Formação

Todos Pecaram

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O Mistério da Impiedade

     O tema desta meditação é o que ocupa a primeira seção da epístola aos Romanos (Rm 1,18-3,20) e que o Apóstolo resume, no fim, com a famosa afirmação: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus!” (Rm 3,23). A S. Paulo não interessa tanto expor diretamente o que é o pecado quanto, de preferência, que o pecado existe, afirmar que “todos estão debaixo do domínio do pecado” (Rm 3,9), sem excluir ninguém. De fato, porém, acaba declarando também o primeiro — ou seja, o que é o pecado — e é precisamente o ensinamento que queremos colher agora.

“Quem sabe o que é o pecado?”, dizia na Vulgata o versículo de um salmo que fez meditar gerações inteiras de cristãos: “delicta quis intelligit?” (Sl 19,13). Uma coisa podemos ao menos responder com segurança: só a revelação divina sabe realmente o que é o pecado, não o homem, nem qualquer ética ou filosofias humanas. Homem algum pode dizer, por si mesmo, o que seja o pecado, pelo simples fato de que ele mesmo está em pecado. Tudo o que ele diz do pecado, no fundo, não pode passar de paliativo, de atenuação do próprio pecado. “Ter uma idéia fraca do pecado — disse alguém — é condição da nossa realidade de pecadores” (S. Kierkegaard).
No coração do ímpio — diz a Escritura — fala o pecado… Ele se engana a si mesmo ao procurar a sua culpa e detestá-la (Sl 36,2-3). O pecado também “fala”, como faz Deus na Bíblia; também ele profere os oráculos e a sua cátedra é o coração do homem. No coração do homem fala o pecado; por isso é absurdo esperar que o homem fale contra o pecado. Eu mesmo que estou aqui a discorrer sobre o pecado e por isso deveria dizer-vos: não vos fieis demais em mim e do que vos digo! Ao menos, ficai sabendo o seguinte: que o pecado é algo mais sério do que eu conseguirei fazer-vos compreender. O homem, por si só, poderá no máximo chegar a compreender o pecado contra si mesmo, contra o homem, não o pecado contra Deus; a violação dos direitos humanos, não a violação dos direitos divinos. E de fato, considerando bem, vemos que é isto que acontece à nossa volta, na cultura que nos cerca.

Por conseguinte, só a revelação divina sabe o que é o pecado. Jesus confere mais precisão a esta noção, ao dizer que só o Espírito Santo está em condições de “convencer o mundo de pecado” (cf. Jo 16,8). Só ele pode exercer o papel de “advogado” de Deus e de Cristo, no processo contra o mundo, como lembrou o Sumo Pontífice João Paulo II, na sua encíclica sobre o Espírito Santo, intitulada Dominum et vivificatem. Por isso, deve caber a Deus falar-nos do pecado.

Se o mundo hodierno perdeu o sentido do pecado e não aceita mais o chamamento à ordem da Igreja, talvez seja porque pensa que, dizendo: “O Espírito Santo convence o homem de pecado”, a Igreja queira de imediato identificar-se com o sujeito da frase e não com o seu objeto, pondo-se a si mesma da parte do acusador, e os demais na parte do acusado, quando, na realidade, não é assim. Se de fato, por um lado — em virtude do mandato que recebeu —, ela está com o “Espírito” que convence de pecado, por outro — como realidade humana que é —, sabe que também ela faz parte do “mundo” que é convencido de pecado.

Eu dizia que ao próprio Deus compete falar-nos do pecado. De fato, quando quem fala contra o pecado é Deus, e não o homem, não é fácil permanecer impassível; a sua voz é um trovão que “derruba os cedros do Líbano”. A nossa meditação terá alcançado o seu objetivo se conseguir unicamente arranhar a nossa inabalável segurança fundamental e fazer-nos conceber um pavor salutar diante do imenso perigo representado para nós, não digo pelo pecado, mas pela simples possibilidade de pecar. Esse pavor se tornaria então o nosso melhor aliado na luta contra o pecado: “Tremei e não pecai”, diz a Escritura (Sl 4,5), isto é, tremei e não pecareis, tremei para não pecar! “Vós ainda não resististes até o sangue na vossa luta contra o pecado!” (Hb 12,4).


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