Formação

São Paulo, testemunha da Ressurreição de Cristo

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Daniel Ramos
Missionário da Comunidade Católica Shalom

 

“São Paulo foi convertido pela visão de CristoRessuscitado.” Quando meditamos sobre aconversão de São Paulo, podemos nos perguntar: por que ele havia necessitade deconversão se era um homem tão fiel à lei de Deus, tão ardente defensor dos costumesjudaicos? Ora, converter-se, como sabemos, é mudar de direção: Paulo percorriaseu próprio caminho ao perseguir a Igreja, e acreditava ser essa a vontade deDeus, mas o próprio Jesus Ressuscitado veio ao seu encontro e derrubou-o porterra. Quando lemos e rezamos com a passagem de Atos 9, onde São Lucas nosnarra com uma riqueza de detalhes impressionante a conversão de Saulo de Tarso,o que contemplamos não é apenas um homem que cai por terra por causa de umavisão celestial. O que vemos é o ser inteiro de Saulo ser despedaçado, jogadopor terra. Todas as suas certezas, convicções mais profundas, esperanças,seguranças, tudo isso foi jogado no chão em um momento pelo encontro com CristoRessuscitado. Saulo – o agora apóstolo Paulo! – morre e ressuscita com Cristo.

Segundo o Santo Padre Bento XVI, “o Cristo Ressuscitadoaparece como uma Luz esplêndida e fala a Saulo, transformando seu pensamento etoda sua vida. O esplendor do Ressuscitado o torna cego: torna-se visívelexteriormente a sua realidade interior, a sua cegueira com relação à verdade, aLuz que é Cristo. Depois o seu “sim” definitivo ao Cristo pelo Batismo abre denovo seus olhos, e o faz realmente ver.” Paulo passou três dias como que “morto”, e no terceiro dia eleressuscita com Cristo pelo Batismo e a experiência do Espírito Santo. Oapóstolo torna-se testemunha da Ressurreição de Cristo porque viveu esse eventopelo interior, foi associado no seu próprio ser ao Mistério Pascal. São Paulonão prega apenas algo que escutou nem muito menos uma doutrina coerente: eleprega o mistério de Cristo no qual todo o seu ser foi mergulhado, batizado,recriado! Depois de ver Jesus Ressuscitado, e de viver no seu íntimo o mistériopascal, Paulo “considerará como ‘lixo’ tudo o que antes se constituía para eleo ideal mais elevado, quase a razão de ser de sua existência.” Ele passa a conhecer Jesus. Sabemos queconhecer, segundo as Escrituras, é fazer a experiência, viver o mistério. Aaparição de Jesus Ressuscitado é ofundamento de seu apostolado e de sua vida nova.

“O mistério pascal consiste no fato de que o Crucificadoressuscitou no terceiro dia conforme as Escrituras , segundo o que atesta aTradição proto-cristã. É aí que se encontra o cerne da Cristologia Paulina:tudo gira em torno desse centro de gravidade. Todo o ensinamento do apóstoloPaulo parte e desemboca sempre no mistério Daquele que o Pai ressuscitou dentreos mortos. A Ressurreição é o acontecimento fundamental sobre o qual Paulo fazseu anúncio (Kerigma).” Sim, São Paulonão constrói sua vida sobre a areia de suas certezas e convicções: toda a suavida, missão e pregação jorram do Ressuscitado. Aqui temos um exemplo vivo dochamado a antes SER para que o “fazer” tenha peso de eternidade: todas as açõesde Paulo jorram do seu ser recriado em Cristo, refeito na experiência daRessurreição, e isso o fará gritar que “nem a morte nem a vida, nem os anjosnem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem a altura,nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do Amor deDeus manifestado em Jesus Cristo, Nosso Senhor.”

Nós também ressuscitaremos!

No capítulo 15 da Primeira Carta aos Coríntios, São Paulodesenvolverá toda uma doutrina sobre a Ressurreição dos mortos. Nós tambémressuscitaremos! Cristo ressuscitou e nos associou a Ele, a fim de que nósvivamos, a cada dia, esse processo de morte e de vida, de cruz e deressurreição. A cada dia o homem velho, escravo do pecado e do egoísmo, morremais, e o homem novo, recriado à imagem de Cristo, se fortalece. Por isso, “Se Cristo não ressuscitou, vazia éa nossa pregação, vazia é também a nossa fé.(…) Mas não! Cristo ressuscitoudos mortos, primícias dos que adormeceram.” Nesse testemunho que toda a vida e as palavras de Paulo fazem, tudo secontrói sobre esse fato, esse evento histórico, como nos lembra o Papa BentoXVI. “Nós vemos nos Atos dos Apóstolos e nas cartas que o ponto essencial davida de Paulo é ser testemunha da Ressurreição.”

Lembra-nos ainda o nosso Santo Padre: “Tudo isso comportaimportantes consequências para a nossa vida de fé: nós somos chamados aparticiparmos até o mais profundo do nosso ser a todo o evento da Morte eRessurreição de Cristo.” Por isso, nãoexiste vida cristã séria e coerente sem sofrimento, renúncia, purificação, perseguição,dor, lágrimas, que abrem as portas para uma fecunda e poderosa ressurreição. “Ateologia da Cruz não é uma teoria, ela é a realidade da vida cristã. Viver a féem Cristo, viver a verdade e o amor implicam renúncias cotidianas, implicamsofrimentos. O cristianismo não é uma via de facilidades; ele é uma ascensãoexigente, no entanto iluminada por Cristo e fundada na grande esperança quenasce Dele.” São Francisco de Assisdizia que aquele que não conhece o Crucificado não sabe nada do Ressuscitado. Opróprio Jesus disse a Ananias, que foi enviado para batizar Paulo, que“mostraria a Paulo o quanto seria preciso sofrer em favor do Seu Nome.”

São Paulo testemunhou com todo seu ser a ressurreição deCristo também porque morreu para si mesmo. Existe o testemunho que é fruto daexperiência de ser salvo, justificado e recriado por Jesus Ressuscitado, masexiste o testemunho que coroa toda uma vida doada: o martírio. Quem morre parasi, vive para Deus. Quem morre para si, fecunda almas para Jesus. Paulo sealegrava nos sofrimentos que tinha sido achado digno de sofrer pelo Seu Senhor.O Padre Raniero Cantalamessa diz que apenas se dá a vida por aquilo que se crêno mais profundo das entranhas. A experiência que Paulo tinha de Jesus, o seurelacionamento com Jesus era entranhado, era toda a sua vida. Por isso, a únicamedida de seu testemunho era o dom total da própria vida. Doía para Paulo aindanão ter dado tudo, isto é, a vida. Daí o grito que ressoa até aos nossos dias:“Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”

Amo imaginar como deveria ser carregado de emoção o gritoque São Paulo fazia quando anunciava o Evangelho: “Cristo Ressuscitou! Eu sei,eu o vi, Ele me tocou, me transformou, curou minha cegueira, hoje já não soumais eu quem vivo, mas é Ele quem vive em mim! Ele me amou e se entregou pormim!” Que esse grito, tornado testemunhoperene pelo derramamento de seu sangue, chegue até os nossos corações e nosfaça gritar também, proclamar com a nossa vida e nossa morte, que Cristoressuscitou, pois afinal de contas, nós somos hoje a voz do Cristo queRessuscitado está. Que todo homem ouça esse brado! Amém.


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