Formação

Ressurreição – De vida e cruz é feito este amor

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Começo essa pequena reflexão sobre a Ressurreição falando do caminho da  cruz, pois falar do Cristo Crucificado é falar do Cristo Ressuscitado.Como base para esta reflexão nada mais próprio do que a palavra de Deus e um pequeno testemunho de vida.

Paulo escreve aos Filipenses:

"Pois há muitos dos quais muitas vezes eu vos disse e agora repito, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo" (Fl 3, 18).

O que isto pode dizer para nós?

Podemos pensar que já sabemos que é preciso passar pela cruz, podemos pensar que já entendemos bem o porquê, o como, em quais circunstâncias da vida nós a abraçamos. Vivemos a cruz e até consideramos que devemos aceitá-la, mas quero aqui, abrir um espaço para uma nova visão do que seria abraçar o Cristo crucificado para assim experimentar do Ressuscitado.

Vou relatar uma pequena experiência concreta que nós vivemos aqui na Tunísia, experiência esta, que nos lançou na escolha radical pelo Ressuscitado que passou pela cruz, que não poderia ter ressuscitado sem passar por ela.

Desde que chegamos aqui no ano de 2008, nós nos engajamos junto com uma religiosa em uma associação pública que cuida especificamente de pessoas com doenças no sangue, tais como anemia falsifórmica,leucemia,etc.

O nosso trabalho é de recreação, tanto para os pacientes como para os familiares que ali permanecem sendo seus acompanhantes. Como trazemos no peito o tau,ou seja, a cruz, ela se torna uma ponte para que qualquer pessoa nos interpele a respeito de Jesus Cristo, o que para nós é oportunidade de viver a parresia no meio deste povo, pois vivemos em um país considerado muçulmano, aqui os cristãos são em sua maioria estrangeiros.

Quando somos interpelados iniciamos um diálogo tranqüilo com cada muçulmano, pois eles não aceitam e nem crêem em um Deus que escolheu morrer numa cruz por amor e dali ressuscitar, um diálogo que se dá gota a gota e em cada oportunidade,aqui não tem como ser diferente, em meio às recreações, aos sorrisos, à aproximação amigável, surgem diálogos sobre a cruz e a ressurreição de Cristo como também outras questões da nossa fé.

No mês de Março fomos chamados pela pessoa responsável pelo trabalho para uma reunião e nesta nos foi expresso um medo de sua parte de que ali fôssemos perseguidos e que todos nós fôssemos expulsos de lá por portarmos a cruz explicitamente no peito, ou seja, o tau, desfavorecendo assim todo o positivo trabalho com os necessitados.

Ficamos reflexivos, e isso nos lançou na oração, na escuta de Deus sobre o que fazer. Seria então vontade de Deus tirar do peito a cruz ou não?

Quando rezamos e partilhamos chegamos à conclusão de que assumir a nossa identidade no mundo e na Igreja é a nossa primeira missão, tudo o que fazemos passa por esta realidade de quem somos: SER Cristãos, SER Shalom. Sabemos que o sinal no peito é apenas um sinal deste ser e da nossa missão. O fato de ele sair ou ficar não diminui em nada o que já trazemos em nossa identidade, logo, Deus não nos deixou sem resposta, por meio da sua palavra foi sendo construída em nós a decisão certa a ser tomada.

Decidimos permanecer lá e com a cruz no peito, não por presunção, vaidade, heroísmo, prepotência, nem por afronta ou insensatez, mas pela certeza de que o Ressuscitado que anunciamos passou por ela e que essa experiência para nós seria exatamente tornar este anúncio verídico e palpável nas nossas vida. Sermos testemunhas, tornar a nossa experiência viva e repleta do Ressuscitado, transbordando assim para a vida de qualquer homem que venha a passar por nós, mesmo que seja em um país como o nosso.
Recordo-me aqui de São Paulo quando diz: “Eu, por mim, nunca vou querer outro título de glória que a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 6,14).

De fato, é ela que nos lança na verdadeira ressurreição, é ela que nos aponta a vida nova, a vida em Cristo. A Cruz é o modo mais profundo de a divindade se debruçar sobre a humanidade e sobre tudo aquilo que o homem, especialmente nos momentos difíceis e dolorosos considera seu infeliz destino. A cruz é como que um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas da existência terrena do homem, que Cristo um dia tinha formulado na sinagoga de Nazaré e que repetiu depois diante dos enviados de João Batista e ainda aos seus discípulos. A cruz é sinal do amor incondicional de Deus pelo homem, qualquer homem, mesmo os que não acreditam neste amor. Não seria justo retirarmos a cruz do nosso peito quando ela já fala por si mesma a qualquer um que passe por nós que DEUS O AMA EM JESUS CRISTO E QUE POR ELE TODAS AS COISAS SE RENOVAM.
Cristo, ao sofrer na cruz, interpela todo e cada homem e não apenas o homem crente. Até o homem que não crê poderá descobrir nele o seu próprio rosto, o seu valor e a sua felicidade.

Ser testemunhas do Ressuscitado que passou pela cruz, eis o nosso chamado, eis a nossa felicidade!

Seria bom nos questionarmos a respeito do nosso testemunho de vida, por vezes nos comportamos como inimigos da cruz de Cristo, nós que tocamos no Cristo vivo e Ressuscitado, que sabemos os frutos que essa morte na cruz nos deu, nós que experimentamos de uma misericórdia sem limites não podemos rejeitar o Cristo da cruz e da ressurreição, nem nos omitir diante da verdade de Cristo, verdade esta que deve está explícita nas nossas vidas e nas nossas escolhas, não somente pendurada em nosso peito ou pronunciadas em nossos lábios.

Que o Senhor nos ajude a tornar Cristo vivo no mundo por meio do nosso testemunho, porque: “Nós anunciamos Cristo crucificado que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas, para aqueles que são chamados tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus.Este Cristo Deus o Ressuscitou dos mortos e disto nós somos testemunhas.Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.”( 1 Cor 1,23-24).

                            Rosenalva Ferreira-CV-Tunísia- África


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