Formação

Revolução silenciosa de Cristo

comshalom

Cardeal Geraldo Majella Agnelo

Coma multiplicação dos pães e a apresentação de Jesus como o pão da vidacomeça a revolução silenciosa de Cristo que transforma por dentro aspessoas e pode mudar o mudo.

Eisas conseqüências do gesto clamoroso de Jesus para os habitantes daGaliléia: “Queriam fazê-lo rei”. Era uma bela idéia que resolveria osproblemas econômicos não só da Palestina de então, mas também de hoje.Assim pensava a gente, mas assim não pensava Jesus: retirou-se sobre amontanha, e ficou aí sozinho.

Nãocompreender Jesus é um risco que corremos também nós. Com Jesuscaminhamos sempre sobre a beira do mistério. O Verbo de Deus feitohomem vindo habitar entre nós, é uma realidade que ultrapassava a nossocompreensão, nossas expectativas, nossos programas.

Nasinagoga de Cafarnaum, Jesus procurou explicar-se, mas obteveresultados não incorajantes. Os curiosos procuravam Jesus e olhavam-nocomo um prestidigitador estrepitoso para resolver os problemaseconômicos. Jesus se retirou. Procuraram-no. Encontraram-no nasinagoga. Jesus lhes respondeu: “Vós me procuráveis porque comestes dospães e vos satisfizestes. Procurai não o alimento que se perde, mas oque dura para a vida eterna e que o Filho do homem vos dará”.

Agente procura o pão material, e Jesus fala do espiritual. Os chefesreligiosos de Cafarnaum recordaram-se do maná que tinha nutrido os seusantepassados no deserto do Sinai. Disseram-lhe: “Nossos pais comeram omaná do deserto, como está escrito: “Foi-lhes dado de comer um pão docéu”.

Sãorealidades longínquas de nossa experiência. Os botânicos classificam omaná como arbusto típico do deserto. Cresce em condições difíceis, útilpara nutrimento em situações desfavoráveis. Consideravam os hebreus umportento, um grande dom de Deus. Maná quer dizer ‘o que é isso?’ Oshebreus consideraram o maná como pão do céu. No livro da Sabedoria,16,20, o Senhor é agradecido assim: “Saciastes a fome do teu povo com opão dos anjos”.

Osgalileus, recordando-se do passado, disseram a Jesus: Moisés nos deu omaná, o pão do céu, e tu o que nos dás? Mas Jesus esclarece: “Moisésnão vos deu o pão do céu, mas é o meu Pai que vos dá o verdadeiro pãodo céu”. Eis aqui o pão verdadeiro que o Pai vos dá hoje, o dá para afome dos homens hoje.

Masos galileus não tinham compreendido: “Senhor, dá-nos sempre este pão”.Então Jesus revelou a verdade escondida: “Eu sou o pão da vida; quemvem a mim não terá mais fome”. Com este modo explícito, mas tãoobscuro, Jesus começava a preparar os seus discípulos para o mistérioindizível da Eucaristia.

Paranós, depois de dois mil anos de reflexão, é menos difícil compreender.Sabemos: o Verbo encarnado queria tornar-se o “Deus conosco” parasempre, ficar conosco de modo visível e sensível sempre, e a Eucaristiafoi a misteriosa, extraordinária modalidade por ele escolhida.

Asmultidões em torno de Jesus não compreendiam. Ficavam na escuridão maisabsoluta. Ao término do discurso sobre o pão da vida, muitos de seusdiscípulos disseram: “Estas palavras são duras. Quem compreende?” E lhevoltaram as costas. Jesus olhando ao seu redor, encontrou somente osapóstolos, ainda eles transtornados.

Semdúvida grande fadiga para distinguir o pão material daquele que nutre oespírito! Jesus na Última Ceia dirá: “Tomai e comei, isto é o meucorpo…” Pedro e os apóstolos acreditaram. Ao longo dos séculos semprehá no mundo tantas pessoas de fé em torno de Jesus. E continua acrescer o número.

Cadadomingo, dia do Senhor, em tantas comunidades eclesiais os cristãos seencontram para fazer comunhão com o Senhor ressuscitado, e fazercomunhão entre si. Pessoas que diferentemente dos habitantes daGaliléia, aprenderam a diferença entre fome e fome, entre pão e pão.Terminada a missa nós, se participamos com fé, voltamos a nossas casascom idéias mais claras e com vontade mais decisiva, para um empenho decoerência cristã. Dizia Paul Claudel: “Quando tiveres Deus no coração,possuirás o Hóspede que não te dará mais repouso”. Sim, Jesus nos fazinquietos. Cura d’Ars: “Não sou digno de recebê-lo, mas tenhonecessidade dele”.

Teresa de Calcutá: “O tabernáculo nos garante que Jesus plantou sua morada no meio de nós”.


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