Formação

Onde ele estava?

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Elena Arreguy Sala
Missionária da Comunidade Católica Shalom em Isifya – Haifa –Israel

 

Preciso fazer uma declaração pública: poucas vezes confesseio pecado da omissão, apesar de saber que ele existe. No entanto, este temasempre me chamou a atenção quando, ao participar da Liturgia rezamoscomunitariamente a oração do ato penitencial que diz: “confesso a Deustodo-poderoso e a vós irmãos e irmãs que pequei muitas vezes por pensamentos epalavras, por atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa…” e aoração continua, pedindo a intercessão da Igreja celeste e da parcela do Corpode Cristo, ali presente na Eucaristia, a Igreja militante.

Costumamos confessar nossas transgressões feitas, mas, eaquelas que dizem respeito ao que não fizemos e poderíamos ter feito?

Talvez esta maior sensibilidade e desejo de progredir naconversão para que meu grande ego diminua e Jesus vivo em mim resplandeça, sejamais um fruto da vida missionária, grande dom. E como é Deus mesmo quem nos fazdesejar aquilo que Ele nos quer dar, foi também Ele quem me fez ouvir uminteressantíssimo insight sobre o pecado da omissão presente já no livro doGênesis, na criação do mundo. Partilho-o comunitariamente para que todos nóscomo família, possamos nos converter. Gn 3,6 diz assim: “a mulher, vendo que ofruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado paraabrir a inteligência, tomou dele, comeu e o apresentou também ao seu marido,que comeu igualmente”.

A pergunta que brota deste diálogo entre a serpente e Eva éa seguinte: onde estava Adão neste momento? Se Eva apresentou o fruto a Adão éporque ele estava ao seu lado! Eva não teve que sair gritando Paraíso afora,procurando por Adão até poder entregar-lhe o fruto de sua desobediência! Eletambém participou da desobediência quando não protegeu Eva contra o Mal, nãointerferiu, não a amou como marido e companheiro, não a orientou, ela que era‘a carne de sua carne, sua igual’. Adão se calou e silenciou. Adão pecou pelaomissão e a desobediência de ambos deixou-nos a herança do pecado original.

Na tradução de língua inglesa fica evidente que Eva entregouo fruto a Adão que estava ao seu lado. Parece-me que no grego também. A questãonão é somente tirar o peso da culpa, culturamente falando, de sobre os ombrosde Eva e das mulheres, como aquelas que seduzem e que levam à tentação, desde oprincípio, o pobrezinho do Adão e todos os homens depois dele. E honestamente,este peso é enorme e entranhado na cultura. A questão é olhar com os olhos deDeus, da Palavra de Deus que sempre nos aponta para a Verdade que liberta. Aresponsabilidade foi de ambos, cada um com sua parcela de liberdade mal usada.Diz Santa Edith Stein no livro “Woman”, que a serpente tenta diretamente a Eva– e indiretamente a Adão – porque na mulher se encontra a origem da vida e seela é atingida, toda a vida humana também o é e sofre as consequências.

Descobrir este segredo, ou fraqueza de Adão, me causou,confesso, grande alívio, um grito de libertação verdadeiramente feminino, poiscolocou-o em pé de igualdade junto de Eva perante a tentação, perante a queda ea salvação. Ambos pecaram, ambos foram perdoados, ambos foram amados igualmentee arrancados da região dos mortos, no Sábado Santo, pelas mãos de Jesus Cristo!

Pode ser que esta “descoberta” sobre Adão seja contestadaexegeticamente. Ela, porém, nos parece apontar para o pecado da omissão, danegligência, da falta de compromisso, da acusação mútua, que nos impede deviver, tanto homens quanto mulheres, a plena vontade de Deus.

A nós, cristãos, e mais particularmente aos consagrados,foi-nos dado conhecer os segredos do Reino, da Palavra de Deus, como o próprioJesus comenta no Evangelho. Temos a Sua presença e amizade, tocamos com as mãose testemunhamos com os olhos a ação extraordinária do Seu Espírito. Sabemos porexperiência que Deus é Alguém, é Pessoa (na verdade três Pessoas no mistério doAmor transbordante que é a Trindade, o Pai, Jesus e o Espírito) e que Ele estávivo e é Senhor do tempo, da história e das circunstâncias. Sabemos com a vidae não de ouvir falar, que o Senhor Altíssimo e Misericordioso fez da nossaalma, do coração do homem, o seu lugar de habitação por excelência, mais do quequalquer tabernáculo ou sacrário por mais belo que seja. E todo este tesouro,como dizem as Regras da Comunidade Shalom, fazendo eco às palavras de S. Paulo,é transportado em vasos de argila. Somos milhares de vasos de argila, graças aDeus! E queira o Senhor, que eles se multipliquem a perder de vista!

Mas o vaso não vive mais para si, mas para o tesouro do qualé portador e veículo. Esse é nosso chamado e missão todo o tempo e o tempotodo, ou seja, em todas as situações externas, e em tudo que se é. Assim seevangeliza com obstinação e parresia: quando não se é capaz de desejar outracoisa senão que o tesouro seja visto e brilhe através do vaso, apesar do vaso,todo o tempo.

Isso não é nada fácil. Isso é um enorme desafio: unir aprópria vontade à vontade de Deus em todas as circunstâncias para que, poromissão, não se perca a oportunidade de fazer brilhar o amor de Deus, quecarregamos em nós e que em nossas vidas se traduz e se manifesta como carismaShalom.

E numa sociedade que quer negar Deus, quer negar oCristianismo, quer denegrir e ridicularizar a Igreja Católica, mais do quenunca os vasos de argila não podem se negar pela omissão a serem quebrados eusados, pois, se não for assim, como brilhará o tesouro, como se espalhará operfume, como o Amor será amado?


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