Formação

Orar e escutar voz do Pai, convite para todos

comshalom

Foi tentado pelo diabo

I Domingo da Quaresma
Deuteronômio 26, 4-10; Romanos 10, 8-13; Lucas 4, 1-13

O Evangelho de Lucas que lemos durante este ano foi escrito, como diz ele mesmo na introdução, para que o leitor crente possa «conhecer a solidez dos ensinamentos que havia recebido». Esta intenção é de extraordinária atualidade. Frente aos ataques desde toda parte à historicidade dos evangelhos e às manipulações sem limites da figura de Cristo, é mais importante que nunca que o cristão, e todo leitor honesto do Evangelho, perceba a solidez dos ensinamentos e dos relatos nele referidos.

Com este fim orientei os comentários do evangelho, desde o primeiro domingo da Quaresma ao domingo «in Albis» (II domingo da Páscoa, ndt). Partindo cada vez do Evangelho do domingo, ampliaremos o olhar a todo um setor ou um aspecto da pessoa e do ensinamento de Cristo a ele vinculado, para descobrir quem era verdadeiramente Jesus: se um simples profeta e um grande homem, ou algo mais e diferente. Desejaríamos, em outras palavras, dar um pouco de cultura religiosa. Fenômenos como o do «Código da Vinci», de Dan Brown, com as imitações e as discussões que suscitou, manifestaram a alarmante ignorância religiosa que reina entre as pessoas e que se converte no terreno ideal para toda inescrupulosa operação comercial.

O evangelho do primeiro domingo da Quaresma é o das tentações de Jesus no deserto. Segundo o plano anunciado, eu gostaria de partir dele para ampliar o tema ao problema mais geral da atitude de Jesus com relação às potências demoníacas e os possuídos pelo demônio.

É um fato inegável e entre os mais seguros, historicamente, que Jesus libertou muitas pessoas do poder destrutivo de Satanás. Não temos tempo de recordar todos os episódios. Limitemo-nos a evidenciar duas coisas: em primeiro lugar, a explicação que Jesus dava de seu poder sobre o demônio; em segundo lugar, o que diz este poder d’Ele e de sua pessoa.

Frente à libertação clamorosa que Jesus havia operado em um possesso, seus inimigos, ao não poderem negar o fato, dizem: «Expulsa os demônios em nome de Belzebu, o príncipe dos demônios» (Lc 11, 15). Jesus demonstra que esta explicação é absurda (se Satanás estivesse dividido contra si mesmo, teria acabado há tempos o seu domínio; mas, ao contrário, prospera). A explicação é outra: Ele expulsa os demônios com o dedo de Deus, isto é, com o Espírito Santo, e isso demonstra que chegou à terra o Reino de Deus.

Satanás era «o homem forte» que tinha a humanidade sob seu poder, mas agora veio um «mais forte que ele» e está o despojando de seu poder. Isso nos diz algo formidável sobre a pessoa de Cristo. Com sua vinda, começou para a humanidade uma nova era, uma mudança de regime. Uma coisa desse tipo não pode ser obra de um simples homem; tampouco de um grande profeta.

É importante observar o nome ou o poder com base no qual Jesus expulsa os demônios. A fórmula habitual com a qual o exorcista se dirige ao demônio é: «Te conjuro por…», ou «em nome de… eu te ordeno que saias desta pessoa». Apela, portanto, a uma autoridade superior, que geralmente é a de Deus, e para os cristãos a de Jesus. Não é assim com Jesus: Ele dirige ao demônio um taxativo «eu te ordeno». Eu te ordeno! Jesus não precisa apelar a uma autoridade superior; Ele é a autoridade superior.

A derrota do poder do mal e do demônio era parte integrante da salvação definitiva (escatologia) anunciada pelos profetas. Jesus convida seus adversários a tirar a conseqüência do que vêem com seus próprios olhos: assim, já não é preciso esperar mais, e sim olhar adiante; o reino e a salvação estão no meio deles.

O tão mencionado discurso sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo se explica a partir disso. Atribuir ao espírito do mal, a Belzebu, ou à magia, aquilo que era manifestamente obra do Espírito Santo de Deus significava fechar obstinadamente os olhos ante a verdade, pôr-se contra Deus mesmo e, portanto, privar-se da possibilidade de perdão.

A visão histórica e formativa que tento dar a estes comentários da Quaresma não deve nos impedir de recolher cada vez uma sugestão prática do evangelho do dia. O mal também é forte ao nosso redor hoje. Assistimos a formas de maldade que vão muito além de nossa capacidade de compreender, ficamos abatidos e sem palavras ante certos episódios. A mensagem consoladora que brota das reflexões até aqui feitas é que existe no meio de nós alguém que é «mais forte» que o mal. A fé não nos situa a resguardo do mal e do sofrimento, mas nos assegura que com Cristo podemos orientar também o mal ao bem, fazê-lo servir para a nossa redenção e a do mundo.

Algumas pessoas experimentam na própria vida ou na própria casa uma presença de mal que lhes parece de origem diretamente diabólica. Às vezes certamente o é (conhecemos a difusão que têm as seitas e os ritos satânicos em nossa sociedade, especialmente entre os jovens), mas é difícil entender em casos individuais se se trata verdadeiramente de Satanás ou de perturbações de origem patológica. Felizmente, não é necessário chegar às certezas sobre as causas. O que é preciso fazer é aderir a Cristo com a fé, à invocação de seu nome, à prática dos sacramentos.

O evangelho do domingo nos sugere um meio com vistas a esta luta, importante de se cultivar sobretudo no tempo da Quaresma. Jesus não foi ao deserto para ser tentado; sua intenção era retirar-se ao deserto para orar e a escutar a voz do Pai.

Na história, houve multidões de homens e mulheres que escolheram imitar esse Jesus que se retira ao deserto. Mas o convite a seguir Jesus ao deserto não se dirige só a monges e ermitãos. De maneira diferente, também se dirige a todos. Monges e eremitas escolheram um espaço no deserto; nós devemos escolher ao menos um tempo de deserto. Passar um tempo de deserto significa fazer um pouco de vazio e de silêncio ao nosso redor; reencontrar o caminho do nosso coração, subtrair-nos do bulício e dos chamados externos, a fim de entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser e de nosso crer.

Fonte: Zenit


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