Formação

Pastores e Magos

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Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

     Hána narrativa do Natal de Jesus, dois episódios que pedem do leitor umaespecial atenção. De um lado os pastores, humildes e pobres, de outro,os magos vindos de longe, do oriente. Os primeiros viviam noite e dia aprocurar fontes e pastagens para as ovelhas, cabritos e carneiros.Costumavam, nas cercanias de Belém, se refugiar nas grutas, para passara noite, fugindo do frio e da escuridão. Na época do nascimento deJesus os pastores eram considerados pessoas que não mereciam confiança.Eram vistos como ladrões que invadiam roças alheias e costumavam ficarcom parte dos produtos do rebanho (lã, leite, cabritos). Eramempregados e não guardavam o sábado, pois tinham de acompanhar dia enoite os rebanhos, enquanto seus patrões eram observantes da leimosaica, fieis ao culto e ao repouso sabático.

     Ospastores são os primeiros a receber a Boa Nova, conforme nos conta SãoLucas em seu evangelho: “na mesma região havia uns pastores que estavamnos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda ao seurebanho. O Anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhorenvolveu-os de luz e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém,disse-lhes: não tenhais medo! Eis que vos anuncio uma grande alegria,que será para todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador, que é oCristo-Senhor, na cidade de Davi. Isto vos servirá de sinal:encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deitado numamanjedoura”(Lc 2, 8-12).

     Ospastores, marginalizados e depreciados pelos “bons”, oprimidos eexplorados pelos ricos, são os escolhidos de Deus para conhecer porprimeiro que o Messias havia nascido. A eles, antes de todos os outros,é dada a boa notícia que faz daquela noite uma noite de alegria. Ospastores, exatamente porque nada possuíam, porque não contavam com nadae porque ninguém nada esperava deles, precisamente porque eram pobres emarginalizados, puderam receber  esta notícia como boa notícia. Sim,para os pobres é uma incrível notícia que Deus tenha escolhido nascerno meio deles, pobre e despojado de tudo, como um deles. O menino,deitado em um cocho, no interior da gruta, é o Cristo-Senhor. Alegriamaior não poderia haver.

     Ospastores são, no evangelho, símbolo de todos os que caminham nas trevasda opressão e sentem sobre seus ombros o peso da carga; representamtodos quanto experimentam em sua própria carne a sede de justiça (Is9,3). Por isso o anúncio do nascimento do Salvador é a luz que lhesilumina a escuridão. Os pastores puderam sentir com profundidade, maisque todos, a alegria de se saberem amados por Deus. Eles escutaramanjos cantando: “glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homenspor Ele amados”. E partiram rumo a Belém: “vamos já a Belém e vejamos oque aconteceu, o que o Senhor nos deu a conhecer”(Lc 2,14-15). Foram eadoraram o menino deitado na manjedoura e “voltaram, glorificando elouvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes foradito”(cf. Lc 2). Há um enorme contraste entre a pobreza da gruta com amanjedoura onde as ovelhas lambiam sal ou comiam feno, agora berço deum recém-nascido e o título dado ao menino: Salvador, Cristo-Senhor.

    Ficapara nós, hoje, séc. XXI, a questão: onde encontrar Deus? Os magos,ricos e sábios – astrólogos -, que traziam no coração a nostalgia daverdade maior, que a riqueza e a ciência eram incapazes de lhesoferecer, saíram, como se loucos fossem, seguindo uma estrela, atéentão desconhecida, na ânsia de encontrar o Rei, aquele a quem entregara própria vida. Em Jerusalém andaram perguntando: “onde está o rei dosjudeus, recém-nascido? Com efeito, vimos sua estrela no Oriente eviemos adorá-lo?” (Mt 2,2). A questão chegou aos ouvidos de Herodes queficou alarmado. Sua fúria fez o povo ter medo. A fúria dos poderosossemeia terror. Herodes consultou os entendidos nas escrituras e soubeque em Belém deveria nascer o novo Rei. E disse aos magos: “ide eprocurai obter informações exatas a respeito do menino e, aoencontrá-lo, avisai-me para que também eu vá adora-lo”(Mt 2,8).

     Osmagos foram, encontraram o menino, sempre guiados pela estrela, e “sealegraram com muito grande alegria. Ao entrar na casa, viram o meninocom Maria, sua mãe, e, prostrando-se o adoraram. Em seguida, abriramseus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra”(Mt2,10-12). Avisados em sonho não voltaram a Herodes. Herodes,enraivecido, mandou matar todos os meninos da região de dois anos parabaixo. A volúpia pelo poder e o medo de perdê-lo produzem monstros. Ámenor suspeita da existência de um concorrente são tomadas todas asprovidências para eliminá-lo. Os magos buscavam a verdade que suaciência, só, era incapaz de lhes oferecer. Descobriram que a verdade éhumilde, viram-na e a adoraram na pequenez de uma criança, pois “oVerbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos sua glória, glóriado Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”(Jo 1,14).


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