Formação

Querida Mami

comshalom


          Ilustração: Tubo de ensaio
                                  congelado

Maria Emmir O. Nogueira
Co-Fundadora da Com. Católica Shalom

 Possochamar-lhe assim? Afinal, esta é a única vez que vou falar com você. Deixe-mechamar-lhe como quiser, por favor. Pensei em chamar-lhe “mamãe”, mas achei quevocê ia considerar antiquado demais. Sei que você é uma mulher moderna, uma mãemoderna. Então, pensei que “mami”, assim mesmo, abrasileirado, seria melhor,mais aceitável para sua mentalidade emancipada, e que faria você mais feliz.

 Como vocêjá deve ter deduzido, sou seu filho. No entanto, você nunca me viu e nunca lhefalaram de mim. Na verdade, neste momento, estou agarrado a uma irmã minha,também filha sua, que, certamente, não conseguirá sobreviver, como também eunão conseguirei. Esta é, portanto, uma carta de “oi” e “adeus”, de “obrigado” e“mas, por quê?”.

 Eu, minhairmãzinha e mais uns seis, estamos, neste momento, mergulhados em vidros denutrientes, reproduzindo nossas células. Minha irmã e eu estamos colocados, porengano, em um mesmo vidrinho e, daqui, conseguimos ver os outros irmãos, masnão tocá-los. Tanto nós quanto eles fomos rejeitados por você e pelo papi – eleque também é emancipado deve preferir ser chamado assim. O médico escolheuoutros quatro para fazer a inseminação artificial, colocando-os em você, paraserem gestados e terem vida. Dos quatro, não sei ainda quantos “vingarão” emseu útero. Gostaria que todos “vingassem”, pois sei o quanto é triste ter demorrer tão cedo, sem nem mesmo ter sentido o calor do seu ventre, o aconchegode seu útero.

 Daprateleira onde me encontro, pude ver o seu rosto e o do papi, quando chegaram,ansiosos, para implantar os quatro escolhidos. Você é jovem e bonita! Pude verseus quadris, que agora serão alargados pela gravidez, seus seios redondos efirmes que amamentarão – talvez – meus irmãos, seu sorriso, seus olhos quejamais me verão, suas mãos bem cuidadas que jamais me segurarão. Pude sentirseu cheiro e ouvir sua voz, que nunca se dirigirá a mim, pois não me dará nome.

 Não querome fazer de vítima. Sei que antes de mim, outros “se foram”, fecundados namargem de 1% de “falha” do DIU que você usou e dos anticoncepcionais que tomouquando o DIU teve de ser retirado. Fecundados em sua trompa, na faixa de “1% depossibilidade de gravidez”, desceram até seu útero, mas, lá, encontraram ainflamação constante causada pelo DIU e, mais tarde, com o anticoncepcional, afalta dos hormônios que possibilitam a nidação, a fixação do ovo no útero emorreram, como eu e minha irmã morreremos em breve.

 Mami, vocêque é tão inteligente, tão estudada, tão emancipada, não soube ler nas bulasque a gravidez que, por acaso existisse, poderia ser transformada em aborto?Você, tão esclarecida, não entendeu que a expressão “interrupção da gravidez” éum eufemismo para “morte da criança”, para “aborto”? O que cegou você, mami? Oque a confundiu? O que a iludiu? Que afã, que interesse, que plano, quenecessidade foi mais importante que a vida desses meus irmãos? Quem a convenceu– mesmo com a evidência da bula do fabricante! – de que o DIU de cobre não éabortivo? Quem a iludiu dizendo que não há a mínima possibilidade de haver umagravidez e conseqüente aborto quando se toma anticoncepcionais? Quem convenceuseu coração bondoso de que existe algo, além de Deus, mais importante que avida? Depois do DIU, dos anticoncepcionais, nada de engravidar! Veio então a sugestãodo próprio médico: a inseminação artificial que tem também uma coleção deeufemismos, entre eles “gravidez induzida”.

Sei disso tudo porque estava lá, dentro de você. Era partede você, como óvulo, desde o seu nascimento, pronto para ser maturado, fecundado,ansioso por viver. Vi cada menstruação sua, em sua adolescência e juventude,sofri todas as intromissões dos hormônios artificiais depois que você se casoue decidiu tomá-los, tendo tentado o DIU. Estive lá até que aquela dose cavalarde hormônio, em preparação para a gravidez inseminada, me forçou a amadurecer efui retirado, junto com os outros meus irmãos e mergulhado em um vidro contendoo esperma do papi. O esperma era estranhamente indiferente. Os espermatozóides,mais que me fecundar, me agrediam, como animais que cumprem com raiva um deverindesejado. Fui fecundado, como meus outros irmãos, mas não fui escolhido. Sounormal, como os outros. Foi puro acaso. Sobrei!

Você e o papi ainda fazem de conta que não existo. O médiconunca falou de mim e dos outros que sobraram. Ele finge que não existimos evocês fingem que não sabem que existimos. É “ciência” esta desinformaçãoestranha. Ajuda a entorpecer a consciência de quem pensa que só existe aquiloque se vê, que se toca, que se menciona. Na verdade, mami querida, o que existeé aquilo que se ama.

De minha parte, não consigo fazer de conta que você e o papinão existem. Foi de vocês que nasci. São minha referência de vida, minha origembiológica. Sei bem que minha vida vem de Deus, que me deu a alma, compungido ehumilhado pela situação da inseminação que o fere, mas fiel à vida, com a qualse compromete sempre, apesar do pecado. Sei que é Deus a origem de minha vida,mas Deus quis precisar de vocês e vocês, queiram ou não, saibam ou não, mencionemou não, são vida de minha vida.

Ontem, ouvi o pessoal que trabalha aqui dizer que os meusirmãos que estão nos outros vidros serão congelados para experiênciascientíficas com células tronco. Ficarão esperando que o governo sancione a leique permitirá a retirada dessas células de embriões humanos. Quando lhesretirarem as células tronco, é claro, morrerão. Pego-me a imaginar como sesentirão, congelados, estáticos, vivendo mas sem viver, sem mais poderemmultiplicar suas células, esperando, indefinidamente, a morte, com sua almavivendo neles sem que eles saibam ou percebam, porque alma, mami, não secongela!

Impossível, também, não imaginar minha própria morte. Minhairmã, creio, morrerá nos próximos minutos. Sinceramente, espero que issoaconteça enquanto estou ainda perto dela. Deve ser muito triste morrersozinho…

Acaba de entrar o chefe deste setor. Ouvi-o ordenar que me“descartem”. Minha irmã, sua filha, mami, graças a Deus, acaba de morrer bem aomeu lado. Estou, agora, sozinho. Não sei, ainda, se me jogarão fora com o vidroou não. Às vezes, desejo que o façam, para que eu possa viver um pouquinhomais, mergulhado nos nutrientes. Mas logo vejo que um vidro desses delaboratório é muito caro para jogarem fora, assim, sem mais nem menos. É difícilde admitir, mas ele tem mais valor que minha vida!

Fico desejando que, quem sabe, me joguem em um saco plásticocom algum nutriente. Assim, além de sobreviver mais, não terei que conviver comos dejetos do esgoto e da fossa ou com o restante do lixo. No entanto, desistodo desejo, com medo de enganchar em alguma curva e ficar sendo bombardeadopelos dejetos que passam, ou ficar boiando em cima de… bem, você sabe bem dequê.

Devo despedir-me, agora. O chefe acaba de mandar umfuncionário fazer algo com o vidro que me contém e não vejo nenhum sacoplástico por perto. Preciso agradecer a você e ao papi pela breve vida que mederam. Obrigado pelo dom da vida! Quero que diga aos meus irmãos que “vingarem”que os amo e que foram muito bons os anos em que convivemos em seu ovário.Preciso dizer a você e ao papi que os perdôo e que, junto a Deus, estareirezando por vocês. Está na hora de dizer “adeus” e, diferentemente do queplanejei no início, não vou perguntar “por quê”. Não quero que você se sintamal ou acusada. Poderia fazer mal aos meus irmãos que estão dentro de você.Digo apenas “adeus” e “te amo”. No céu, a gente se encontra e eu darei em vocêos beijos que, aqui, não pude dar. Até lá, se Deus quiser.

 Ass:HSF2495-3702, meu número de série


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