Formação

Santo Agostinho: Toma e Lê!

Márcio André Teixeira Barradas
Consagrado da Comunidade Católica Shalom

“O santo que mais falou de si mesmo – mas o fez comsinceridade e simplicidade, transformando em confissão, isto é em louvor aDeus, tudo o que lhe pertence – não é fácil falar. Homem e mestre, teólogo efilósofo, moralista e apologista: todas as imagens que transparecem como que emfiligrana, e todas válidas, a quem observe perto Santo Agostinho de Hipona,bispo e doutor da Igreja. Homem, antes de tudo, com inquietações, os anseios,as fraquezas, como nos apresenta a leitura de suas confissões, nas quais mostraa realidade nua e crua de sua alma com sinceridade e candura”.

“Meu Deus, faze que eu recorde tua misericórdia para comigoe a proclame para agradecer-te. Que meus ossos sejam penetrados por teu amor edigam: Senhor, quem é semelhante a ti?” É importante que nesse dia, possamos olhar para a santidade de Agostinhofoi dada por uma experiência forte e profunda da misericórdia e do amor deDeus. Por isso, possamos ler o momento decisivo da sua vida, em que foi odivisor de águas da sua conversão:

“Quando essas severas reflexões me fizeram emergir do íntimoe expuseram toda a minha miséria à contemplação do coração, desencadeou-se umagrande tempestade portadora de copiosa torrente de lágrimas. Para dar-lhesvazão com naturalidade, levantei-me e afastei-me de Alípio, o necessário paraque sua presença não me perturbasse, pois a solidão me parecia mais apropriadaao pranto. Alípio percebeu o estado em que me encontrava: o tom da vozembargada pelas lágrimas, ao dizer-lhe alguma coisa, havia-me traído.Levantei-me; ele permaneceu atônito, onde estávamos sentados. Deixei-me, nãosei como, cair debaixo de uma figueira e dei livre curso às lágrimas, quejorravam de meus olhos aos borbotões, como sacrifício agradável a ti. E muitascoisas eu te disse, não exatamente nesses termos, mas com o seguinte sentido:“E tu, Senhor, até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres denossas culpas passadas!” Sentia-me aindapreso ao passado, e por isso gritava desesperadamente: “Por quanto tempo, porquanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôrfim agora à minha indignidade?” Assim falava e chorava, oprimido pela maisamarga dor do coração. Eis que, de repente, ouço uma voz vinda da casa vizinha.Parecia um menino ou uma menina repetindo continuamente uma canção: “Toma e lê,toma e lê”. Mudei de semblante e comecei com a máxima atenção a observar se setratava de alguma cantinela que as crianças gostam de repetir em seus jogos.Não me lembrava, porém, de tê-la ouvido antes. Reprimi o pranto e levantei-me.A única interpretação possível, para mim, era a de uma ordem divina para abriro livro e ler as primeiras palavras que a encontrasse. Tinha ouvido que Antão,assistindo por acaso a uma leitura evangélica, sentiu um chamado, como se apassagem lida fosse pessoalmente dirigida a ele: “Vai, vende todos os teus bense dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois vem e segue-me.” E logo, através dessa mensagem, converteu-sea ti. Apressado, voltei ao lugar onde Alípio ficara sentado, pois, ao levantar-me,havia deixado aí o livro do Apóstolo. Peguei-o, abri e li em silêncio oprimeiro capítulo sobre o qual quis olhar: “Não em orgias nem bebedeiras, nemna devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do SenhorJesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne.” (…) De talforma me converteste a ti que eu já não procurava esposa, nem esperança naterra, mas permanecia na fé que em tantos anos já tinha mostrado a minha mãe emsonhos” . 

Que Deus nos renove a graça e a esperança no amor de Deus.Possamos ter a memória de Santo Agostinho como aquele que não descansou atéexperimentar do amor de Deus. E quando assim o fez, lançou-se na vida entreguea Deus de forma plena, santa e pura. Que Deus nos renove hoje a graça daSANTIDADE.

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[1] Giovanni Luigi. Um Santo para cada dia. EdiçõesPaulinas, 1983.
[2] Agostinho. Confissões. Pg 191.
[3] Sl 78, 5 e 8.
[4] Mt 19, 21.
[5] Rm 13,13.
[6] Agostinho. Confissões. Pg 214 – 215.


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