Formação

Você é cristão, e daí?

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Ao ver uma vez, em plena Zona Sul do Rio de Janeiro, uma enorme imagem doRonaldinho com asas de anjo, numa campanha publicitária, fiquei mais uma vezchocada com a banalização dos símbolos da fé cristã, neste caso, os anjos.

Isso me levou a refletir sobre as constantes lutas da Igrejapara defender o direito à vida dos nascituros e dos doentes terminais; pela nãodescriminalização do uso das drogas; pela justiça e pela paz, entre tantasoutras.

Pensei na dessacralização que o mundo está vivendo nostempos atuais. No crescimento do hedonismo, do paganismo, da Nova Era, dasseitas e novos movimentos religiosos…

O que como cristãos (de hoje) temos feito no mundo marcadopelo pecado? O que como cristãos temos feito num mundo que pelo pecado produz acada dia uma multidão de excluídos e doentes? Que diferença faz para asociedade sermos cristãos?

Em diversas pregações o nosso fundador, Moysés, e a nossaco-fundadora, Emmir, têm afirmado que somos chamados ao anúncio explícito doEvangelho, para que o mundo tenha uma experiência com o Ressuscitado que passoupela Cruz e traz em seu corpo as marcas gloriosas. O que eles dizem mesmo?“Para que tenha uma experiência.” Moysés e Emmir não dizem “para que o mundoconheça o Cristo intelectualmente”, mas sim, para que tenha um conhecimento quenasce da experiência.

Onde o mundo tem feito uma experiência verdadeira de Deus?Na sua casa? No seu trabalho? Na sua rua? No seu bairro? No Brasil?

Se abrirmos os jornais não encontramos boas notícias. Amídia gosta de divulgar números que comprovam o crescimento das seitas, e umadiminuição do número de católicos, em contrapartida. Esseproblema tem de fato preocupado todos os que direta ou indiretamente estãocomprometidos com a evangelização. As seitas e alguns movimentos religiosos novos,como a Nova Era, adquiriram uma grande força nos últimos tempos.

Como Igreja diante desse desafio, devemos enfrentar essasituação com a verdade e a caridade, e ao mesmo tempo fortalecer o empenhomissionário, para que o Evangelho penetre profundamente no coração das pessoase das sociedades, transformando-as interiormente.

É isso que está expresso no Documento de Aparecida. É a essedesafio que a proposta de uma Missão Continental quer responder, a pedido dosbispos da América Latina e do Caribe, que se reuniram na V Conferência doCELAM. Os relatórios apresentados pelos peritos mostraram como é urgente estaratento ao fenômeno religioso das seitas e dos novos movimentos religiosos, poisassistimos diariamente a sua multiplicação em todos os continentes, o que jáestá sendo chamado de “mundialização das seitas”.

Diante desse quadro, não basta ter um “bla, bla, bla”apologético, um discurso inflamado de moral católica ou de defesa dos dogmas. Épreciso ir além de tudo isso. É preciso explorar ações mais efetivas eevangélicas, difundir uma consciência correta, segundo o Magistério da Igreja,sobre o significado da primazia da Graça; dar maior formação aos fiéis leigos,e promover um ambiente de diálogo e comunhão dentro da Igreja e da comunidadeeclesial (a exemplo das comunidades dos Atos dos Apóstolos), onde não se tenhamedo de reconhecer os erros e deficiências humanas, as quais são acolhidas porum Deus misericordioso. A partir daí, relançar, com mais convicção, a açãomissionária, o diálogo inter-religioso e a busca da unidade, respeitando sempreo direito humano à liberdade religiosa.

Ora, mas como é ser missionário, anunciando explicitamenteJesus e, ao mesmo tempo, manter o diálogo inter-religioso, buscar a unidade comoutras confissões cristãs e respeitar a liberdade religiosa? Isso é possível?

Claro que é possível e é o que tem feito o Papa Bento XVI,não é mesmo? Afirma o Papa em sua Encíclica “Deus é amor” que o cristão deve saber “quandoé tempo de falar de Deus e quando é justo não o fazer, deixando falar somente oamor. Sabe que Deus é amor (cf. 1Jo 4,8) e torna-Se presente precisamente nosmomentos em que nada mais se faz a não ser amar. Sabe que o vilipêndio do amoré vilipêndio de Deus e do homem, é a tentativa de prescindir de Deus. Conseqüentemente,a melhor defesa de Deus e do homem consiste precisamente no amor” (n.31,c). Naapresentação desse documento aos leitores da revista italiana “FamigliaCristiana”, destacou: “O mundo espera o testemunho do amor cristão que seinspira na fé. Em nosso mundo, com freqüência tão obscuro, com este amor brilhaa luz de Deus.”

Evangelização

Responda rápido, sem pensar: se alguém no seu trabalho ousala de aula, ou na sua família lhe perguntasse “você é cristão, e daí?” O quevocê responderia?

Lembre-se, você tem que responder rápido e não tem muitotempo para pensar, porque a pessoa está na sua frente, esperando sua respostaimediata.

Pois bem, foi justamente essa pergunta, feita por umauniversitária a uma colega durante uma aula de Direito que levou um pastor, deuma igreja protestante tradicional, a questionar como os cristãos estão vivendohoje a sua fé. Afinal, se o mundo a nossa volta nos faz essa pergunta, é porquenão explicitamos a nossa fé como deveríamos. O mundo não sabe porque ter uma experiênciacom Jesus faz diferença na vida de alguém. Na verdade, o mundo não conhece oFilho de Deus.

Mas, nós, cristãos, não vivemos neste mundo? Por que retemosessa experiência para nós, egoisticamente? Por que temos medo ou respeitohumano em evangelizar aqueles que sofrem pelo pecado? Não agiram assim osprimeiros cristãos. Nem o martírio os acovardou.

A história contada acima foi relatada pelo pastor que atestemunhou na aula de Ecumenismo do Curso de Teologia da PUC-Rio, quando serefletia sobre a evangelização no mundo pós-moderno. A pergunta daquelauniversitária, que era uma jovem comum, de classe média alta, não saiu da minhacabeça. Fui para minha oração pessoal com a seguinte indagação: “O que eu façocom o meu cristianismo? O que eu faço com a verdade que eu conheço? O que eufaço com o amor de Deus que eu experimento? Eu sou cristã, sou católica, souconsagrada, e daí?” Lembrei-me de todas as pregações do Moysés e da Emmirfalando da necessidade urgente de evangelizar no ônibus, no supermercado, noelevador, nas ruas, nos escritórios, nas escolas, onde quer que haja pessoahumana que não tenha tido uma experiência real com Jesus Cristo.

No dia seguinte procurei um padre amigo meu que também éprofessor de Teologia e partilhei a experiência que tive em sala de aula e naoração pessoal. E ele me respondeu: “Os discursos nunca converteram ninguém e agente está cansado de saber disso. O pior é que ficamos especialistas em ‘blá,blá, blá’. E isso é muito pouco. Se o mundo não entende a diferença entre asbênçãos de Deus e um galho de arruda, por exemplo, é porque a minhaevangelização não comunicou o verdadeiro Cristo, o Filho Deus, a segunda pessoada Santíssima Trindade, que assumiu um rosto humano e um coração humano paranos salvar. Falhou o anúncio, porque falhou o meu testemunho”.

Lembrei-me, imediatamente, do que o Papa Bento XVI disse aosjornalistas, no lançamento de sua primeira Encíclica, que fala sobre o amor deDeus: “A fé não é uma teoria que alguém pode assumir ou descartar. É algo muitoconcreto: é o critério que decide nosso estilo de vida. Em uma época em que ahostilidade e a avidez converteram-se em superpotências, em uma época em queassistimos ao abuso da religião até chegar à apoteose do ódio, a racionalidadeneutra por si só não é capaz de proteger-nos. Temos necessidade de Deus vivoque nos amou até a morte”.

Perguntei, então: “Como anunciar o Cristo explicitamente,sem que este anúncio seja vazio?” Ele me olhou profundamente e disse comsabedoria: “Sendo amiga dos homens, como Cristo foi. Os amigos de Deus sãoamigos dos homens. Isso significa que o que acontece com o homem nosinteressa”. Lembrei-me do fundador, Moysés: “amigo de Deus e amigo dos homens”.

Ao continuar sua resposta, o professor foi ainda maisenfático: “Isso significa que temos que estar inseridos nos diversos ambientese lá fazer o anúncio explícito. Que lá, nesses diversos ambientes, você seja avoz do Cristo. Fale de Cristo e tenha atitudes cristãs. Que você não se omitafrente às injustiças; eleja pessoas dignas, que lutarão pelo bem comum; use dehonestidade em suas relações, sejam elas humanas, trabalhistas, econômicas,tributárias… Você deve ser aquela pessoa que anuncia a Boa-Nova não só compalavras, mas também com o testemunho de uma vida renovada, transformada pelaexperiência do amor de Deus. Só assim ser cristão fará a diferença”.

Então, deixo o mesmo questionamento para vocês:

“Você, que é médico ou enfermeiro, tem falado no hospitalque a vida começa na concepção e que a camisinha falha? Tem dito que a melhorforma de se prevenir da AIDS é vivendo a castidade?”

“Você, que é advogado, tem defendido a vida e denunciado amanipulação das leis contra o direito dos nascituros, idosos e doentes? Temlutado contra a injustiça e a corrupção?”

“Você, empresário, diz ‘não’ à exploração dos seusempregados e à sonegação de impostos?”

“Você, professor, tem ensinado aos seus alunos o verdadeirosentido da vida, o valor da castidade, da honestidade, da paz?”

 “Você, policial, temvivido conforme as leis de Deus e dos homens?”

Poderia, aqui, elencar um série de profissões e continuar aquestionar o quanto, de fato, a experiência com Deus está sendo vivida no seudia-a-dia, nas escolhas que você faz a cada minuto, nas suas conversas com aspessoas com quem convive.

Mas não posso deixar de fazer uma última pergunta: “Você,que é consagrado a Deus, dá testemunho de uma vida feliz e transformada peloamor desse Deus?”

E como não terminar com algumas reflexões do Papa Bento XVI,contidas na Encíclica “Deus é amor”: “A união com Cristo é, ao mesmo tempo,união com todos os outros aos quais Ele Se entrega. (…) Amor a Deus e amor aopróximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Mas, ambos vivem doamor preveniente com que Deus nos amou primeiro. (…) Nos Santos, torna-seóbvio como quem caminha para Deus não se afasta dos homens, antes pelocontrário torna-se-lhes verdadeiramente vizinho”.

Andréia Gripp
Comunidade Católica Shalom


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