Formação

Os imperativos divinos da missão

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09.10São Francisco Xavier, uma vez escrevendo a Santo Inácio, partilhava os sentimentos do seu coração diante das imensas necessidades de missionários em suas lides apostólicas: “Nestas paragens, são muitíssimos aqueles que não se tornaram cristãos, simplesmente por faltar quem os faça tais. Veio-me muitas vezes ao pensamento ir pelas academias da Europa, particularmente a de Paris, e por toda a parte gritar como louco e sacudir aqueles que têm mais ciência do que caridade clamando: ‘Oh! Como é enorme o número dos que excluídos do céu, por vossa culpa se precipitam nos infernos! Quem dera que se dedicassem a toda obra com o mesmo interesse com que se dedicassem às letras, para que pudessem prestar contas a Deus da ciência e dos talentos recebidos! Na verdade, muitos deles, impressionados por esta ideia, entregando-se à meditação das realidades divinas, talvez estivessem mais preparados para ouvir o que Deus diria neles:abandonando as cobiças e interesses humanos, se fizessem atentos a um aceno ou vontade de Deus. Decerto, diriam de coração: ‘Aqui estou, Senhor; que devo fazer? Envia-me para onde for do teu agrado, até mesmo para a Índia”.

Esta inflamada reflexão é realmente atual, porque universal; não se pode perder o sentido da consistência e da força do mandato missionário, pois, “compete à Igreja o de verde propagar a fé e a salvação trazidas por Cristo, seja em virtude do mandamento expresso, transmitido pelos apóstolos ao colégio dos bispos, assistidos pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro e supremo Pastor da Igreja; seja em virtude da vida que Cristo infunde em seus membros. Portanto, a missão da Igreja se realiza quando, obediente ao preceito de Cristo e movida pela graça e pela caridade do Espírito Santo, ela se torna plenamente presente a todos os homens e povos; sua finalidade é de conduzi-los, pelo exemplo da vida e pela pregação, pelos sacramentos e outros meios da graça à fé, à liberdade e à paz de Cristo. Deste modo, abre-se diante deles o caminho firme e seguro para participarem totalmente do mistério de Cristo”.

 O mesmo Decreto Ad Gentes, afirmou que “Deus pode por caminhos d’Ele conhecidos levar à fé os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho”. Esta frase deste decreto conciliar soou, tomado isoladamente, descontextualizado do resto do texto, como se fosse possível deixar os pagãos à própria sorte, sem o conhecimento de Deus. E o que levou estes homens de Igreja a pensarem assim? O raciocínio que se as pessoas podem se salvar sem a iniciativa da presença missionária, suficiente seria que cada qual seguisse a própria consciência e a salvação aconteceria. Assim, a empreitada missionária de deixar o próprio torrão natal e partir para terras longínquas pareceu sempre uma prática ultrapassada, prática de um passado feito de heroísmos notáveis e louváveis, mas fadada a terminar.

Talvez fosse oportuno lembrar o que dizia o apóstolo Paulo: “De fato, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Mas como invocá-lo sem antes crer nele? E como crer, sem antes ter ouvido falar dele? E como ouvir, sem alguém que pregue? E como pregar, sem ser enviado para isso?”.

Ora, para responder a este equívoco falacioso de quem nega a necessidade absoluta da evangelização em nome do respeito à liberdade humana, o Papa Paulo VI afirma que o Filho de Deus veio precisamente para nos revelar por sua palavra e por sua vida, os caminhos ordinários da salvação. E ele ordenou-nos transmitir aos outros essa revelação com a sua própria autoridade. “Sendo assim, continua o Papa, não deixaria de ter a sua utilidade que cada cristão e cada evangelizadora profundasse na oração este pensamento: os homens poderão salvar-se por outras vias, graças à misericórdia de Deus, se nós não lhes anunciarmos o Evangelho: mas nós poderemos salvar-nos se, por negligência, por medo ou por vergonha – aquilo que São Paulo chamava exatamente ‘envergonhar-se do Evangelho’ – ou por seguirmos ideias falsas, nos omitirmos de o anunciar? Isso não seria, com efeito, trair o apelo de Deus que pela voz dos ministros do Evangelho, quer fazer germinar a semente; e dependerá de nós que essa semente venha a tornar-se uma árvore e a produzir todo o seu fruto. Conservemos o fervor do espírito, portanto: conservemos a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas!” Além disso, o decreto Ad Gentes não exclui a pregação, mas a solicita da forma mais veemente, pois sem a pregação a Igreja não pode surgir: “O principal meio dessa fundação é a pregação do Evangelho de Jesus Cristo. Com o fim de anunciá-lo o Senhor enviou seus discípulos a todo o mundo, para que os homens renascidos pela palavra de Deus fossem agregados à Igreja mediante o batismo. Corpo do Verbo Encarnado, ela se nutre e vive da palavra de Deus e do pão eucarístico. (…). [Assim], A atividade missionária é nada mais nada menos que a manifestação ou Epifania do plano divino e o seu cumprimento no mundo e em sua história” .

 Os grandes missionários do passado e aqueles que se desdobram para testemunhar a Boa Notícia na atualidade do nosso tempo, recordam um ponto fundamental, essencial, definição clara e inquestionável do que a Igreja é chamada a ser diante da evangelização: “Evangelizar constitui de fato a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na santa missa que é o memorial da sua morte e gloriosa ressurreição”.

Falando da imensidão da seara dizia ele: “Rogai, pois, meus amados irmãos, rogai ao Senhor das conquistas que envie obreiros para o seu campo”. Não era também isso que o Divino Mestre ensinava? “A colheita é grande, mas os operários são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie operários para a sua colheita.”. Uma forte sintonia de ideias, pensamentos, desejos, de vida, de ações é uma marca registrada entre a vida dos santos e a vida de Jesus. A identificação é um milagre do amor que fazem com que dois se transformem em um, numa admirável dinâmica de comunhão.

Pe. Antônio Marcos Chagas

Formação: Novembro/2009


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