Formação

São José, referencial para o homem do novo milênio

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José era um homem justo, e a palavra justo em grego é díkaios, uma pessoa que vive, pensa e atua em conformidade com o desígnio divino a todo momento…

A vida em Nazaré

Deus escolheu uma terra, um povo para formar uma cultura. José escolheu o seio de seu povo para educar o Salvador; ele é o homem da memória, como todos os personagens da Bíblia, não só a mantém, mas a faz, ele “é memória”. Sua semente não gerou, mas José colocou o menino Jesus no mundo da história de Israel, da prática da Torah, dos costumes judaicos, da liturgia, da ética, de um comportamento único que é a característica hebraica aos olhos do universo.

A educação consiste em ensinar a seu filho que ele é filho, a fim de que ele tenha chance de ser pai. Se você não souber ser filho, é muito perigoso tornar-se pai – talvez sobre isso Jesus quisesse ensinar em Jo 14,6: “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim”.

José, pedagogo inspirado, que obedece a Torah, sentinela vigilante sobre a memória de Israel, torna-se pai porque é também, e antes de tudo, um homem de oração, um liturgo, um sacerdote exercendo o ofício em sua casa.

João Paulo II pede que a figura de São José adquira um renovar de atualidade para a Igreja do nosso tempo com relação ao novo milênio. É preciso assim que cada pai de família, tal como José, dirija a liturgia de sua casa. Ao assumir sua identidade litúrgica e sacerdotal como dom da misericórdia do Pai que restaura o homem de hoje, ele afirma em Deus a segurança de sua eleição e salvação; o homem retornará assim à sua nobreza de alma e seu esplendor à imagem do Pai do céu e de José, pai da terra e da Palavra que cria.

É preciso que cada pai possa, por exemplo, impor as mãos sobre cada filho e abençoe-o. Todos aqueles que foram abençoados por seu pai na infância se lembram para sempre desse gesto bendito, assim como os que foram marcados com o sinal da cruz por seu pai não somente no batismo, mas ao longo de sua infância.

Esses filhos terão para sempre uma imagem do pai semelhante a uma imagem de Deus e uma imagem de Deus semelhante a uma imagem do pai. Quantos homens atualmente têm dificuldade de reconhecer a Deus como um Pai porque essa imagem não tem sido transmitida por seu pai?

Felizes os filhos que aprenderam com seus pais a rejubilar-se diante de Deus, que viram seu pai exaltar e tremer na presença divina; esses conhecerão a força e o poder de uma verdadeira celebração e se tornarão capazes na elevação de seu fervor de abraçar uma multidão de almas.

O pai impõe uma diferenciação indispensável que deve romper o caráter fusional do amor do filho para com sua mãe. Quando não há essa diferenciação de papéis entre o pai e a mãe, a identidade da criança fica confusa, fragmentada, insegura na parte mais íntima do seu ser e, se ela não conhecer a Deus, procurará sua segurança nos vários caminhos que o mundo oferece. O papel do pai é, portanto, conduzir à Palavra, à separação – entre o sagrado e o profano –, ao limite e também à diferenciação.

Daí a necessidade urgente do pai reassumir seu sacerdócio batismal domiciliar, ministrando a Palavra e transmitindo a alegria que é uma potencialidade, um carisma, um vigor inacreditável sobre o plano espiritual.

A paternidade shabática de Iosseph

O Irmão Efraim nos diz: Ao longo de sua infância, o Filho do Homem que domina o Shabat vai se deixar introduzir no Shabat do Pai por esse outro Mestre do Shabat que é José; nenhum outro como ele é melhor colocado para nos insinuar o sentido justo da menouha: o repouso shabático do Pai eterno.

A Sagrada Família santificava então o sétimo dia, mas para a entrada do Shabat, preparava-se desde o meio da semana anterior, voltando o seu coração para esse dia santo, aspirando à expansão da presença divina. O cuidado e o tempo que consagravam aos preparativos materiais contribuíam igualmente a dar honra e glória ao reino shabático.

Não é difícil imaginar o carpinteiro Iosseph ocupado em talhar pequenos pedaços de madeira bem secos e de bom odor em honra do Shabat para acender o fogo, e sua esposa Myriam preparando os pratos seguindo provavelmente as receitas transmitidas por sua mãe Hannah.

Iosseph se empenha em revestir-se de suas mais belas vestimentas e de seu mais belo talit em honra do Shabat, sem esquecer muito provavelmente de friccionar sua cabeleira e sua barba com um desses óleos perfumados que ainda hoje agrada aos juizes orientais; vai à sinagoga com Ieshua e juntos cantam o kabalath Shabat que compreende os Salmos 65,96,99,29 e o belo hino do Lekha Dodi: “Vem, meu bem amado”, rezam o Shemá e a oração das 18 bênçãos.

Ao retornar à casa onde brilham as luzes do Shabat, eles encontram sobre a mesa preparada, no lugar do pai de família, dois pães verdadeiramente enatados, superpostos e recobertos de uma toalha bordada. Símbolos da bênção divina, eles lembram o dobro da parte do maná que caía no deserto na sexta-feira. Ao lado, encontra-se o cálice necessário para a santificação do vinho. Tudo está pronto para a celebração do Kiddoush.

Eis aqui Iosseph de pé que eleva a mão direita à taça plena de vinho e pronuncia a bênção: “Tu és bendito, Senhor nosso Deus, rei do universo, Tu que criaste o fruto da videira”; ele junta em seguida esta outra bênção para santificar o dia do Shabat: “Tu és bendito, Senhor Deus do universo, que nos santificaste através dos mandamentos; Tu nos tem dado em herança o Shabat da tua santidade por amor e por bem-aventurança, memorial da obra da criação. Este dia é a origem de tuas santas convocações, memorial da saída do Egito. Tu nos escolheste entre todos os povos, Tu nos santificaste, Tu nos deste em herança o Shabat de tua santidade por amor e bem-aventurança. Tu és bendito Senhor que santifica o Shabat.”

Esta taça que cintila sobre as luzes do Shabat, o pequeno Ieshua a contempla ao mesmo tempo em que bebe de todo o coração as palavras de José, pressentindo misteriosamente, sem dúvida, que uma taça semelhante um dia se elevaria na sua mão por uma Aliança Nova em seu sangue derramado por todos.

Pressentiria também Iosseph que esse memorial da saída do Egito e da redenção se realizaria perfeitamente na oferta única e total de seu filho adotivo, do qual uma só gota de sangue seria suficiente para resgatar o universo de todos os seus crimes?

A exemplo do patriarca Abraão, quando imobilizou Isaac para sacrificá-lo, Iosseph não teria tremido no seu coração de pai à hora das santificações, pressentindo a inevitável imolação de seu pequeno filho admirável e fascinante posto ao mundo pelo sopro de santidade no seio de Myriam para libertar os cativos da morte?

Iosseph deve, certamente, ter pressentido e percebido qual destino trágico e divino esperava esse pequeno cordeirinho puro, do qual ele era pastor provisório. Não é do mesmo mistério que Iosseph e Myriam foram chamados a participar? Iosseph, o tsadiq intuitivo, o homem inspirado e combatente recebeu, com certeza, a revelação do mistério de sofrimento e de glória que deveria acontecer sobre a cruz por Jesus.

Continuando a liturgia do Shabat, Iosseph eleva agora o pão pronunciando a bênção seguinte: “Tu és bendito, Senhor nosso Deus, Rei do universo, Tu que tiras o pão da terra”. Parte em seguida o pão e distribui um pequeno pedaço a cada um, gesto sacerdotal daquele que é pai adotivo do único grande sacerdote.

Iosseph, patriarca messiânico, encontra-se no ponto de encontro entre as duas Alianças, entre o céu e a terra. Esse pão que segura na mão, diante do menino, não é ainda celeste, mas já é mais que terrestre pela ação abrangente do próprio Jesus.

Ele benzeu o pão do Shabat pela primeira Aliança do maná; pão dos anjos que se tornará, na segunda e eterna Aliança, o corpo eucarístico de seu filho entregue por todos para remissão dos pecados.

No decorrer dessa noitada de entrada no Shabat, a santa família vai se regozijar, cantar hinos e salmos, Iosseph e Ieshua trocam palavras da Torah, palavras que inflamam o coração como aquelas que abrasaram a alma dos peregrinos de Emaús. Talvez Ieshua, lembrando-se dessa unção e amor reinante no Shabat em torno da mesa da Sagrada Família, dirá: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles” (Mt 18,20).

Podemos imaginar Iosseph em certos dias do Shabat, levando o pequeno Ieshua em seus braços, seguindo a Arca, percorrido por uma mesma emoção, invadido pela mesma graça santificante, a mesma intensidade da presença divina, como se houvesse uma continuidade perfeita e misteriosa entre o menino e o rolo da Torah. É que Cristo é a Torah viva.

A saída do Egito e a revelação, que são a origem do judaísmo, são embasadas inteiramente sobre a tradição, e esta repousa sobre a transmissão fiel dos pais aos filhos. Sem dúvida alguma, Iosseph subscreve na carne de Ieshua essa palavra absoluta do Pai das misericórdias e essa inscrição é feita pelo rito, pela fidelidade à observância alegre do Shabat, entre outros ritos fundamentais.

Formação: Março/2010

19.03O objetivo deste livro é tornar a figura de José mais próxima da humanidade, a fim de que, como a Igreja deseja, ele seja um referencial para o homem de hoje. No decorrer da leitura, você poderá orar, contemplar e crescer na amizade com o pai adotivo do Redentor, portanto, “Ide a José”.

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