Formação

Sustentáculo da fé dos fiéis

comshalom

54. Entretanto, a Igreja não se sente dispensada de prestaruma atenção diligente, de igual modo, àqueles que receberam a fé e que, muitasvezes passadas algumas gerações, voltam a ter contato com o Evangelho. Elaprocura desta maneira aprofundar, consolidar, alimentar e tornar cada dia maisamadurecida a fé daqueles que se dizem já fiéis ou crentes, afim de que o sejamcada vez mais.

Esta fé, hoje confrontada com o secularismo, ou antes,podemos mesmo dizer, com o ateísmo militante, é quase sempre uma fé exposta aprovações e ameaçada, e mais ainda, uma fé assediada e combatida. Ela corre orisco de morrer de asfixia ou de inanição, se ela não for alimentada e amparadatodos os dias. Evangelizar há de ser, muito freqüentemente, comunicar à fé dosfiéis, em particular, mediante uma catequese cheia de substância evangélica eservida por uma linguagem adaptada ao tempo e às pessoas, esse alimento e esseamparo de que ela precisa.

A Igreja católica mantém igualmente uma viva solicitude emrelação aos cristãos que não estão em plena comunhão com ela: se bem que seache já empenhada em preparar juntamente com eles a unidade querida por Cristo,e precisamente em vista de realizar a unidade na verdade, ela tem a consciênciade que faltaria gravemente ao seu dever, se ela não desse testemunho, tambémjunto deles, da plenitude da revelação de que ela conserva o depósito.

Não crentes

55. Significativa é também aquela preocupação, que e tevepresente no Sínodo e diz respeito a duas esferas muito diferentes uma da outrae, no entanto, muito aproximadas por aquele desafio que, cada uma a seu modolança à evangelização.

A primeira dessas esferas é aquilo que se pode chamar, ocrescer da incredulidade no mundo moderno. O mesmo Sínodo aplicou-se adescrever este mundo moderno: sob tal nome genérico, quantas correntes depensamento, quantos valores e contravalores, quantas aspirações latentes,quantos gérmens de destruição, quantas convicções antigas que desaparecem equantas outras convicções novas que se impõem! Sob o ponto de vista espiritual,este mundo moderno parece que continua a debater-se sempre com aquilo que umautor dos nossoa dias chamava "o drama do humanismo ateu".(77)

 

Por um lado, é-se obrigado a verificar no âmago deste mesmomundo contemporâneo o fenômeno que se torna quase a sua nota maissurpreendente: o secularismo. Nós não falamos da secularização, que é oesforço, em si mesmo justo e legítimo, e não absolutamente incompatível com afé ou com a religião, para descobrir na criação, em cada coisa ou em cadaacontecimento do universo, as leis que os regem com uma certa autonomia, com aconvicção interior de que o Criador aí pôs tais leis. Quanto a este ponto, orecente Concílio reafirmou a autonomia legítima da cultura e particularmentedas ciências.(78) Aqui, temos em vista um verdadeiro secularismo: uma concepçãodo mundo, segundo a qual esse mundo se explicaria por si mesmo, sem sernecessário recorrer a Deus; de tal sorte que Deus se tornou supérfluo e embaraçante.Um secularismo deste gênero, para reconhecer o poder do homem, acaba porprivar-se de Deus e mesmo por renegá-lo.

Daqui parecem derivar novas formas de ateísmo: um ateísmoantropocêntrico, que já não é abstrato e metafísico, mas sim pragmático, programáticoe militante. Em conexão com este secularismo ateu, propõem-se-nos todos osdias, sob as formas mais diversas, uma civilização de consumo, o hedonismoerigido em valor supremo, uma ambição de poder e de predomínio, discriminaçõesde todo o gênero, enfim, uma série de coisas que são outras tantas tendênciasinumanas desse "humanismo".

Por outro lado e paradoxalmente, neste mesmo mundo modernonão se pode negar a existência de verdadeiras pedras de junção cristãs, valorescristãos pelo menos sob a forma de um vazio ou de uma nostalgia. Não seriaexagerar o falar-se de um potente e trágico apelo para ser evangelizado.

Não praticantes

56. Uma segunda esfera é a dos não praticantes: hoje em diaum bom número de batizados que, em larga medida, nunca renegaram formalmente opróprio batismo mas que se acham totalmente à margem do mesmo e que o nãovivem. O fenômeno dos não praticantes é muito antigo na história docristianismo e anda ligado a uma fraqueza natural, a uma incoerência profundaque nós, por nosso mal, trazemos no fundo de nós próprios. No entanto, nostempos atuais, ele apresenta caraterísticas novas e explica-se freqüentementepelos desenraizamentos típicos da nossa época. Ele nasce também do fato de oscristãos hoje viverem lado a lado com os não-crentes e de receberemconstantemente o contra-choque da incredulidade. Além disso, os não praticantescontemporâneos, mais do que os de outras épocas, procuram explicar e justificara própria posição em nome de uma religião interior, da autonomia ou daautenticidade pessoal.

Ateus e incrédulos por um lado, e não praticantes pelooutro, opõem, assim, resistências à evangelização que não são para menosprezar.Os primeiros, a resistência de uma certa recusa, a incapacidade para aceitar anova ordem das coisas, o sentido novo do mundo, da vida, da história, que não épossível se não se parte do Absoluto de Deus. Os segundos, a resistência dainércia, a atitude um tanto hostil da parte de alguns que se sentem de casa,que afirmam já saber tudo, já haver experimentado tudo e já não acreditarem emnada.

 

Secularismo ateu e ausência de prática religiosaencontram-se entre os adultos e entre os jovens, nas elites e nas massas, emtodos os setores culturais, no seio das antigas e das jovens Igrejas. A ação evangelizadorada Igreja, que não pode ignorar estes dois mundos nem ficar parada diantedeles, tem de procurar constantemente os meios e a linguagem adequados paralhes propor a revelação de Deus e a fé em Jesus Cristo.

No coração das massas

57. Como Cristo durante o tempo da sua pregação, como osdoze na manhã do Pentecostes, também a Igreja vê diante dela uma imensamultidão humana que precisa do Evangelho e a ele tem direito, uma vez que Deus"quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade".(79)

Consciente do seu dever de pregar a todos a salvação esabendo que a mensagem evangélica não é reservada a um pequeno grupo deiniciados, de privilegiados ou de eleitos, mas destinada a todos, a Igrejaassume como sua própria a angústia de Cristo diante das multidões errantes eprostradas "como ovelhas sem pastor" e repete muitas vezes a suamesma palavra: "Tenho compaixão desta multidáo".(90) Mas a Igreja,entretanto, também está consciente de que, para a eficácia da pregaçãoevangélica no coração das massas, ela deve dirigir a sua mensagem a comunidadesde fiéis cuja ação, por sua vez, pode e deve ir atingir outros.

Comunidades eclesiaisde base

58. O Sínodo ocupou-se largamente destas "pequenascomunidades" ou "comunidades de base", dado que, na Igreja dehoje, elas são freqüentemente mencionadas. O que vêm a ser tais"comunidades" e por que é que elas hão de ser destinatárias especiaisda evangelização e ao mesmo tempo evangelizadoras?

Florescentes mais ou menos por toda a parte na Igreja, aater-nos ao que sobre isso se disse em vários testemunhos ouvidos durante assessões do último Sínodo, essas comunidades diferem bastante entre si, mesmodentro duma só região, e, mais ainda, de umas regiões para outras.

Assim, nalgumas regiões, elas brotam e desenvolvem-se, salvoalgumas exceções, no interior da Igreja, e são solidárias com a vida da mesmaIgreja e alimentadas pela sua doutrina e conservam-se unidas aos seus pastores.Nesses casos assim, elas nascem da necessidade de viver mais intensamente aindaa vida da Igreja; ou então do desejo e da busca de uma dimensão mais humana doque aquela que as comunidades eclesiais mais amplas dificilmente poderãorevestir, sobretudo nas grandes metrópoles urbanas contemporâneas, onde é maisfavorecida a vida de massa e o anonimato ao mesmo tempo. Elas poderão muitosimplesmente prolongar, a seu modo, no plano espiritual e religioso o culto, oaprofundamento da fé, a caridade fraterna, a oração, comunhão com os Pastores ea pequena comunidade sociológica, a aldeia, ou outras similares. Ou então elasintentarão congregar para ouvir e meditar a Palavra, para os sacramentos e parao vínculo da ágape, alguns grupos que a idade, a cultura, o estado civil ou asituação social tornam mais ou menos homogêneos, como por exemplo casais,jovens, profissionais e outros; ou ainda, pessoas que a vida faz encontrarem-sejá reunidas nas lutas pela justiça, pela ajuda aos irmãos pobres, pela promoçãohumana etc. Ou, finalmente, elas reúnem os cristãos naqueles lugares em que aescassez de sacerdotes não favorece a vida ordinária de uma comunidadeparoquial. Tudo isto, porém, é suposto no interior de comunidades constituídasda Igreja, sobretudo das Igrejas particulares e das paróquias.

Noutras regiões, ao contrário, agrupam-se comunidades debase com um espírito de crítica acerba em relaçáo à Igreja, que elasestigmatizam muito facilmente como "institucional" e à qual elas secontrapõem como comunidades carismáticas, libertas de estruturas e inspiradassomente no Evangelho. Estas têm, portanto, como sua característica uma evidenteatitude de censura e de rejeição em relação às expressões da Igreja, quais sãoa sua hierarquia e os seus sinais, Elas contestam radicalmente esta Igreja.Nesta linha, a sua inspiração principal bem depressa se torna ideológica e éraro que elas não sejam muito em breve a presa de uma opção política, de umacorrente e, depois, de um sistema, ou talvez mesmo de um partido, com todos osriscos que isso acarreta de se tornarem instrumentos dos mesmos.

A diferença é já notável: as comunidades que pelo seuespírito de contestação se separam da Igreja, da qual prejudicam a unidade,podem muito bem denominar-se "comunidades de base", mas em tais casoshá nesta terminologia uma designação puramente sociológica. Elas não poderiam,sem se dar um abuso de linguagem, intitular-se comunidades eclesiais de base,mesmo que elas, sendo hostis à hierarquia, porventura tivessem a pretensão deperseverar na unidade da Igreja. Essa designação pertence às outras, ou seja, àquelasque se reúnem em Igreja, para se unir à Igreja e para fazer aumentar a Igreja.

Estas últimas comunidades, sim, serão um lugar deevangelização, para benefício das comunidades mais amplas, especialmente dasIgrejas particulares, e serão uma esperança para a Igreja universal, como nóstivemos ocasião de dizer ao terminar o Sínodo, à medida que: que elas procuremo seu alimento na Palavra de Deus e não se deixem enredar pela polarizaçãopolítica ou pelas ideologias que estejam na moda, prestes para explorar o seuimenso potencial humano evitem a tentação sempre ameaçadora da contestaçãosistemática e do espírito hipercrítico, sob pretexto de autenticidade e deespírito de colaboração; permaneçam firmemente ligadas à Igreja local em que seinserem, e à Igreja universal, evitando assim o perigo, por demais real, de seisolarem em si mesmas, e depois de se crerem a única autêntica Igreja de Cristoe, por conseqüência, perigo de anatematizarem as outras comunidades eclesiais;mantenham uma comunhão sincera com os Pastores que o Senhor dá à sua Igreja, etambém com o Magistério que o Espírito de Cristo lhes confiou; jamais seconsiderem como o destinatário único ou como o único agente da evangelização,ou por outra, como o único depositário do Evangelho; mas, conscientes de que aIgreja é muito mais vasta e diversificada, aceitem que esta Igreja se encarnade outras maneiras, que não só através delas; elas progridam cada dia naconsciência do dever missionário e em zelo, aplicação e irradiação nesteaspecto; elas se demonstrem em tudo universalistas e nunca sectárias.

Com estas condições assim, exigentes sem dúvida alguma, masexaltantes, as comunidades eclesiais de base corresponderão à sua vocação maisfundamental; de ouvintes do Evangelho que lhes é anunciado e de destinatáriasprivilegiadas da evangelização, próprias se tornarão sem tardança anunciadorasdo Evangelho.

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