Na vida cristã, matrimônio e família são uma vocação. O que se entende aqui por vocação? Pode-se entender a minha situação de ser atualmente casado e ter família. Vocação nesse sentido é o destino atual da minha vida. Posso, porém, chamar de vocação a causa que determinou esse destino. E perguntamos: por que estou neste casamento, nesta família? Mas o que se entende pelo termo “por que”?
Usualmente, o “por que” assinala a busca do motivo: o que motivou este meu destino? Na busca pela motivação do meu destino atual surgem diversas respostas que nos deixam atrapalhados: o motivo foi um encontro casual, uma visita ocasional, ter gostado disso ou daquilo, etc. Muitas vezes esses motivos são tão banais e acidentais que nem sequer deles nos recordamos.
Mas todos esses motivos podem ser explicados como motivações meramente humanas, como condicionamentos sociológicos, psicológicos e pedagógicos. Jamais temos a certeza de ter sido Deus o motor determinante do nosso destino. No fenômeno humano do “encontro” podemos ver melhor em que consiste o modo de ser do matrimônio e da família.
Imagine um casal que festeja suas bodas de ouro. Cercados de filhos e netos, o casal recorda a história do seu encontro. Esta história é representada como uma sucessão linear de fatos cronológicos. O início se localiza, digamos, no dia 06 de maio de 1950, às 18 horas e 30 minutos, quando os dois se viram pela primeira vez. Numa esquina, os dois dão um encontrão. Com galo na cabeça, eles se desculpam e sorriem. E começa toda a história.
Como é a dinâmica desse encontro? É uma contínua retomada de interpretações: o primeiro encontro como algo totalmente casual, leva os dois a sentirem mútua simpatia. O galo na cabeça é retomado a partir do sorriso, numa nova interpretação. Três dias depois, os dois se encontram casualmente num supermercado. Recordam-se do primeiro encontro, conversam, dão-se a conhecer.
O primeiro encontro é agora interpretado a partir do segundo e este como continuação do primeiro. Ficam amigos, namoram, brigam e se reconciliam. Em cada um desses acontecimentos, os encontros anteriores são retomados, são interpretados novamente, são reintegrados dentro do processo da interpretação. E nesse movimento de mútua e recíproca interpretação começa a se definir, a clarear o sentido do primeiro encontro.
Trata-se, portanto, de uma estrutura processual, em que cada passo nasce do anterior, numa progressão que não é simplesmente evolução, mas a constituição, a criação do destino. O tempo nessa estrutura não é uma sucessão de fatos iguais. Antes, cada passo é “kairós”, isto é, o tempo oportuno da vocação matrimonial e familiar. Ali há o momento de guinada, o momento onde o vigor do encontro perde o seu fôlego, há o momento onde renascem novos impulsos.
O ponto final nesse movimento não é ponto de chegada, mas a última ressonância, a consumação da totalidade. Nessa consumação, o todo está presente na retomada, que é mais um remate da obra do que um ponto final. O que é matrimônio cristão, o que é família, quem é Deus, como é o seu apelo, nós não podemos saber de antemão.
Tudo o que acontece, os fatos mais banais da nossa vida podem ser a clareira que evoca a vocação do Mistério de Deus como o destinar-se da vida, percebendo o sentido concrescente da provocação de Deus. O cristão toma assim a serio, a situação concreta de ser e ter esta família. Pois, não é indiferente esta ou aquela família. Sua preocupação contínua está unicamente nisso: qual o sentido nascente que sempre de novo se envia e vem à fala neste matrimônio e nesta minha família?
Dom Fernando Mason
Bispo diocesano de Piracicaba (SP)