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Quem não deve não teme…

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Na tranquilidade de seus canais, com belos edifícios e uma vida econômica estável, a Holanda segue os padrões da cultura e temperamento nórdico. Método, raciocínio e estabilidade podem sintetizar o modo de viver deste povo que se habitou a enfrentar com labor os avanços do mar. Segundo o Eurobarometer (2005), uma pesquisa de opinião pública de European Comission, 97% dos holandeses estão satisfeitos com seu nível de vida.

No dia 5 de maio, em Amsterdã, sua bela e tradicional capital, houve uma cerimônia de homenagem às vítimas da Segunda Guerra Mundial, onde estava presente a família real. Tudo ia bem. Entretanto, no período em que decorriam dois minutos de silencio em homenagem às vitimas, um grito e um estrondo assustaram a multidão. A rainha Beatriz e os membros da família real holandesa foram evacuados, por todo lado correria e pânico. Sessenta pessoas feridas foi o resultado do incidente.

Tudo não passou de um alarme falso quando alguém gritou qualquer coisa indecifrável e ouviu-se o ruído de objeto atirado ao chão. Um homem de 39 anos, acusado de distúrbios da ordem pública, e que já tinha sido detido crime violento, foi responsabilizado pelo fato. É o poder de um alarme falso.

As pessoas estão assustadas por causa dos atentados terroristas que cada vez mais assolam a Europa e EUA. Este fato na longínqua e simpática Holanda nos convida a colocar algumas questões pertinentes. Qual a razão mais profunda de as pessoas se sentirem tão inseguras?

Eis alguns dados que convidam o leitor a uma reflexão.

Infelizmente, apenas 34% dos holandeses acreditam em Deus, o que coincide com a população que se diz católica e muçulmana naquele país. Segundo o Eurobarometer 27% dos holandeses não acreditam em Deus e o restante da população (37%) acredita em alguma sorte de espírito ou força. Este altíssimo grau de ateísmo coloca a Holanda em 3º lugar no ranking europeu de ateísmo, atrás apenas da França e Republica Tcheca, 33% e 30% respectivamente. Coincide com esta grande taxa de ateísmo, um grande pessimismo para o futuro do país: apenas 35% dos habitantes da Holanda acreditam que a próxima geração gozará de uma qualidade de vida superior, atrás apenas da França (34%) e Suiça (26%). Como os números não mentem, pessimismo e ateísmo se coadunam.

Todavia, segundo o saudoso Papa João Paulo II, existe uma espécie de homem que não está denominado nas estatísticas, mas, no entanto, possui uma psicologia muito difundida no mundo moderno. É uma mentalidade pela qual o indivíduo confessa um Deus, uma religião, mas não vive segundo os princípios de sua própria crença. Este grupo de pessoas parece coincidir com a imensa maioria de pessoas que vivem distantes de Deus no seu cotidiano. Se são católicas, não frequentam devidamente os sacramentos e a Missa, vivem para uma subsistência meramente humana sem qualquer prisma sobrenatural. Era o que João Paulo II denominava de "ateísmo prático".[1] Apesar do ateísmo doutrinário e confessado não ter presença sensível na sociedade latino-americana, o "ateísmo prático", está tão arraigado na alma do homem contemporâneo, quanto é inconsciente e difundido.

Em diversas ocasiões João Paulo II e Bento XVI atribuíram este acontecimento ao materialismo e ao consumismo,[2] que há alguns anos atrás penetrou nos países europeus e que é cada vez mais crescente na América Latina. Também a secularização tem especial papel neste processo, como correlaciona o anterior Papa: "a secularização contemporânea está acompanhada de uma fragmentação e de um empobrecimento da vida interior espiritual do homem".[3] Qual o remédio para este mal tão difundido no mundo atual?

O antídoto para o problema é a virtude da Fé. A segurança e a confiança são frutos da virtude da esperança. A confiança regula os nervos e faz com que o homem evite situações desesperadoras e irrefletidas. Para Monsenhor João Clá, "a confiança é a esperança multiplicada pela Fé".[4]

A razão teológica mais profunda do enorme papel da Fé está em que a esta é o princípio das demais virtudes.[5] Embora seja menos excelente que a caridade, sem a virtude da Fé não existe nem caridade, nem esperança. Não existindo virtudes teologais, não pode haver as virtudes cardeais. Assim, a Fé é o princípio da perfeição cristã, por isso disse o Divino Mestre: "Aquele que crê no Filho do Homem tem a vida eterna" (Jo 3, 36). Destarte, as demais virtudes teologais – a Esperança e a Caridade – gravitam em torno da Fé, pois, não se espera naquilo que não se acredita, e não se ama aquilo que não se conhece.

Somente assim o cristão poderá atingir a perfeição espiritual, que se chama santidade. São Paulo, de forma clara e simples, demonstra que a justificação se dá pela Fé.[6] Não é a lei, mas, o espírito que vivifica. A Fé justifica,[7] pois, como diz, Tiago é provada pelas obras[8]. Não que se presuma uma salvação sem o cumprimento das bem-aventuranças evangélicas ou dos mandamentos da Igreja.

Ademais, a Fé, pelo panorama escatológico e cristológico, descortina diante do indivíduo um panorama real e ideal, atraindo-o pela beleza, torna-o apto a prática da lei moral, os quais não apeteceriam o homem, pelos seus impulsos naturais, mas que, através da sublimidade da Revelação, a pessoa é capaz de dizer "não" ao que ofende a Deus, à comunidade humana e a si mesmo, mas também, a dizer "sim" a vida, ao progresso, ao bem comum, à virtude e ao apelo universal de Cristo à santidade. Portanto, a excelência da Fé concede ao homem a conscientização necessária para dizer "não" ao mal, e "sim" ao bem.

Talvez esta ponderação ajude aos que já possuem a virtude da Fé a incrementarem-na pela oração e pelo estudo. Não basta apenas acreditar em Deus, é necessário conviver com Ele através da oração, da participação dos sacramentos e da vida paroquial, pois segundo Von Balthasar, "a Fé não é um ato humano isolado, senão o comportamento global, a disposição global com que o homem responde pela graça à revelação de Deus que lhe interpela"[9]. É a verdadeira lição que tiramos de um alarme falso.


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