Formação

Uma era do Espírito Santo?

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«De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aquelesque estão em Jesus Cristo. A lei do Espírito de Vida me libertou, emJesus Cristo, da lei do pecado e da morte… Se alguém não possui oEspírito de Cristo, este não é dele. Ora, se Cristo está em vós, ocorpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o Espírito vive pelajustificação. Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortoshabita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, tambémdará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita emvós.»

São 4 versículos do capítulo 8 da Carta aos Romanos sobre o EspíritoSanto e neles ressoa seis vezes o nome de Cristo. A mesma frequência semantém no resto do capítulo, se consideramos também as vezes que háreferências a Ele com o pronome ou com o termo Filho. Este fato é deimportância fundamental, pois nos diz que para Paulo a obra do EspíritoSanto não substitui a de Cristo, mas que a prossegue, cumpre eatualiza.

O fato de que o recém-eleito presidente dos Estados Unidos, durante suacampanha eleitoral, tenha aludido três vezes a Joaquim de Fiore, voltoua suscitar o interesse pela doutrina deste monge do medievo. Poucos dosque falam dele, especialmente na internet, sabem ou se preocupam porsaber o que disse exatamente este autor. Toda ideia de renovaçãoeclesial ou mundial se põe sob seu nome com desenvoltura, até a ideiade um novo Pentecostes para a Igreja, invocado por João XXIII.

Uma coisa é certa. Seja ou não atribuível a Joaquim de Fiore, a ideiade uma terceira era do Espírito que sucederia a do Pai no AntigoTestamento e de Cristo no Novo é falsa e herética, porque ataca opróprio coração do dogma trinitário. Bem distinta é a afirmação de SãoGregório Nazianzeno, que distingue três fases na revelação da Trindade:no Antigo Testamento, revelou-se plenamente o Pai e se prometeu eanunciou o Filho; no Novo Testamento, revelou-se plenamente o Filho efoi anunciado e prometido o Espírito Santo; no tempo da Igreja,conhece-se finalmente por completo o Espírito Santo e se goza de suapresença.

Só por ter citado em um livro meu este texto de São Gregório, acabeitambém na lista dos seguidores de Joaquim de Fiore, mas São Gregóriofala da ordem da manifestação do Espírito, não de seu ser ou de seuatuar, e em tal sentido sua afirmação expressa uma verdadeincontestável, acolhida pacificamente por toda a tradição.

A tese chamada joaquimita é excluída por Paulo e todo o NovoTestamento. Para estes, o Espírito Santo não é senão o Espírito deCristo: objetivamente porque é o fruto de sua Páscoa; subjetivamenteporque é Ele quem o infunde na Igreja, como dirá Paulo à multidão noprópria dia de Pentecostes: «Exaltado pela direita de Deus, havendorecebido do Pai o Espírito Santo prometido, derramou-o como vós vedes eouvis» (Atos 2, 33). O tempo do Espírito é, por isso, co-extensivo aotempo de Cristo.

O Espírito Santo é o Espírito que procede primariamente do Pai, quedescendeu e «pousou» em plenitude em Jesus, «historificando-se» eacostumando-se n’Ele – diz Santo Irineu – a viver entre os homens, eque na Páscoa-Pentecostes a partir d’Ele é infundido na humanidade.Outra prova de tudo isso é precisamente o grito «Abba» que o Espíritorepete no crente (Gál 4, 6) ou ensina a repetir ao crente (Rm 8, 15).Como pode o Espírito gritar Abba ao Pai? Não é gerado do Pai, não é seuFilho… Pode fazê-lo – observa Santo Agostinho – porque é o Espíritodo Filho e prolonga o grito de Jesus.


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