Formação

O único sermão

comshalom

Há muitos anos um frade foi a uma igreja e fez o seu primeiro sermão. Repetiu-o na segunda semana. Continuou na terceira semana sem mudar uma palavra. A comunidade dos fiéis começou a não gostar. Toda pregação é enjoada por si só, mas aquele homem estava exagerando: repetia sempre as mesmas coisas, palavra por palavra.

Depois do quinto sermão igual aos outros, os fiéis escolheram um representante para ir ter com o frade e protestar:

– O que está acontecendo? – questionou o devoto – O senhor tem só um sermão para pregar?

– Não – respondeu o frade – tenho muitos outros.

– Então, por que está nos cansando sempre com a mesma pregação?

O frade pensou um instante, depois disse: – Vocês não fizeram nada. Se não começarem a agir conforme ao meu primeiro sermão, não posso passar ao segundo. Por cinco vezes repeti a mesma coisa e não fizeram nada. Se continuar assim, não vou mudar para o segundo sermão.

Aos poucos, a comunidade dos fiéis começou a desertar a igreja. No entanto o frade estava sempre lá repetindo a sua homilia também quando não tinha mais ninguém a escutá-lo. A comunidade decidiu passar longe da igreja, mas as palavras do frade ressoavam, muitas vezes, fora das paredes. Parecia uma obsessão. Uma desgraça. O frade, vez por outra, parava um fiel na rua e perguntava: – O senhor já fez alguma coisa a respeito do meu primeiro sermão?

Foram obrigados a amordaçá-lo e a retirá-lo da cidade. Mas era tarde demais. No segredo dos seus corações, estavam brotando as sementes do primeiro sermão. Quando este deu os seus primeiros frutos, porém, o santo frade já estava muito longe.

Repetir coisas é cansativo. Enjoa quem repete e quem escuta. Pode virar rotina, e nos faz perder o sentido das palavras e dos gestos. Com isso, facilmente somos levados a desprezar os gestos e as palavras repetitivas. As novidades nos fascinam e atraem; as coisas e os gestos repetidos nos parecem cansativos, velhos e enjoados. Contudo deveríamos aprender a fazer algumas distinções entre o que é mesmo inútil repetir e o que precisa ser repetido até a exaustão, porque nós temos muito ainda a melhorar. Certos valores devem ser repetidos justamente para não ser esquecidos, para nunca desistirmos de buscá-los.

A repetição segue junto à insistência e à perseverança. Mais ainda, quando quem insiste acredita no seu pedido está convencido da bondade e do valor da sua súplica.

Com a parábola do juiz corrupto e da viúva, que consegue aborrecê-lo com sua insistência, Jesus quer nos ensinar a nunca desistir da oração. Não está falando, portanto, de qualquer insistência e de qualquer pedido. Mas da súplica de quem espera algo de bom e de certo. A viúva pede justiça a quem deveria fazê-la acontecer. Pede, incansavelmente, para aquele que tem todo o poder e a força de satisfazer o seu pedido. Se até o juiz injusto acaba fazendo a coisa certa, isto é, a justiça, quanto mais o próprio Deus. Ele saberá satisfazer os pedidos dos que o invocam dia e noite. Jesus nos ensina a força da oração, a força da perseverança e a bondade de Deus.

Nem sempre e nem todos nós, porém, acreditamos que o Pai bondoso atende aos pedidos dos seus filhos. Temos muitas dúvidas, assim como temos também muita vontade de desistir, por acharmos inútil continuar. Jesus nos convida a acreditar e a confiar sempre. Por isso, a insistência torna-se uma prova de fé e de esperança, mesmo se os acontecimentos nos parecem dizer o contrário. É que o amor-justiça do Pai não deve ser medido ou julgado por nós somente, com os nossos critérios humanos e limitados. Deus tem à sua disposição um tempo que dura a eternidade e um amor que não tem fim.

Se o amor-justiça é a resposta de Deus, o que cabe a nós é a insistência. Esta revela que acreditamos no que pedimos, no seu valor para a nossa vida. Assim, o que buscamos norteia a nossa existência, torna-se compromisso, lutamos para que também se torne realidade. Pedimos o que queremos conseguir, o que já começamos a construir. Esses bens, por serem grandes como a paz e a própria justiça, por exemplo, são, ao mesmo tempo, dons de Deus e fruto do nosso querer. Isso porque Deus não quer nos dar o que nós não queremos, ou o que desistimos de pedir, por considerarmos pouco importante. Nós precisamos fazer a nossa parte, como a viúva insistente. Os frutos começarão a aparecer. Assim poderemos passar finalmente ao segundo sermão. Não porque cansados do velho ou pelo gosto da novidade, mas por ter dado um passo à frente. Por ter alcançado o que buscávamos com afinco. Graças a Deus e à nossa perseverança.


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