Vida e morte emolduram a existência humana, definindo seu significado e seu alcance, sua origem e seu destino. Vida e morte definem o que é cada pessoa. O viver e o morrer revelam a verdade mais verdadeira de cada um. Ninguém é o que é só por algumas coisas que tenha feito. Não basta fazer algumas coisas. É uma grande ilusão pensar que vale a vida na medida em que algumas coisas são feitas. Ora, é possível fazer muitas coisas, boas inclusive, ancorando-se no egoísmo ou no desejo obscuro de promoção pessoal e auto-afirmação. Os místicos sabem, e não se iludem a respeito disso, o quanto é possível edificar grandes obras ou manter grandes instituições só por egoísmo, travestidas de falsa generosidade, atendendo os interesses mórbidos que podem se hospedar em qualquer coração. Só há um critério que define a vida como verdadeira e revela a morte como vitória, ultrapassando todo fracasso que ela guarda na sua própria constituição. Este critério é plenamente dado em Jesus Cristo, o Senhor e Salvador do mundo.
O evangelista São João recorda este critério incomparável e insubstituível quando reporta ao que o Senhor da Vida diz: “ Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13), e ainda na sua epístola, ele pontua: “ Jesus deu sua vida por nós. Portanto, nós devemos dar a vida pelos irmãos” (I Jo 3,16) Da morte de Cristo brota a vida, plena e definitiva, respondendo ao mais profundo anseio do coração humano. Um anseio tão profundo que o coração se põe a buscar, a qualquer preço muitas vezes, pela força do imperativo da necessidade de encontrar a resposta. Este desejo de encontrar a resposta que garante a vida plena cria situações existenciais difusas levando às escolhas e opções que comprometem a própria vida.
Na morte de Cristo é que se encontra a fonte inesgotável da verdadeira vida. Sua obediência amorosa de Filho Amado concretiza a verdade misericordiosa do coração de Deus Pai: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,16-17). Santo Agostinho, no seu Tratado sobre o Evangelho de São João afirma: ‘ Ele, Cristo, teve o poder de dar a sua vida e depois retomá-la; nós, pelo contrário, não vivemos quanto queremos, e morremos mesmo contra a nossa vontade. Ele, morrendo, matou em si a morte; nós, por sua morte, somos libertados da morte. Ele não precisou de nós para nos salvar; entretanto, sem ele nós não podemos fazer nada. Ele se apresentou a nós como videira para os ramos; nós não podemos ter a vida se nos separarmos dele’. É ilusão viver distanciado desta verdade. Fora desta verdade a morte é terrível, um tremendo e terrível aniquilamento. Um aniquilamento que encontra hospedagem nas circunstâncias da vida e vai se configurando nos cenários diferentes da humanidade, perpetuando as barbáries, grandes e pequenas, que estão atormentando os povos, dizimando as culturas, fazendo vítimas entre os pobres e inocentes, revelando o inferno do coração dos poderosos, dos que se acastelam no dinheiro e nas estruturas de dominação e poder.
Na morte de Cristo está a vida plena por ele fazer valer o critério da oferta como única medida e parâmetro para definir a relações entre as pessoas, como condição que possibilita o resgate da vida e o sonho de promovê-la como dom de Deus para todos, nas diferentes e desafiadoras situações vividas pela humanidade nesta hora tão grave de sua história. A morte de Cristo configura a fonte inesgotável da vida. Só bebe eficazmente desta fonte quem se aventura na experiência de compreender a própria vida como oferta seguindo o exemplo do seu Mestre e Senhor. Uma oferta que exige medidas novas e alargadas para o coração. Medidas que desafiam permanentemente para serem alcançadas, indicando o quanto é importante superar toda pretensão e cultivar todo tipo de desapego, material, intelectual e de muitas convicções. Jesus, pouco antes de viver a hora extrema advertiu a Pedro a respeito deste risco. Jesus sabe que o coração humano precisa de algo mais que tudo aquilo que ele por si mesmo pode possuir, em bens, informações e até saberes. Ele sabe que o discípulo precisa de uma graça especial sem a qual não consegue ultrapassar as suas próprias estreitezas, correndo o risco de definhar na própria mesquinhez. O Evangelista Lucas, 22,1 ss, narrando a paixão, conta que os discípulos, depois de terem ouvido o sentido e alcance da oferta de Cristo, discutiam entre si quem entre eles era o maior. Foram advertidos e convidados a não repetirem entre eles o esquema dos que dominam. A Pedro, valendo para todos disse: ‘Simão,Simão! Satanás pediu permissão para vos peneirar, como se faz com o trigo’. Só em Cristo, n’Ele e por Ele tudo o desafio será vencido. É a Páscoa!
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
Fonte: CNBB