Formação

Perseguindo o dom de maravilhar-se

comshalom

D. Ruberval, osb

O dom de saber maravilhar-se está em estreita relação com a pobreza: o frescor do olhar depende da capacidade de desembaraçar-se de si mesmo; está ligado à simplicidade de reconhecer que não se tem direito algum: o que possuímos que não nos tenha sido dado? (cf. 1Cor 4,7).
Ao mesmo tempo, o dom de maravilhar-se é muito próximo do espírito de infância. Não se trata de uma regressão infantil, de uma parada no crescimento ou de uma volta atrás, mas de caminhar na direção da infância futura, que está na ordem do Reino.
O segredo do espírito de maravilhar-se reside, talvez, na capacidade de conjugar duas atitudes quase contraditórias: a de querer tudo e a de contentar-se com pouquíssimo. Mas estas duas atitudes não podem caminhar uma sem a outra.
Querer tudo, agora, é impaciência do desejo, o estágio do lactente; e crescer é aprender a transformar as necessidades em desejos e administrá-los. Querer tudo é viver na irrealidade que sempre desilude, porque aquele desejo imediato recai sobre nós, como uma acusação de insucesso e de impotência. Então, é verdadeiramente a morte do maravilhar-se.
De outra feita, contentar-se unicamente com pouquíssimo é insidiar-se na mediocridade, é ter podado tanto as asas de nossos desejos, que eles não se sustentam mais. Estar satisfeito a preço baixo: atitude do cético, também ela é a morte do maravilhar-se.
Existe, no entanto, em cada uma destas atitudes, alguma coisa de justo: querer tudo corresponde ao desejo do infinito em nós, é o que nos caracteriza como seres humanos, chamados a ser infinitamente mais do que somos. E isto é sinal de que fomos feitos por Deus para nos tornarmos seus hóspedes e seus amigos. Mas, por isso mesmo, este desejo infinito não deve fixar-se e finalizar-se em outra coisa que não seja Deus mesmo e seu Reino. Desejar infinitamente alguma coisa finita não seria o cúmulo do absurdo? É esta, no entanto, nossa eterna tentação. Eis por que – e aqui a fé alcança a psicologia – este desejo deve ser continuamente reconduzido para além de si mesmo.
Por outro lado, ainda, contentar-se com pouco esconde uma sabedoria, um sadio realismo, uma autêntica humildade, a consciência de viver num mundo em transformação e de estar em uma situação de exílio e de êxodo. Já pudemos experimentar o quanto as coisas sejam difíceis e como poucas sejam bem-sucedidas, e nunca aos cem por cento. Sim, é sabedoria reconhecer o que é positivo, mesmo se está situado mais próximo do nada do que do tudo. Sim, é sabedoria dizer: “não é tudo, mas é mais que nada!”
É igualmente verdadeiro, porém, que este são realismo não pode manter-se como sabedoria autêntica, pobreza espiritual e fonte de maravilha se ele não é substituído pelo desejo infinito, que o eleva e, imensamente, o dilata. Como também, o desejo infinito não pode permanecer abertura sobre o futuro se ele não for substituído pela cotidiana disponibilidade de contentar-se com pouco. E assim, o presente, na sua relatividade, nas suas ambigüidades, não será desvalorizado pela expectativa do futuro, quer dizer, do Reino. Na verdade, querer tudo e contentar-se com pouco é o segredo de uma maravilha que não é nem ingênua nem ilusória.

P.-Y. Emery, Le don d’émerveillement, pp. 200-201.


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