Formação

O sacerdote na celebração do tríduo pascal

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Neste Semana Santa, Nicola Box, professor de LiturgiaOriental e consultor de diversos dicastérios da Santa Sé, propõe umasubstanciosa meditação litúrgica sobre os principais momentos e símbolos dascelebrações próprias do tríduo pascal. As reflexões de Bux representam umaajuda válida – oferecida tanto a sacerdotes como aos demais fiéis, emparticular aos cooperadores da pastoral litúrgica – para nos aproximar dosmistérios divinos que estão sendo celebrados nesta semana, com espírito de fécontemplativa e de oração de adoração, e não de mero pragmatismo organizativo.Aproveitamos a ocasião para desejar aos nossos leitores uma Santa Páscoa,repleta de frutos de alegria interior e de conversão (Mauro Gagliardi).

A Carta aos Hebreus é o único texto do Novo Testamento queatribui ao nosso Senhor Jesus Cristo os títulos de “Sacerdote”, “SumoSacerdote” e “Mediador da Nova Aliança”, graças à oferenda do sacrifício do seucorpo, antecipado na Ceia mística da Quinta-Feira Santa, consumado sobre a cruze apresentado ao Pai com a ressurreição e a ascensão ao céu (cf. Hb 9,11-15).Este texto é meditado na Liturgia das Horas da quinta semana da Quaresma – ouda Paixão, como no calendário litúrgico da forma extraordinária do Rito Romano– e na Semana Santa.

Nós, sacerdotes católicos, devemos sempre contemplar Cristoe ter os mesmos sentimentos d’Ele; esta ascese acontece com a conversãopermanente. Como se realiza a conversão em nós, sacerdotes? No rito daordenação nos é pedido o ensino da fé católica, não das nossas ideias;“celebrar com devoção dos mistérios de Cristo – isto é, a liturgia e ossacramentos – segundo a tradição da Igreja”, e não segundo o nosso gosto;sobretudo, “estar cada vez mais unidos a Cristo Sumo Sacerdote, que, comovítima pura, ofereceu-se ao Pai por nós”, isto é, conformar nossa vida segundoo mistério da Cruz.

A Santa Igreja honra o sacerdote e o sacerdote deve honrar aIgreja com a santidade da sua vida – este foi o propósito de Santo Afonso Mariade Ligório no dia da sua ordenação –, com o zelo, com o trabalho e com odecoro. Ele oferece Jesus Cristo ao Pai Eterno e por isso deve estar revestidodas virtudes de Jesus Cristo, para preparar-se para o encontro com o Santo dosSantos. Que importante é a preparação interior e exterior para a sagradaliturgia, para a Santa Missa! Trata-se de glorificar o Sumo e Eterno Sacerdote,Jesus Cristo.

Pois bem, tudo isso se realiza em grau máximo na SemanaSanta, a Grande e Santa Semana, como dizem os orientais. Vejamos alguns dosseus principais atos, com base no cerimonial dos bispos.

1. Com a Missa in Cena Domini, da Quinta-Feira Santa, osacerdote entra nos principais mistérios – a instituição da SantíssimaEucaristia e do sacerdócio ministerial –, assim como do mandamento do amorfraterno, representado pelo lavatório dos pés, gesto que a liturgia coptarealiza ordinariamente cada domingo. Nada melhor para expressá-lo que o cantodo Ubi caritas. Após a comunhão, o sacerdote, usando o véu umeral, sobreao altar, faz a genuflexão e, ajudado pelo diácono, segura a píxide com as mãoscobertas pelo véu umeral. É o símbolo da necessidade de mãos e corações purospara aproximar-se dos mistérios divinos e tocar o Senhor!

2. Na Sexta-Feira Santa in Passione Domini, o sacerdoteé convidado a subir ao Calvário. Às três da tarde, às vezes um pouco maistarde, acontece a celebração da Paixão do Senhor, em três momentos: a Palavra,a Cruz e a Comunhão. Dirige-se em procissão e em silêncio ao altar. Depois deter reverenciado o altar, que representa Cristo na austera nudez do Calvário,ele se prostra em terra: é a proskýnesis, como no dia da ordenação. Assim,expressa a convicção do seu nada diante da Majestade divina, e o arrependimentopor ter se atrevido a medir-se, por meio do pecado, com o Onipotente. Como oFilho que se anulou, o sacerdote reconhece seu nada e assim tem início suamediação sacerdotal entre Deus e o povo, que culmina na oração universalsolene.

Depois se faz a ostensão e a adoração da Santa Cruz: osacerdote se dirige ao altar com os diáconos e lá, em pé, ele a recebe e adescobre em três momentos sucessivos – ou a mostra já descoberta – e convida osfiéis à adoração, em cada momento, com as palavras: Eis o lenho da cruz,do qual pendeu a salvação do mundo. Em sua descarnada solenidade, aqui, no coraçãodo ano litúrgico, a tradição resistiu tenazmente mais que em outros momentos doano.

O sacerdote, após ter depositado a casula, se possíveldescalço, aproxima-se primeiramente da Cruz, ajoelha-se diante dela e a beija.A teologia católica não teme em dar aqui à palavra “adoração” seu verdadeirosignificado. A verdadeira Cruz, banhada com o sangue do Redentor, torna-se, porassim dizer, uma só coisa com Cristo e recebe a adoração. Por isso,prostrando-nos diante do lenho sagrado, nós nos dirigimos ao Senhor: “Nós vosadoramos, ó Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz redimistes omundo”.

3. APáscoa do Reino de Deus se realizou em Jesus: oferecida e consumida a Ceia, “nanoite em que ia ser entregue”; imolada sobre o Calvário na Sexta-Feira Santa,quando “houve escuridão sobre toda a terra”, mais uma vez à noite recebe aconsagração da aprovação divina, na ressurreição de Cristo Senhor: por João,sabemos que Maria Madalena se aproximou do sepulcro “bem de madrugada”;portanto, aconteceu nas últimas horas da noite após o sábado pascal.

No Novus Ordo, o sacerdote, desde o início da Vigília,está vestido de branco, como para a Missa. Ele abençoa a fogo e acende o círiopascal com o novo fogo, se procede, após ter aplicado, como na liturgia antiga,uma cruz. Depois grava sobre o lado vertical da cruz a letra grega alfa e,abaixo, a letra omega; entre os braços da cruz, faz a incisão de quatroalgarismos para indicar o ano em curso, dizendo: Cristo ontem e hoje.Depois, feita a incisão da cruz e dos demais sinais, pode aplicar no círiocinco grãos de incenso, dizendo: Por suas santas chagas. Depois, cantandoo Lumen Christi, guia a procissão rumo à igreja. O sacerdote está à cabeçado povo dos fiéis aqui na terra, para poder guiá-lo ao céu.

É o sacerdote que entoa solenemente Eis a luz deCristo!. Ele o canta três vezes, elevando gradualmente o tom da voz: o povo,depois de cada vez, repete-o no mesmo tom. Na liturgia batismal, o sacerdote,estando de pé diante da fonte, abençoa a água, cantando a oração: Ó Deus,por meio dos sinais sacramentais; enquanto invoca: Desça, Pai, sobre estaágua, pode introduzir nela o círio pascal, uma ou três vezes.

O significado é profundo: o sacerdote é o órgão fecundadordo seio eclesial, simbolizado pela fonte batismal. Verdadeiramente, na pessoade Cristo Cabeça, ele gera filhos que, como pai, fortifica com o crisma e nutrecom a Eucaristia. Também em razão destas funções maritais com relação à Igrejaesposa, o sacerdote não pode senão ser homem. Todo o sentido místico da Páscoase manifesta na identidade sacerdotal, chegando à plenitude, o plếroma,como diz o Oriente. Com ele, a iniciação sacramental chega ao cume e a vidacristã se torna o centro.

Portanto, o sacerdote, que subiu com Jesus à cruz naSexta-Feira Santa e desceu ao sepulcro no Sábado Santo, no Domingo de Páscoapode afirmar realmente com a sequência: “Sabemos que Cristo verdadeiramenteressuscitou dentre os mortos”.


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