Formação

Quando é momento de ausentar-se

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Ana Carla Bessa

 

    A família é uma grande escola de vida, mas o que fazer paraque seja uma escola saudável? Sonho e necessidade da maioria de nós, a vida emfamília é um grande desafio não somente para os pais, mas também para osfilhos, em cada uma das etapas do seu ciclo vital.

Na sua primeira infância, a criança ainda é muitodependente, necessita de cuidados mais específicos e de um contato bem estreitocom os pais, e se os tem, isto contribuirá bastante para que se torne um adultoseguro.

    No entanto, com o tempo, será fundamental para ela descobriroutras pessoas, ter outros tipos de relação, o que é impossível ocorrer quandoos pais não sabem ausentar-se. Pais excessivamente presentes podem acabarvirando superprotetores e se tornando um perigo para o desenvolvimento dosfilhos, pois lhes suprem todas as carências, fechando as possibilidades deestabelecer outros relacionamentos fundamentais na construção de suapersonalidade.

Assim como as famílias excessivamente desligadas, onde osfilhos são jogados ainda crianças na solidão, para “se virarem” sem a ajuda dospais, as famílias excessivamente ligadas produzem adultos inseguros pararesponder às solicitações da vida.

    A excessiva preocupação em suprir os filhos em tudo podecomeçar bem cedo, até antes que eles nasçam: “Ah, não vou deixar que meusfilhos passem o que eu passei…”. A partir de tal idealização, aparentementetão bela, pode nascer uma educação para a insegurança e falta de sentido navida.

Criar filhos impermeáveis às necessidades, frustrações esofrimentos é uma utopia que alguns tentam realizar através de inúteistentativas que poderão fazê-los sofrer ainda mais. Crianças demasiadamentesupridas tendem a ser adultos intolerantes para com os outros, para com a vidae para consigo mesmos, que não sabem o que querem ou desistem nas primeirastentativas de realizar algo.

    A narrativa abaixo traz um clássico exemplo dos pais que nãosabem ausentar-se: O filho quer empinar uma pipa. Então o pai ou a mãeimediatamente compra uma pipa de luxo, com lanterninhas e rabo de náilonimportado. E na tentativa de “ajudar”, acaba fazendo tudo diante do filhoperplexo e frustrado. É que, mesmo com a melhor das intenções de realizar odesejo do menino, este pai ou esta mãe se interpôs a tal ponto entre o desejo ea realização da criança, que anulou qualquer ação da sua parte, roubando-lhe aalegria de trabalhar pela realização de seus projetos.

    Mas se este pai ou esta mãe, ao contrário, deixar que acriança construa sua própria pipa, dispondo-se a uma participação menos “ativa”na tarefa, ajudando somente se e no que for solicitado, mesmo que a criançatente e erre várias vezes, na próxima vez que ela quiser alguma coisa, saberálutar por ela e, mesmo à custa de muito sacrifício, acabará aprendendo algo eencontrando alguma realização. Isto, como pais ou mães podemos fazer, sem medode errar: não impedir que nossos filhos cresçam.

    Marcadas por um projeto humano dos adultos que as cercam,algumas crianças já nascem com o peso de realizar sonhos que outros membros dafamília não alcançaram para si. São ainda bebês, mas já recebem títulos de“Doutor Isso”, “Professor Aquilo”, “Grande Advogado” etc. Tal peso pode setornar tão grande que a não realização de tais projetos se tornará na idadeadulta motivo de grande frustração entre pais e filhos. Os filhos não sãopropriedade dos pais, nem uma “edição melhorada” deles, mas são outras pessoas,com destinos únicos, irrepetíveis. E a quebra do seu crescimento emocionalatravés de um cuidado excessivo, que se prolongue da infância à idade adulta,seja consciente ou inconscientemente programado, resultará bastante nociva paraeles. Por isso, é necessário a nós, como pais, vigiar para que não estejamosconstruindo, passo a passo, uma família aparentemente muito unida, mas onde nãose percebe claramente os limites de cada um, onde a vida de um é a vida dooutro e ninguém tem sua própria identidade nem desenvolve suas capacidades.

   Alguns “psicologismos” ditam continuamente nas consciênciasdos pais a ordem de realizar verdadeiros malabarismos para “não frustrar”, “nãotraumatizar” os filhos. Mas quem disse que quem sofre está mal? Uma pessoa quesofre pode estar muito bem, desde que esteja encontrando sentido para seusofrimento. E quando uma família passa por provações, cada membro, na medida desua capacidade, pode participar saudavelmente das lutas familiares para depoisparticipar do sabor da vitória. Segundo a tradição que interpreta os Salmos, opovo de Deus, no meio do qual certamente havia muitas crianças, voltou doexílio cantando: “Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão”.

Filhos não são apenas “criados”, mas podem ajudar a “secriar” e precisam de espaços para isto.    

    Tais espaços são as nossas ausências.Filhos não estão no mundo apenas para receber, mas mesmo dentro dos seuslimites têm muito para dar à família e, se lhes for permitido, podem ajudarmuito mais do que imaginamos. Mas para isto é necessário que, como pais,saibamos “nos ausentar” no momento certo, conforme cada etapa de suas vidas.

O modelo perfeito de família é a Santíssima Trindade. E seconsideramos o grito de Jesus na Cruz: “Pai, por que me abandonaste?” como ummomento indispensável à Sua Ressurreição e à nossa Salvação, compreenderemosque o Amor Perfeito se prova pela ausência que dará ao ser amado a imprescindívelocasião de Ser.


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