“Entretanto, aspirai aos dons mais elevados. E eu vos mostrarei um caminho ainda mais excelente” (1Cor 12,31)
Nunca tivemos tantas possibilidades de olhar para a vida dos outros como temos hoje. Basta abrir uma tela. Vemos corpos, casamentos, famílias, filhos, viagens, casas, ministérios, carreiras, amizades, conquistas, sorrisos, vocações, experiências com Deus. Vemos pessoas vivendo aquilo que, muitas vezes, gostaríamos de viver.
E, quase sem perceber, começamos a nos comparar.
“Eu deveria ser assim”, “minha vida deveria ser assim”, “meu casamento deveria ser assim”, “eu deveria ter esse corpo”, “eu deveria ter essa família”, “eu deveria produzir como essa pessoa”, “eu deveria ser tão espiritual quanto ela.”
E aquilo que começou apenas como uma imagem diante dos nossos olhos pode se transformar em uma insatisfação permanente dentro do coração. A comparação nos faz olhar tanto para aquilo que o outro recebeu que esquecemos de agradecer pelo que Deus confiou a nós.
A comparação pode roubar nossa identidade
E existe algo ainda mais profundo: a comparação pode nos fazer esquecer quem somos. Porque, quando começo a acreditar que preciso ser como o outro para ter valor, já não estou mais vivendo a partir da minha identidade. Estou tentando construir uma versão de mim que seja digna de ser vista, admirada e aprovada.
É aí que São Paulo nos oferece uma chave poderosa. Em 1Coríntios 12, ele fala dos dons. Dons diferentes, membros diferentes, funções diferentes. Ninguém é o outro. O corpo não precisa que todos os membros sejam iguais para ser um só corpo.
E então São Paulo nos mostra “um caminho ainda mais excelente”. O amor.
“Se eu tivesse o dom de falar todas as línguas dos homens e dos anjos, mas não tivesse amor, eu seria como um bronze que soa…” (1Cor 13,1)
É como se a Palavra nos dissesse: você pode ter muitos dons, pode ser admirado, pode realizar grandes coisas, pode ter aquilo que o mundo considera sucesso.
Mas a pergunta fundamental continua sendo: você está amando?
O amor transforma o dom em entrega
Porque o sentido da vida não está em possuir o maior dom, nem em ser mais do que alguém. Está em receber aquilo que Deus nos deu e transformar esse dom em oferta.
E aqui está uma das grandes batalhas do nosso tempo. A comparação transforma o dom em competição. O amor transforma o dom em entrega.
A comparação olha para o outro e pensa: “Por que ele tem e eu não?” O amor olha para o outro e consegue dizer: “Que bonito o dom que Deus colocou nele.”
A comparação pergunta: “Por que eu não sou como ela?” O amor pergunta: “Senhor, o que queres fazer através de mim?”
A comparação nos faz querer ocupar o lugar do outro. O amor nos faz descobrir o nosso lugar.
De onde vem o cansaço
Talvez muitos estejam cansados não porque não tenham dons, mas porque estão tentando viver uma vida que não lhes pertence. Jovens tentando corresponder a uma imagem. Mulheres tentando alcançar um padrão impossível. Homens tentando provar o próprio valor. Casais comparando o próprio casamento com aquilo que aparece nas redes. Pais comparando seus filhos. Famílias comparando suas casas, suas conquistas e suas histórias. Pessoas consagradas comparando seus apostolados e frutos.
E, enquanto todos tentam parecer alguma coisa, podemos esquecer uma verdade simples e revolucionária: Deus não criou cópias. Ele não criou você para ser uma versão melhor de outra pessoa. Ele não criou seu casamento para ser uma reprodução do casamento de outro casal. Ele não deu seus filhos para serem comparados com os filhos de outra família.
Ele não entregou seus dons para que você competisse com os dons de ninguém. Você recebeu uma vida para ser oferecida. Essa é a beleza do dom de si. Não é apenas “descobrir quem eu sou”. É descobrir quem sou para poder me entregar.
Tudo o que somos pode se tornar oferta
O meu corpo não é um objeto para ser comparado. É dom. Minha inteligência é dom. Minha capacidade de trabalhar é dom. Minha vocação é dom. Minha família é dom. Minha história é dom. Meus dons naturais e espirituais são dom.
Até aquilo que ainda precisa ser amadurecido pode se tornar matéria para a ação da graça. E quando descubro que sou dom, já não preciso viver tentando provar que sou suficiente.
Posso simplesmente me oferecer. Posso amar. Posso servir. Posso cuidar. Posso gerar vida. Posso construir. Posso perdoar. Posso recomeçar. Posso colocar aquilo que sou a serviço de alguém.
É por isso que São Paulo não termina seu ensinamento dizendo que o mais importante é ter muitos dons. Ele termina dizendo:
“Agora permanecem a fé, a esperança e o amor. Mas a maior delas é o amor.”
Porque, no fim, talvez a pergunta da nossa vida não seja: “com quem eu me pareço?”, nem “quanto eu consegui?”, ou “quem está vivendo melhor do que eu?”Mas: “quanto eu fui capaz de amar com aquilo que Deus me deu?”
Menos telas, mais presença
Em uma época que nos ensina a construir uma imagem de nós mesmos, o Evangelho nos convida a construir uma vida. Em uma época que nos ensina a nos comparar, Cristo nos ensina a amar. Em uma época que pergunta constantemente “o que você tem?”, o Evangelho pergunta “o que você está disposto a oferecer?”
Talvez precisemos voltar a olhar menos para as vidas que aparecem nas telas e mais para as pessoas que Deus colocou diante de nós. Olhar para o esposo. Para a esposa. Para os filhos. Para os pais. Para os amigos. Para a comunidade. Para aquele que precisa de nós. Para a missão que nos foi confiada.
Porque pode acontecer de passarmos horas contemplando a vida de pessoas que nem conhecemos e não percebermos que, ao nosso lado, existe alguém esperando simplesmente ser amado por nós. A comparação nos faz desejar outra vida. O amor nos ensina a entregar a nossa.
E talvez seja justamente aí que reencontramos a nossa identidade. Não naquilo que os outros têm. Não naquilo que os outros pensam. Não na imagem que conseguimos construir. Mas na verdade de que somos criaturas amadas, únicas, chamadas e enviadas.
A liberdade de ser quem Deus nos chamou para ser
Não fomos criados para competir pelo amor. Fomos criados para recebê-lo e oferecê-lo. Não fomos criados para sermos iguais. Fomos criados para sermos um só corpo, cada um com seu dom, sua história e sua missão. E quando finalmente paramos de desejar ser quem Deus não nos chamou para ser, começa a nascer em nós uma liberdade nova: a liberdade de sermos aquilo que Ele sonhou.
E então o dom deixa de ser motivo de comparação. Torna-se motivo de entrega. Porque a vida só encontra sua plenitude quando deixa de ser apenas algo que possuímos e se torna aquilo que oferecemos.
“Eu sou dom.
Você é dom.
Nossa vida é dom.
E o amor é o caminho pelo qual esse dom se torna entrega.”
Por Thamara Teles Couto
Missionária da Comunidade Católica Shalom
Missão de Patos(PB)
