Formação

Poço de Jacó: “Tenho sede de Ti”

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“Foi assim que Ele chegou a umacidade da Samaria chamada Sicar, não longe da terra dada por Jacó a seu filhoJosé, lá mesmo onde se acha a fonte de Jacó. Cansado da viagem, Jesus estavaassim sentado junto à fonte. Era mais ou menos a sexta hora. Chega uma mulherda Samaria para tirar água; Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. Os seusdiscípulos, com efeito, tinham ido à cidade comprar o que comer. Mas estamulher, esta Samaritana, lhe disse: “Como? Tu, um judeu, me pedes de beber amim, uma mulher samaritana?” Os judeus, com efeito, não querem ter nada emcomum com os samaritanos. Jesus lhe respondeu: “Se conhecesses o dom de Deus, equem é aquele que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias e ele tedaria água viva” (Jo 4,5-10).

 Estranhasede, a de Jesus diante do poço de Jacó! Quem pode compreender hoje que DeusFilho, o mesmo que transformou água em vinho necessitasse pedir a alguém quelhe desse de beber?

 Em seuescrito espiritual intitulado “Trago-vos o amor”, Madre Teresa de Calcutáapresenta-nos uma chave para penetrarmos neste mistério:

 “O mesmo Deus que declarara não ternecessidade de nos dizer que tem fome, não se priva de mendigar um pouco deágua à Samaritana. Tinha sede, mas ao dizer ‘Dá-me de beber’, Ele, o Criador douniverso pedia o amor de sua criatura” (Ed. Loyola, S. Paulo, 1981, pp.87-88).

 O mundo temsua origem em Deus e sua finalidade em Deus, que vive uma eterna Comunidade deAmor: entre o Pai o Filho e o Espírito Santo circula o amor que deu origem atodas as coisas, e, em especial, a nós, criaturas humanas. Dentre todas asobras da criação somos as únicas criaturas criadas diretamente para Ele, quecriou o mundo para nós; mas nós fomos criados para Ele. Fomos criados paraestar sempre unidos a Deus e crescer nesta união até chegarmos à sua plenitude.

Entretanto, o pecado surgiu comoprimeiro obstáculo a este maravilhoso desígnio de Deus para o homem. O pecadoé, desde o início, a origem da ruptura brutal entre nós e Deus.

Esta ruptura aconteceu não por vontadede Deus, mas por vontade da própria criatura, de uma decisão de sua liberdade.Instigada pelo Demônio, a criatura humana rejeitou seu Criador na ilusão degerir sua própria vida de modo independente dele. A partir de então, a históriahumana com Deus passou a ser uma história de encontros e desencontros, procurade Deus por nós e escondimento de nossa parte.

Narram as Escrituras que quando oprimeiro homem pecou, escondeu-se de Deus, que o chamou: ‘Onde estás?’ e elerespondeu: ‘Ouvi tua voz no jardim, tive medo porque estava nu, e meescondi.’(Gn 3,9-10).

 Estanarrativa do Livro do Gênesis, colocada logo após o pecado original, deixatransparecer que Deus nos busca desde o início. As Escrituras são o belíssimotestemunho escrito desta busca de Deus por nós: Desde que o primeiro homem seescondeu dele, assim como chamou Adão, Ele nos chama. Chamou Abrão, chamouIsaac, chamou Jacó, chamou José, chamou Moisés, os juízes, os reis, osprofetas, chamou a mim e a você e das mais diversas formas continua a nosbuscar, porque tem sede de fazer retornar a criatura humana à união com Ele.

 Deus semprebuscou a criatura humana, Deus sempre nos buscou. Deus nos buscou ainda quandonem havíamos ouvido falar dele, ou quando mesmo tendo ouvido éramos aindainteiramente indiferentes ao seu amor. Deus nos busca quando pecamos e cada vez que nos desviamos de sua vontadeamorosa, como filhos pródigos que deixam a casa do Pai em busca de nossospróprios caminhos, em busca de “sermos como deuses” (cf. Gn 3,5).

Deus nos busca quando estamosacomodados na nossa fé, indiferentes ao seu chamado de nos comprometermossempre mais com Ele. Deus nos busca quando estamos alegres para se alegrar conoscoe também quando estamos tristes para unindo nossa dor à dele tornar o nossofardo mais leve.

 Deus nosbusca das mais diversas formas, porque tem sede de resgatar-nos, de salvar-nos,de fazer-nos plenamente felizes. Ele tem sede de que sejamos libertos dasseqüelas do pecado e curados das feridas que os vícios nos causam. Ele tem sedede que nos tornemos, nele, fortes contra toda tentação, e cheguemos a sersantos, porque Ele tem sede nós!

 O pecadofoi derrotado por Cristo na Cruz, de modo que pelo Batismo somos feitos livresdele e aparelhados com a Graça para que nossa união com Deus seja restaurada,mas permanecemos livres e podemos recair nele se usamos mal nossa liberdade. Asnossa más escolhas nos levam freqüentemente a nos esconder de Deus e por issoEle nos busca. Este que é oacontecimento mais freqüente na história da nossa conversão pode se repetirdurante toda a nossa vida, porque Deus não desiste de nós.

 O inimigode Deus nos tenta de todas as formas para que ignoremos ou desconfiemos disto.A uns Ele tenta na imaginação, afetividade e memória para que duvidem de queDeus existe, ou que, se existe é indiferente a nós. A outros tenta para fazerpensar que Deus não nos ama, mas quer nos escravizar nos fazendo marionetessuas, escravos seus. Isto não é verdade. Tanto que Ele enviou a nós seu Filhoúnico para nos fazer, não servos, mas amigos seus. Jesus disse isto pouco antesde entregar sua vida por nós: “Já não vos chamo servos, mas amigos”(cf. Jo15,15).

  Para combater tudo isto, precisamosfreqüentemente deixar-nos encontrar por Ele, deixar que a luz da sua presençanos leve a reconhecer o que, de fato nos escraviza e deixar que Ele nosarranque de nossas escravidões, para que sejamos livres e verdadeiramentefelizes.

 Foi isto oque aconteceu com a mulher samaritana. Da forma mais estranha, ela foi encontrada por Jesus e aceitou dialogar comEle. Jesus se aproximou de uma mulher samaritana, o que era coisa absurda paraum judeu, num momento aparentemente impróprio e numa situação aparentementeimprópria, para pedir-lhe de beber.

 Algo semelhante pode estar acontecendo comigoe com você neste momento. Deus pode estar se chegando a nós através da situaçãoaparentemente mais imprópria, porque nos quer, porque anseia por nósindependentemente do que sejamos, possuamos ou tenhamos feito. Por isto nosbusca para lançar luz sobre nossa vida e nos fazer enxergar o que é bom e o queé mau para nós, porque isto só Ele sabe e pode nos dizer.

Ao encontrar Jesus, pouco a pouco amulher samaritana foi compreendendo que se Ele tinha sede da água que ela podiaoferecer, ela tinha sede da água que dura para sempre e desta água somente Eletinha para lhe oferecer: “Dá-me desta água para que eu não venha mais a estepoço tirá-la”.

Então tudo adquiriu sua verdadeiradimensão: seus falsos amores perderam todo o valor diante daquele que conheciatudo sobre ela, e lhe oferecia o amor como uma fonte que jorra para a vidaeterna.

Nesta Palavra vimos o encontro de duassedes, a sede de Deus pelo amor da sua criatura, e a sede da criatura peloinfinito amor de Deus! Jesus veio unir em si estas duas sedes, e se por Ele nosdeixamos encontrar, dele nos tornamos adoradores em espírito e em verdade,ambas serão saciadas.

Todos os dias temos oportunidade deencontrar o Senhor diante do “poço”: podemos encontrá-lo nos sacramentos,especialmente na reconciliação e na Eucaristia; podemos encontrá-lo na suaPalavra; no encontro com seus ministros, os sacerdotes; na oração pessoalíntima com Ele; na oração em comum com nossos irmãos; numa palavra sábia ditapor alguém que está disposto em Deus, a nos ajudar, e o faz segundo a Palavrade Deus e o ensinamento da Igreja. E há também uma situação especial, na qualpodemos encontrá-lo, quando em Deus, nos dispomos a servir aqueles que Elecoloca em nosso caminho como necessitados de ajuda. Essas pessoas ou situações,as quais aparentemente só damos sem receber, podem ser hoje aqueles canais demuita graça, que o Senhor usa para saciar-se de nós e nos saciar dele.

Deixemos-nos encontrar com Jesus, decoração aberto para que sejam saciadas a nossa e a sede dele, e então o mundoconhecerá que Ele está vivo e é o único Senhor!

Falando à samaritana, dissestes: “Quembeber da água que eu der, jamais terá sede”. Oh! Como são reais e verdadeirasestas palavras pronunciadas por vós. Verdade eterna! Sim, quem bebe daquelaágua, já não terá sede de coisa alguma terrena, mais ficará muito mais sequiosodas coisas do céu. É um tormento de que mal se pode fazer idéia pela sedenatural, neste mundo. Com que ansiedade, Senhor, desejo esta sede, pois seualto valor me fazeis compreender! (cf. Caminho19,2)


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