Formação

Procuram-se Tomés

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No ano passado, um senhor italiano, levou à justiça o seu pároco acusando-o de mentira, porque estava falando de Jesus. Segundo esse senhor, o padre não podia falar de Jesus Cristo sem provar que realmente esse “tal de Jesus” tivesse existido. O processo está caminhando e não conheço o desfecho. Não posso deixar de pensar nesse senhor se não como um Tomé dos nossos dias. Só falar não basta, tem que provar.

O apóstolo Tomé, diz o evangelho de João, teve o privilégio de colocar os dedos e o nariz nos sinais da paixão de Jesus e, uma vez, convencido, fez a magnífica profissão de fé dizendo-lhe: “Meu Senhor e meu Deus!”.

O erro de Tomé, não foi tanto ter duvidado da ressurreição de Jesus em si, porque dúvidas e incertezas todo mundo tem direito a ter, mas foi não ter acolhido o testemunho dos colegas que diziam: “Vimos o Senhor!”

Vale para nós, também. Não vamos poder ver Jesus como Tomé o viu, mas sempre teremos a possibilidade de encontrá-lo na comunidade e nos gestos e sinais que Ele mesmo prometeu e o tornariam presente no meio dos que nele acreditarem. A fé, antes de ser um conjunto de afirmações, é reconhecer aquilo que a Páscoa de Jesus faz, ainda hoje, acontecer na vida das pessoas que o buscam com sinceridade.

Duvidar, fazer perguntas, não é tão negativo assim. A curiosidade e a vontade de entender são as primeiras motivações para uma busca honesta e esclarecedora daquilo que vale a pena mesmo acreditar. Justamente para não dar fé a qualquer bobagem ou crendice.

É isto que me preocupa. Por que quando falamos das coisas da fé cristã sempre tem alguém que exige que se prove o que, há séculos, a Igreja está anunciando e testemunhando com a própria vida e o próprio martírio? Por que dois pesos e duas medidas? Outros podem falar o que bem entendem e ninguém diz nada, ninguém cobra nada. Mas para a fé católica os critérios são rigorosos. Tem que provar. Parece quase um pré-conceito; quantos, nesses tempos, acabaram pensando que o costume da Igreja seja contar mentira e espalhar fantasias infundadas.

Talvez precisamos ser todos um pouco mais como Tomé. Se for para cobrar, cobramos de todos. Certas afirmações, certas estatísticas, certas notícias, certos slogans, seria muito bom pedir que fossem provados, e não simplesmente engolidos.

Um dia desses ouvi, na televisão, uma pessoa anunciando que a partir de 2008, vai começar o fim – não entendi bem se o fim do planeta, do mundo ou de outra coisa – e que com o 2012 tudo isto seria mais do que evidente. Quem avisa amigo é; deveríamos agradecer, vamos começar a nos despedir. Bom, é só esperar para ver.

Tem pessoas que acreditam que terão um dia de cão, só porque um pobre gatinho preto atravessou o seu caminho. Outros ouviram dizer que a tal coisa faz mal. Outros, que faz bem. Já houve quem vendesse tudo e até quem se matasse porque o mundo estava acabando. Ninguém provou nada e nada aconteceu. Um filósofo do século passado desabafou: “Desde quando os homens deixaram de acreditar em Deus, acreditam em tudo!”. Precisamos prestar mais atenção ao que ouvimos e ao que estamos vendo; quem fala e porque fala. Não é pelo gosto de colocar tudo em discussão e cair no ceticismo, não. É prudência e inteligência para não deixar-nos levar pelo papo de quem sabe aproveitar da boa fé dos outros.

Mas até que, no fundo, eu fico feliz. Até quando as pessoas quiserem saber mais e nos cobrar sobre Jesus, é sinal que Ele interessa e incomoda ainda.

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá (AP)

Fonte: CNBB


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