Formação

Santos e Finados

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Dom Luiz Demétrio Valentini

Caindode domingo o dia primeiro de novembro, o calendário religioso acerta opasso com uma antiga tradição. Neste ano será possível celebrar emseqüência o dia de todos os santos, e logo em seguida, o dia dosfinados.

Santose finados fazem parte do quadro de referências que compõem umacosmovisão que procura integrar os diversos aspectos da realidade e davida humana, numa tentativa de harmonizar todas as coisas num universoque tenha sentido. E´ o que todas as religiões procuram fazer: buscar osentido último de todas as coisas.

Independentedo mérito objetivo destas duas celebrações, elas fazem parte da visãode conjunto que a fé cristã apresenta, e que é explicitada ao longo decada ano pelas celebrações tradicionais que compõem o calendáriolitúrgico da Igreja.

Aquestão de fundo, em ambas, é a esperança na vida além da morte,interrogação que acompanha fatalmente nossa condição humana de seresmortais, mas capazes de se perguntar pelo sentido de sua existência.

Aeste respeito, todos têm o direito de expressar suas convicções, e deformular também suas projeções além dos limites de nossa compreensãohumana. Mesmo sem lançar mão dos dados oferecidos pela fé, é legítimo oesforço de encontrar suporte racional para a esperança de umasobrevida. Pois na verdade, o fato de sermos capazes de interrogar aeternidade, já é sinal de que somos feitos para ela.

Masé interessante observar que a fé cristã não se baseia em garantiasracionais para cultivar sua esperança na vida eterna. Ela parte deoutro princípio. Ela funda sua esperança na maneira como Deus serevelou. Assim, a vida eterna é uma dedução, uma conseqüência, umcorolário, uma derivação de como Deus manifestou o mistério de suaprópria existência. 

Notempo Jesus havia dois grupos que se opunham frontalmente a respeito daressurreição. Os fariseus afirmavam convictos que havia. Os saduceusdesdenhavam esta fé e se diziam abertamente contrários à ressurreição.Foi a propósito deles que Jesus precisou tomar posição, com asurpreendente resposta dada aos zombadores da vida futura. Jesus não seposicionou diretamente a favor da ressurreição. Jesus encontra ofundamento da ressurreição nas palavras ditas por Deus a Moisés: “eusou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”. Daí ele tira a surpreendenteconclusão, que serve de fundamento para a fé cristã: “ora, Deus não éum deus de mortos, mas Deus de vivos!”. 

Paraos cristãos, a vida eterna não é entendida como conseqüência de umasuposta imortalidade de nossa alma. Isto pode servir de suporte. Masnão mora aí a razão de nossa esperança, como São Pedro nos aconselha abuscar sempre. Nossa fé na ressurreição é muito mais consistente do queum simples raciocínio filosófico.

Colocadosos fundamentos da fé, é claro que a razão pode perceber neles acoerência interna, que a teologia procura encontrar, como “fidesquaerens intellectum”, no dizer de Santo Anselmo.

Sejá o Antigo Testamento oferecia base sólida para a fé na ressurreição,muito mais o Novo Testamento, que se constrói todo ele em torno da féna Ressurreição de Jesus. Depois de citar os fatos que servem defundamento para o Evangelho, escrevendo aos coríntios, São Paulo tira aconclusão certeira e definitiva: “Ora, se se prega que Cristoressuscitou dos mortos, como podem alguns dizer que não há ressurreiçãodos mortos?” A fé na ressurreição de Cristo, e em consequência, danossa ressurreição, é o núcleo aglutinador que harmoniza todo oconjunto da vida humana, com suas certezas presentes, e com suaesperança no futuro.

Celebrando santos e finados, rendemos homenagem ao Deus dos vivos, “pois para ele todos vivem”.


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