Formação

Retrospectivas

Quando chega o fim de ano, gosto de assistir aos programas da TV chamados de “retrospectivas”. Em poucos minutos passa um ano inteiro. Assim tenho a impressão que o tempo voou. Demorou um ano, nem mais, nem menos, mas ali é tudo tão rápido. Fica a impressão das tantas coisas que aconteceram. Muitas, dizendo a verdade, já havia esquecido; outras, já não lembrava mais se havia acontecido neste ano ou, sabe lá, quantos anos atrás. Casos que foram notícias repetidas até à exaustão: onde estarão agora todas aquelas pessoas? Algumas ficaram ainda por cima, com a imagem ligeiramente manchada, mas ainda em lugar de destaque. Outras voltaram ao anonimato. Os minutos de fama passaram, rápidos. Em geral, para quase todas, sobraram o prejuízo, o vazio, a luta para retomar a uma vida normal; a briga para recuperar os seus direitos.

E eu? Onde estava? Quando assisto a todos esses fatos, sinto-me tão pequeno! Insignificante. As coisas foram acontecendo e eu fiquei por fora. Só assistindo. Como se assiste a um jogo, jogado pelos outros. Agora, vejo a história passar na telinha. Parece que o meu ano, um ano inteiro, passou; e eu não fiz nada. Nada que tenha merecido atenção. Sou tentado a ficar com inveja. Será que eu não faço parte dessa história? Os outros, os que agora passam aí, esses sim, são importantes, eu não. Mas o próximo ano, vou me mexer, vou estar lá no seleto número dos colunáveis.

Depois paro para pensar. Muitos que passaram nos noticiários, não foi por coisa boa. Passaram sofrendo e chorando. Outros esconderam o rosto na hora do flash. Outros ostentaram orgulho, raiva, revolta, indignação. De muitos, muitos mesmo, não lembro mais nada. Começo a me convencer que quem está fazendo a história mesmo, quem está dando o rosto a este mundo, são os bilhões de pessoas comuns. Aqueles que levantam todos os dias para trabalhar; que pagam os impostos a cada cupom no caixa. Aqueles que alongam as filas; que usam os ônibus, o metrô, a bicicleta. Aqueles que desejam chegar em casa, porque gostam da sua família. Aqueles que cochilam na hora da telenovela e nunca sabem quem é a mulher de quem. Aqueles que trocam os nomes dos atores, dos cantores, dos políticos. Aqueles que toda manhã e toda noite dizem: “Bom dia” e “até amanhã, se Deus quiser”, às mesmas pessoas e recebem as mesmas respostas.

São essas pessoas, que agüentam os trancos da vida, e dão sentido à história. Os poucos famosos mandariam em quem? Fariam discursos para quem? Venderiam a moda para quem? Sem os bilhões de anônimos o planeta estaria vazio.

São esses que enchem a vida de sorrisos, de pequenos gestos, de abraços, daquelas palavras comuns, que fazem funcionar as coisas como: “Tá tudo bem? Como vai? Que bom que você chegou. Obrigado”.

Não tem general sem exército, não tem ator sem público, não tem político sem votos. Também não tem pastor sem ovelhas. Não é o sorriso da modelo no painel luminoso da praça que faz o mundo mais feliz. Ela está sorrindo a todos, porque não ama a nenhum dos que passam na avenida. É o abraço dos amigos que se encontram, é o carinho dos namorados que faz mais alegre a vida. São os segredos dos adolescentes e as brincadeiras das crianças que fazem a vida mais bonita. Esses não passam nas retrospectivas porque são comuns, pporém é das coisas e dos gestos comuns que se preenche a nossa vida.

A grande notícia é esta: nós todos somos importantes. Importantíssimos no nosso dia a dia; estrelas brilhantes pelo bem que fazemos, pela paciência que temos, pela coragem de viver, pela perseverança no caminho. São as nossas pequenas histórias que formam o rio da grande história. Nada e ninguém passa despercebido Àquele que ama a todos de verdade. Obrigado, Senhor, por ser “famoso” aos teus olhos.

Dom José Pedro Conti , 58
Bispo de Macapá (AP)
Site CNBB


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