Formação

Oh, meu Francisco, não deves mais chorar!

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Ainda nos anos 80, Frei Felipe ensinou aos noviços umamúsica tradicional italiana que, a cada ano que passa, toma um novo e maisprofundo sentido para nós, ensinando-nos muito sobre a beleza da amizade, dosafetos e da benevolência do Deus que se fez homem como nós:

Chorando,Francisco disse um dia a Jesus:

“Amo o sol e asestrelas, amo Clara e as irmãs,

amo o coração dohomem, amo todas as coisas belas.

Oh, meu Senhor, medeves perdoar,

pois só a Ti eudeveria amar.”

 

Sorrindo, o Senhorrespondeu-lhe assim:

“Amo o sol e asestrelas, amo Clara e as irmãs,

amo o coração dohomem, amo todas as coisas belas.

Oh, meu Francisco,não deves mais chorar,

porque eu amoaquilo que tu amas.”

 

Em português a rima certamente não fica lá essas coisas, masa mensagem ultrapassa em muito esta pobreza poética. Francisco chora porque,além de amar a Deus, ama a natureza – o sol e as estrelas. Culpa-se porque,além de amar a Deus, ama as pessoas – Santa Clara e suas irmãs. Penitencia-sepor ser apaixonado pelo homem em sua beleza interior. Acusa-se por amar o que ébelo. Aos prantos, pede perdão a Deus pois está convencido que só a Ele deveriaamar. Julga-se impuro, ingrato, pecador, por amar outras coisas além de amar aDeus.

O sorriso com o qual lhe responde o Senhor contrasta com opranto do Pobrezinho de Assis. É fácil imaginar seu rosto surpreso quando ouveo Senhor responder-lhe, sorrindo, que também Ele, o Senhor do Universo, o DeusAltíssimo e Todo Poderoso, também Ele, o Onipotente, o Deus Único, também Eleama a natureza que criou; ama Clara e as irmãs, que elegeu; ama o coração dohomem, que habita. Também Ele, a Beleza Suprema, a Suprema Verdade, ama todasas coisas belas.

Há, entretanto, uma razão muito especial para o Senhor amartodas essas coisas e pessoas. Uma razão acima do fato de serem suas criaturas,seus filhos, sua habitação: é que essas coisas, além de amáveis pelo que são,são amadas por Francisco, seu amado poverello.Porque Francisco ama o Senhor, ama todas as coisas boas e belas, pois tudo oque é bom e belo vem de Deus e o reflete. Porque o Senhor ama Francisco, amatudo o que ele ama, pois amando o que o Senhor criou, ele o ama acima de todo ocriado.

Há em tudo isso uma ternura difícil de expressar. Francisco,em sua inocência, crê pecar por amar aquilo que reflete o amor de Deus, mas quenão é Deus. Por isso chora. O Senhor, em sua benevolência, recebe o amorinocente de Francisco e o corrige, explicando que também Ele, o Senhor, ama oque é bom e o que é belo. Deixa entrever que beleza e verdade se supõem. Comseu sorriso, consola o pranto de Francisco. Ensina-lhe, assim, algo tão singeloque por vezes escapa às nossas complicações altivas: o maior mandamento não éamar somente a Deus e não ter afeto por nada ou ninguém; o maior mandamento éamar a Deus, amar o que é bom e belo e, exatamente por isso, amar a Deus acimade todas as coisa boas, belas, verdadeiras e amáveis.

Reconhecer que Ele, que é Amor, é o autor de tudo o que éamável e que amar o que o reflete é uma forma terna, atenta e delicada deamá-lo em tudo e em todos. Em linguagem poética, Francisco é lembrado de que o maiormandamento é amar a Deus acima detodas as coisas que se ama e não excluindoou não amando as coisas e as pessoas.

Dá o que pensar, essa poesia italiana… Lembra São João:“quem diz que ama a Deus, mas não ama seu irmão…” Bem, você sabe: émentiroso. Jesus não permitiu que Francisco caísse nessa “mentira”, nessaespiritualidade falsa que deixa de fora os afetos, condenando-os ao invés deutilizá-los para a glória de Deus, tudoordenando segundo o amor. Sem afetos, o homem não é humano e só o homem “humano”,segundo a estatura de Cristo, com seu corpo, intelecto, afetos, espírito, é,verdadeiramente, espiritual.

Dá o que pensar, também, o modo maravilhoso como Deus secompromete com Francisco. O modo como Ele curva-se sobre seu eleito e lhe éfiel. O modo como Ele, que é o Deus Altíssimo do Poverello, não despreza seus afetos, mas une-se a eles e, assim,fá-los belos, eleva-os e reafirma a capacidade de amar e de contemplar com quecriou a ele e a cada um de nós. Ordena, com sua ternura, os afetos de Franciscosegundo a ordem do amor: “Também eu, meu Francisco, amo essas coisas. Sou umcontigo. Amo o que tu amas, pois tu me amas acima de tudo o que amas”.

Frei Felipe está, agora, no céu. Deve estar sorrindo, comseus olhos verdes – agora não mais míopes – cantarolando para cada um de nós,ternamente: O mio figliolo, non devipianger più, perchè Dio ama quel che ami tu... Deus lhe pague, Frei Felipe.Você talvez não tenha tido o saber das academias, mas deixou-nos a sabedoria dequem acolhe, humildemente, a própria humanidade e oggi, non piange più. Auguri!


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