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Olhai os lírios do campo

lirio-do-campo-flores-lirios14Ao olhar o pequeno menino resgatado dos escombros do terremoto noticiado na TV, tive os olhos marejados pela triste história. Seus pais, seus cinco irmãos e, provavelmente, seus familiares e amigos jaziam mortos sob o entulho. Todo o mundo que ele havia conhecido estava desfeito em pedaços e nada mais lhe restava a não ser o abraço frio do bombeiro que lhe estendia as mãos. Como que por um milagre, o menino estava intacto de ferimentos graves e, sem chorar, mas com os olhos cheios de angústia, era agora carregado para dentro do carro de salvamento.

Guardei seu olhar em meus pensamentos e fiquei a contemplá-lo em sua dor. O que seria do pobre menino agora? Quem, num país abalado por uma catástrofe de tamanha proporção, iria cuidar dele? Quem velaria seu sono e prepararia sua comida e roupas, quem o levaria para a escola e o beijaria antes de dormir… Quem o ajudaria a chorar seus mortos? Quem o ajudaria a prosseguir?

O ser humano não é uma espécie apta para estar sozinha. Demora-se quase uma década para uma criança sobreviver sem seus pais e, mesmo depois disso, parece que nunca se está verdadeiramente pronto para a orfandade. Como sobreviveria aquela criança?

Fiquei imersa em meus pensamentos por um tempo até que eles foram interrompidos pela voz cansada de uma senhorinha que também prestava atenção à perturbadora notícia. De maneira calma e esperançosa, disse ela após um longo suspiro: “É, meu Pai… Tudo nessa vida passa”.

De súbito, pude entender a sabedoria contida na frase daquela sábia senhora e então pude ver a mesma cena que havia tirado a minha paz agora com o olhar do Espírito de Deus. Minha oração saiu de maneira espontânea; pedi a Nosso Senhor que colocasse no coração daquele pequeno órfão o mesmo entendimento que havia dado à doce velhinha – de que nada, nem mesmo o terremoto mais poderoso da Terra, poderia lhe tirar o sustento e a fortaleza de sua vida: a filiação divina.

A história que passara diante dos meus olhos (e que havia sido condenada pelo meu determinismo dramático) ganhava agora uma nova interpretação, cheia de esperança: a vida poderia ter tirado quase tudo daquele menino, mas não lhe tirara o essencial. Talvez não houvesse ninguém que pudesse pentear os seus cabelos ou lembrar seu aniversário, mas haveria alguém que zelaria por ele, que o sustentaria, e lhe daria o maior dos presentes: a Eterna Felicidade.

Pareceu-me que nenhum ser humano nasce – ou mesmo se prepara ao longo da vida – para ser órfão porque nenhum ser humano verdadeiramente o é. Pelo sangue de Jesus fomos elevados à dignidade de filhos de Deus e agora não nos é mais possível deixar de ser alvo deste amor de Pai.

Que a certeza da paternidade Divina possa reinar soberana em nossos corações no nosso dia a dia e possa sempre submeter e converter em salvação e consolo todas as nossas dores. Que nenhum de nós, meninos órfãos, jovens, ou sábias senhorinhas, deixe-se esquecer do que é realmente essencial nesta terra, tal como nos ensinaram os santos de todas as épocas: Deus basta e é capaz de nos fazer imensamente feliz…

“Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. Mt 6,26-29

 

Marília Bitencourt


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