Formação

Tirar o pecado

comshalom

Hoje se fala muito de ética como regra de convivência para a boa condução da ordem social ou de um grupo de pessoas. Nessa perspectiva, na ordem pessoal, basta não se lesar o semelhante, não se contrariando essa convenção. Assim, não tem importância qualquer ação subjetiva de interesse privado. É verdade: cada um faz a escolha de comportamento e endereçamento de vida dentro da própria convicção. Mas aí não se vê mal ou pecado em circunstância praticamente nenhuma, quando se busca a própria satisfação. É comum dizer-se: “Tenho o direito de ser feliz. O que é que tem eu fazer isso ou aquilo? Ninguém tem nada a ver com isso”! Há muitos programas televisivos e até entrevistas ou escritos estimulando tais idéias.

Tudo o que Deus criou é bom: os prazeres, as coisas materiais, os talentos e possibilidades das pessoas. Todos temos o direito de sermos felizes. Nascemos para a felicidade. Nem sempre, porém, o mais cômodo no momento e os prazeres buscados conforme os impulsos sensoriais levam-nos a conquistar realmente a felicidade duradoura. Tudo nos é permitido. Nem sempre tudo nos convém, em vista de um ideal maior. A ética, baseada não só na convenção humana, mas nos valores inerentes ao ser humano e os revelados pelo Criador, leva-nos a buscar o ideal maior de vida. Jesus dá sobejamente exemplo e ensinamento sobre isso. O caminho da conquista da vida plena requer valorização da dignidade da vida, da pessoa humana, da família, do sexo e de tudo o que Deus nos coloca para sabermos usar devidamente. Caso contrário, somos levados a viver como animais irracionais.

O mal existente se dá na ordem subjetiva de não se viver e conviver no respeito ao sermos imagens e semelhanças de Deus. Temos valores individuais, coletivos e relativos à natureza. A harmonização de tudo requer percepção de seu encaminhamento para se avaliar e respeitar sua finalidade. Na ordem pessoal, temos o caráter. Se bem formado, ele nos levará à prática de virtudes morais, capazes de nos fazer superar o mal e viver as virtudes como a bondade, a justiça, a misericórdia, a honestidade, a castidade, a solidariedade, a compaixão e a oblatividade. Na ordem social, somos capazes, com o exercício das virtudes pessoais, de erradicar o pecado que causa a morte das pessoas, de seus ideais, das injustiças sociais, do mau uso da autoridade, do desrespeito ao meio ambiente, de tudo o que acumula riquezas pessoais e grupais, em detrimento dos excluídos socialmente…

Deus nos quer felizes, mas com felicidade duradoura. Isso, porém, custa. É conquista. Não é baseado no puramente prazeroso imediata e sensorialmente. O prazer fecundo é buscado no ideal de vida maior, conquistado na árdua luta para realizarmos o bem moral mais elevado. A vida de sentido não está na restrição e proibição do que é gostoso. Está sim na busca do grande tesouro que realmente nos faz ricos, conforme a comparação feita por Jesus, embora tenhamos que renunciar até o que no momento é atraente mas não nos leva à conquista do bem maior e duradouro.

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG) e presidente da Comissão Episcopal para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso da CNBB

Fonte: Site CNBB


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado.