Formação

Pesquisa com células-tronco: até onde avançar?

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 Prof. André Marcelo M. Soares, PhD*

 O desenvolvimento de pesquisas com células-tronco adultas,presentes nos organismos já desenvolvidos, surge como uma possibilidadede cura para várias doenças. A técnica é, do ponto de vista bioético,plenamente admissível e não apresenta as interrogações existentes noprocesso da clonagem. Todavia, embora não se faça necessário o uso deembriões para a obtenção destas células, para alguns especialistas, aeficiência terapêutica é maior quando elas são extraídas durante oprocesso de embriogênesis.

Para defender o uso das células-tronco embrionárias alguns recorremà distinção entre embriões “naturais” e “artificiais”, também chamadosde clonotos. Os “naturais” seriam aqueles originados da fusãoentre o espermatozóide e um óvulo, processo conhecido como fecundação.Já os “artificiais” são aqueles produzidos através da fusão entre umacélula somática e um óvulo sem núcleo. A partir desta distinção, algunsespecialistas defendem o argumento de que os clonotos nãosão, de fato, vida humana, uma vez que não são constituídos pela fusãode duas células com informações geneticamente distintas. Para estesespecialistas, que defendem o uso de células-tronco embrionárias, oprocesso de produção artificial de embriões em nada se aproxima dafecundação. O problema aqui está no fato de que em ambos os casos, oresultado é sempre a geração de uma nova vida. Além do mais, adiferença no processo de fusão não implica numa diferença ontológicados seres gerados. Sendo assim, não se justifica eticamente, sobqualquer aspecto, a utilização de embriões, sejam eles “naturais” ou“artificiais”. O embrião, mesmo aquele chamado de clonoto, não pode ser tratado simplesmente como um recurso biológico.    

É necessário observar que a dignidade humana deve ser respeitada emqualquer etapa do desenvolvimento biológico. Afinal, não é possívelestabelecer, através de critérios axiológicos, a etapa que tem maisvalor. Se houvesse tal critério ele, certamente, não seria biológico,mas mercadológico e utilitarista. Não se pode atribuir valor à vidahumana partindo de critérios exclusivamente acidentais. Mesmo ospadrões anatômicos e fisiológicos não são suficientes para definir aimportância da vida humana, caso contrário, chegaríamos à absurdaconclusão de que deficientes e doentes mentais possuem um valor menordo que aqueles seres ditos normais. A vida no estágio embrionáriopossui valor idêntico ao da vida humana no seu estágio adulto eterminal. 

As pesquisas com células-tronco, desde que não interrompam odesenvolvimento da vida humana, são necessárias e seus resultadospoderão, num futuro não muito distante, contribuir significativamentepara a melhoria da qualidade de vida de milhares de pessoas que sofremde doenças crônicas e degenerativas adquiridas. Todavia, é umimperativo ético avaliar os limites inerentes aos benefícios oferecidospor algumas técnicas que, prometendo resultados num curto prazo,conduzem a destruição da vida humana. Os benefícios da ciência nãopodem, de modo algum, proporcionar, na forma de um dúplice efeito, oextermínio de uma parte da humanidade em detrimento da outra. Aciência, que deve colaborar na busca de uma vida melhor e maissaudável, é incoerente quando, para isso, trilha o caminho da morte eda exclusão social.


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