaestamos acompanhando na imprensa o desenrolar das investigações doassassinato da adolescente Eloá (15 anos) pelo seu ex-namorado, o jovemLindemberg (22 anos), em Santo André / SP. Mais um crime que nos chocae mais uma vez uma pessoa inocente é vítima de um desequilíbrioemocional.

Diantede tal acontecimento que leva, infelizmente, o nome do "amor", o "matarpor amor", ficamos pasmos. Como não lembrar da expressão do Papa BentoXVI [1] que diz: "O eros inebriante e descontrolado não é subida (…), masqueda, degradação do homem (…), o eros necessita de disciplina." Casocontrário, seu desequilíbrio chega ao extremo de fazer sofrer e atéaniquilar uma pessoa a quem se ama, como a si mesmo.


  Somenteo eros elevado até o amor "ágape" pode então se transformar em "amorque cuida, que não busca a si próprio, mas busca o bem do amado:torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, antes, procura-o pelobem da pessoa amada".[2] Masa renúncia é um valor muito pouco valorizado nos nossos tempos. Filhosde um imediatismo cruel, de uma sociedade que tudo descarta quando setrata de um valor moral, religioso, evangélico, somos treinadosinconscientemente para o desequilíbrio emocional. Aceitar perder, calarmesmo estando certo, silenciar para não ferir o outro , desculpar-sequando formos grosseiros… tudo parece sinônimo de ser abobalhado e, alguns ainda dizem: não é mais possível viver isso!


 Oque diria Freud se estivesse vivo a contemplar esse "libido"enlouquecido dos nossos jovens onde tudo deve gerar, a qualquer custo,satisfação pessoal, prazer egoísta e possessividade? Também o filósofoNietzsche precisaria ficar convencido de que o Cristianismo não põeveneno no eros, mas pelo contrário, dignifica-o, eleva-o e impulsiona-oa ir além da emoção, ou seja, torna-o amor que quer a felicidade dooutro, saindo assim o eros da sua embriagues irracional.

 Recordoo Evangelho do Domingo em que morreu no hospital a adolescente Eloá (Mt2, 15-21: Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César!)Fiquei pensando comigo: "Quem são os Césares do nosso tempo?" Não serãotodos aqueles nos quais depositamos todas as nossas expectativashumanas como busca desesperadora por felicidade, por ser amado? Césarse proclamava "deus" e precisava corresponder às expectativas dos seussúditos. Eloá veio assim a se tornar "uma deusa" para o jovemLindemberg. Ela não pôde corresponder às expectativas do ex-namorado ea ordem era a mesma de Herodes quanto ao pequeno menino Jesus: matar!Se não compartilha dos meus interesses não pode viver! Não é esta anova "regra de ouro da violência" nos nossos dias?


 Oamor eros é uma vitalidade indispensável! Ele é a mola propulsora dasnossas emoções e essa capacidade de fazer emanar os impulsos, mas senão faz uma ascendência ao amor ágape, único capaz – diz o Papa BentoXVI – de prometer infinitude e eternidade, não pode amadurecer nocuidar, na promoção da felicidade de si e nem do outro. Tal amor erosnão terá condições de deixar o outro livre, mas sua liberdade serásempre uma ameaça para mim.

 Seráque a jovem Eloá tinha o direito de fazer sua opção enquanto digna dodireito e da possibilidade de construir o seu futuro? Lindemberg nãoconseguiu compreender que "somos livres", que Deus nos criou livres,com o altíssimo dom da liberdade e que, por meio dela, podemos atémesmo cometer a loucura de rejeitar amar o próprio Deus. Apesar disso,Deus não deixa de nos amar, ama-nos ao extremo de dar a vida do seupróprio Filho pela nossa salvação.


 Ospais costumam afirmar: "Nossos meninos não sabem mais amar!". Nossosjovens não sabem mais o amor de altruísmo, que cuida, que dá a vidapelo outro e não o contrário, que rouba desastrosamente a vida dooutro. Mas os pais não sabem mais dar limites aos filhos. Asconseqüências desta educação são catastróficas. Nossos jovens estãoamando errado porque já não conseguem encontrar nos pais aquele modelode amor que renuncia pelo bem do outro, que perdoa, que protege, quesabe sempre recomeçar no amor quando o outro erra, que simplesmente ama.


 Também– dizem os pais – os nossos meninos não suportam mais ouvir um "não"!Qualquer "não" é sempre uma ameaça. Não se tem mais estrutura,maturidade humana para viver a abnegação e a capacidade de querersempre a felicidade do amado mesmo que eu tenha que perder. Aqui não sepode esquecer daquela adolescente da cidade de Nazaré, a Virgem Maria,que soube refletir sobre o pedido do anjo, pediu-lhe uma explicação,mas livremente renunciou aos seus lindos planos para fazer a vontade deDeus. Quão bela foi a atitude do jovem José, seu castíssimo esposo:amou aquela adolescente e se dispôs a dá a vida por ela! O amorsimplesmente ama em qualquer situação. Ah se os casais de hojeconseguissem viver isso e o comunicassem aos seus meninos e meninas!


 Eperguntamos: por que nossos jovens não refletem mais suas decisões? Aagressividade, o desespero e a violência são as respostas quando ocoração não mais se eleva para dá uma resposta positiva aos "nãos" davida? O amor, o verdadeiro amor não pode matar, mas ele se entregalivremente: "Ninguém me tira a vida, eu a dou por mim mesmo" (Jo10,18). O verdadeiro amor não interrompe a beleza e o curso da vida,não arranca dela a única oportunidade de fazer sua escolha e buscarseus planos e sonhos. O amor não pode fazer de "uma paixão nãocorrespondida" uma decisão cruel de destruir tal vida, por sua vez, tãojovem. Eloá só queria o direito de poder escolher um namorado quepudesse, com ela, construir uma família feliz e que pudessem como casalensinar aos filhos o que é amar até o extremo para se querer afelicidade do outro. Realmente ela estava certa na sua decisão, mas nãopode exercer sua liberdade de ao menos ter a chance de tentar noexercício de aprender a amar.


 Nadase pode justificar tamanha covardia, mas, apesar de tudo, não se podeesquecer que a misericórdia de Deus nunca destruirá a liberdade dosseus filhos. Essa misericórdia é a única que pode elevar a vida à suaaltíssima vocação que é o amor a Deus. Lindemberg é hoje mais um réu deuma justiça humana, mas será sempre convidado a ser filho na comunhãodo amor. Não vim para os bons, mas para os doentes, diz o Senhor davida. Precisamos – nós cristãos – sair de um simples sensacionalismo enos conscientizarmos de que o homem de hoje, as Famílias e,especialmente, os nossos jovens, precisam encontrar o Evangelho, que éuma Pessoa, Jesus Cristo, o único que pode satisfazer a todos os nossosmais profundos anseios do coração e da alma.

 Rezemos ao Pai, com Bento XVI,[3] através do coração de Maria: "Mostra-nos, ó Virgem e Mãe, o que é oamor, onde este tem sua origem e de onde recebe incessantemente suaforça". Ensina-nos Mãe e, aos pais de hoje, aos filhos e aos jovensnamorados, o que é o amor e quem é o amor! Assim seja!

 

 

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[1] Cf. Deus Caristas Est, 4.

 

[2] Cf. Ibidem, 6.

 

[1] Deus Caristas Est, 40


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