Formação

Uma obra sempre nova

comshalom

Um dos Escritos mais importantes da vocação Shalom, diz:

 O Senhor nosso Deus, que merece todo amor do mundo, realizauma obra no meio de nós: uma obra nova, um caminho novo. Este caminho é real ecada dia que passa eu o sinto concretizar-se mais fortemente em meu coração. Éalgo novo, é algo maravilhoso. Sinto como Deus querendo presentear ao mundomais uma manifestação de Seu poder criador. Deus quer ardorosamente abrir umanova vereda pelo deserto e assim formar um povo, um povo eleito, formado porsuas mãos para atravessá-la, percorrê-la, assumi-la em seu viver. Nós somoseste povo. Deus nos chamou a esta magnífica vocação É um caminho de e para afelicidade.

 Cada vezque leio este texto, fico encantada ao ver a mão de Deus que, há vinte e trêsanos atrás, nos presenteava com tamanha profecia pelas mãos de um “menino” de23 anos! Ao mesmo tempo, espanto-me de ver, neste e nos outros escritos tamanhaacuidade teológica e adequação ao Magistério da Igreja e ao que nos ensina aespiritualidade da vida consagrada. É bem verdade o que diz São Paulo sobretesouro em vasos de argila, imagem retomada por um dos nossos escritos e porBento XVI, quando, em sua primeira aparição no balcão da Basílica de São Pedronos falava que Deus é mestre em trabalhar bem com instrumentos inadequados.

 Mas vouguardar pelo momento minha estupefação cada vez que leio estes textosverdadeiramente inspirados, tesouros para nós, para falar-lhe um pouco desta ObraNova que é a Comunidade Shalom, agora com 23 anos.

 Como vocêsabe e a história da vida consagrada demonstra, quando Deus faz surgir em suaIgreja um carisma autêntico, ele tem algumas características muito claras:

é uma profecia para a Igreja e para a humanidade

é uma resposta de Deus para a Igreja naquele tempo histórico

atrai pessoas que se identificam com ele através da vivênciados que a ele aderiram

Há ainda outras características, que você pode conferir noDicionário da Vida Consagrada, ed. Paulinas, ou acessando o site desta revistae pedindo que lhe enviem o material. Para a finalidade deste artigo, estes trêssão suficientes.

É que quero enfocar principalmente o caráter profético doCarisma Shalom. O escrito diz isso claramente: O Senhor nosso Deus, que merecetodo amor do mundo, realiza uma obra no meio de nós: uma obra nova, um caminhonovo. Sem atribuir a si uma obra que é de Deus e sem conhecer, naquele tempo,nada acerca da teologia da vida consagrada, o Escrito afirma que Deus querfazer de nós uma profecia, isto é, funda um carisma, uma obra nova, um caminhonovo, um carisma novo, uma nova família na Igreja. Mas não é o fato de o textofalar sobre uma obra nova que faz com que ela aconteça. É a mão de Deus que,nestes 23 anos se faz presente em todos os passos de nossa história, de formasoberana.

Graças a Deus, notempo em que Obra Nova foi escrita, nem tínhamos idéia do que significava umcarisma novo e, portanto, profético – até hoje dá um “frio na barriga” – nempretendíamos fundar alguma coisa. O Moysés costuma dizer que, quanto ao Shalom,ele “se declara inocente”. O fato é que Deus se utilizava, como diz o SantoPadre, de “instrumentos imperfeitos”, no nosso caso, imperfeitíssimos, paraalgo novo na Igreja. E, como Ele merece todo amor do mundo, ainda que inocentemente,fomos dizendo o nosso pequeno “sim” de cada dia.

Mas, afinal, qual a grande “novidade” do CarismaShalom? Veja como é interessante o quenos diz o texto dos Escritos:

Este caminho é real e cada dia que passa eu sintoconcretizar-se mais fortemente em meu coração. É algo novo, é algo maravilhoso.Sinto como Deus querendo presentear ao mundo mais uma manifestação de Seu podercriador.

Primeiro fala de caminho, o que significa que é um processosem data para terminar (não se fala em meta, em alvo, em fim do caminho…).Acrescenta que este caminho é real, isto é, concreto, palpável, visível. Ao lerisso, começamos a esperar uma descrição detalhada do caminho, mas o que vemé… que o caminho real concretiza-se, por enquanto, embora fortemente, nocoração do fundador. Decepção para nós, que seguimos o caminho? De formanenhuma! Segurança, isso sim! A teologia da vida consagrada e a hermenêuticados fundadores ensinam que um carisma autêntico concretiza-se primeiramente nocoração e na história de vida do fundador. Sem saber, o nosso estavacertíssimo!

Para nos dar “água na boca”, especialmente a nós que fomosos primeiros, ele fala que o caminho é algo novo, maravilhoso, cuja descrição,pelo menos a esta altura, lhe traz alguma dificuldade e lhe faz usar aexpressão sinto como: Sinto como Deus querendo presentear ao mundo mais umamanifestação de Seu poder criador.

A dificuldade de descrição é evidente. Mas são tambémevidentes pelo menos quatro certezas:

a de que quem está agindo é Deus

a de que “o que Deus está fazendo/ dando” é um presente imerecido

a de que o presente é para o mundo inteiro

a de que é uma manifestação do Seu poder criador

É fácil perceber o quanto estas afirmações são importantes,especialmente para nós que fomos chamados à vocação Shalom. Traz-nos umatremenda segurança: não estamos seguindo a um homem ou a homens, estamosseguindo a Deus, em um seguimento pessoal de Jesus Cristo segundo um carismareconhecido pela Igreja.

Além disso, somos parte de um presente de Deus para o mundo- como acontece com todo carisma autêntico na Igreja – e este carisma é umamanifestação do amor (poder!) de Deus para o mundo hoje.

Pessoalmente, sou testemunha de que todos nós, os primeiros,estávamos na mais perfeita ignorância da grandeza de tudo isso quando estaspalavras foram escritas. Vivíamos os grandes desafios – e perseguições,naturalmente!- dos primeiros tempos, ancorados na fé, no amor a Deus e nacerteza de que Ele era fiel, embora não soubéssemos aonde íamos nem o que nosesperava.

Mas precisamos voltar à pergunta: “Afinal, qual a novidadedo Carisma Shalom para a Igreja hoje?” Para simplificar o que é imenso, amplo,misterioso, coloco o que percebemos até agora, não na teoria, mas na vida dodia a dia, ao olharmos para trás e contemplarmos os feitos de Deus em nós eentre nós.

A primeira profecia, ao meu ver, é a evangelização comousadia, com parresia, com novos meios e métodos, sem medir esforços eempenhando nisso toda a nossa vida, tanto na Comunidade de Vida como na deAliança. Existimos para evangelizar. Esta é nossa razão de ser. É a razão denossa oração, a razão de nossa vida comunitária, a razão de todos os nossosesforços. Desejamos sentirmo-nos incomodados cada vez que virmos ou soubermosde alguém que não conhece Jesus. Queremos os que estão fora das igrejas, os queestão afastados da Igreja.

Lembro-me de certa feita em que um sacerdote de um outropaís contava para o Moysés que, depois de muitos cálculos, havia concluído queapenas 2% dos católicos daquele país freqüentava a igreja e que, para estes 2%não precisava da ajuda da comunidade , ao que o Moysés prontamente retrucou:“Não se preocupe. Não queremos os 2% que estão dentro da igreja. Estamosinteressados nos 98% que estão fora!” Estes, e, dentre eles, principalmente osjovens, são a razão de nossa existência.

Uma outra profecia é o fato de os três estados de vida –matrimônio, celibato, sacerdócio – conviverem em complementaridade sem perderem– ou, antes, para aprofundarem e viverem melhor – sua identidade própria. Nestacomplementaridade que reflete a Trindade, não há privilégios. Somos todosirmãos entre irmãos, vivendo a mesma pobreza, obediência e castidade segundo cadaestado de vida. Vivemos a mesma vida comunitária, a mesma contemplação, unidadee evangelização. Somos uma só família, como dizem nossos Estatutos. Somos todosirmãos entre irmãos, em um estilo de vida no qual não há privilégios para esteou aquele estado de vida, a não ser fazer-se servos uns dos outros. Não háestado de vida superior. Somos todos almas esposas de Jesus. Esta, sem dúvida, éoutra profecia, em especial no início da década de 80, quando fomos fundados.

Há, ainda, algo muito belo: o conceito do que seja “amoresponsal”. Em uma visão ousada e profética, no escrito Amor Esponsal, 1984,lê-se que todos são chamados ao amor esponsal a Jesus Cristo. Os leigos,sacerdotes, religiosos, homens, mulheres, jovens, crianças, casados. É a Igrejacomo esposa de Cristo que se entrega a este amor de união com Ele, o Esposo, emuma visão pós-conciliar que não restringe a esponsalidade ao estado religioso.Unido aos outros aspectos proféticos, este sobressai-se em termo de novidade. Todos,em qualquer condição ou idade, em qualquer estado de vida, são chamados aacolher o inestimável dom do amor esponsal a Jesus Cristo!

Isso para não falar, evidentemente, que somos discípulos eministros da Paz que o homem de hoje necessita: Cristo, que é a nossa paz. Por isso a Comunidadede Vida passa a manhã em silêncio e oração. Pela mesma razão, a Comunidade deAliança tem uma hora de oração e estudo bíblico por dia: para aprender, comodiscípulo, diretamente do Coração de Jesus que é, segundo João Paulo II, “aobra prima do Espírito Santo”. Deste coração “aprendemos” que a Paz é Cristo eé fruto de uma experiência pessoal com o Ressuscitado que passou pela cruz. Sema oração, nosso apostolado não é aos moldes de nossa vocação, por mais boavontade que tenhamos, por mais bem feito que ele aparente ser.

Colhendo a paz do Coração de Jesus, somos, como em Jo 20,19ss,imediatamente enviados aos outros, aos de fora, como ministros da Paz. A nóscabe a missão de levar-lhes o Cristo Vivo, aquele a quem amamos, conduzindo-osà experiência pessoal com o Ressuscitado, a graça que transforma suas vidas. Anós cabe a missão de conduzi-los pelos caminhos da graça de forma que tambémeles conheçam e vivam o amor esponsal a Jesus ao qual todos os homens sãochamados. Nossa evangelização tem início com o anúncio testemunhal eexperiência pessoal com Cristo, nossa Paz e leva à entrega incondicional, aoamor esponsal ao Príncipe da Paz.

Costumo dizer que o Shalom é “a vocação do dar-se”, do“dar-se todo”, do “dar-se sempre”, do “dar-se irrestritamente”, do “dar-se como coração inflamado”. Isso, em si, não é uma profecia no sentido de “novidade”,mas certamente é profético enquanto “sempre renovado” chamado a viver com novoardor o mandamento do amor, que nos impele irresistivelmente a dar a vida pelooutro como Jesus deu a Sua.

Tentei, no espaço que tenho, dar as razões de sermosprofecia para a Igreja e para o mundo hoje. Termino este artigo como que envergonhadapor não ter conseguido quase nada. É que, como falo no final do livro Na Fendada Rocha, este Carisma que o Senhor nos deu como nossa identidade maisprofunda, é como um diamante multifacetado, como um cristal em cujas três facesse escondem outras três mil. Impossível descrevê-lo, impossível, retê-lo,impossível contê-lo, impossível apossar-se dele. Como um fugidio raio de luarque não se consegue segurar, ultrapassa-nos tão altamente que nos leva aexclamar, estupefatos: “Bendito sejas Tu, Senhor, por te manifestares assim anós, por usares tão maravilhosamente instrumentos tão pequenos e pobres, Tu queés o Deus Altíssimo e Todo Poderoso, insuperável em amor e bondade!”


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