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Vontade e Missão

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Missionários da Comunidade Católica Shalom em Madagascar, na África

Ao observamos desde os fatos mais cotidianos da vida até às notícias mais impressionantes dos telejornais, vemos pessoas que desempenham papéis, seja com maiores ou menores aptidões ou eficiência: uma mãe que cuida de seu filho, uma professora que educa os seus alunos, um médico que trata os enfermos, um juiz que profere uma sentença.

O profeta Jeremias ouve a Palavra do Senhor que lhe diz: “antes que te formasses no seio materno eu te consagrei…” (Jr 1,5). A Palavra de Deus vem trazer luz e sentido novos à nossa vida e nos diz que a existência humana é orientada ao cumprimento de uma missão. Cada indivíduo, com efeito, traz em si, e não só externa e socialmente, a exigência de realizar algo, sendo esta uma condição para a sua realização própria, como pessoa. Realizar-se como pessoa implica a descoberta e o exercício de nossa missão no mundo.

No mês de outubro celebramos a memória de uma grande santa da Igreja, Santa Teresa de Lisieux ou Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, que nos testemunha a busca de sua missão pessoal e a alegria de vivenciá-la por amor a Jesus. Um santo, deve-se dizer, não é alguém que deixou de ser homem, mas, ao contrário, quem deixou que Deus realizasse em si todas as suas potencialidades humanas, em outras palavras, alguém que se deixou configurar a Cristo, “homem perfeito, que revela o homem ao homem” (cf. Gaudium et Spes, 22).

Santa Teresinha é, portanto, modelo para nós de realização pessoal, de desenvolvimento humano. Seguiremos sua trilha, procurando vislumbrar os altos cumes que alcançou, pois que também nós fomos criados para os mais elevados ideais, para a estatura de Cristo.

Ser tua esposa, ó Jesus; ser carmelita; ser, pela união a ti, a mãe das almas, deveria ser-me suficiente… Mas não é… Sem dúvida, esses três privilégios formam minha vocação: carmelita, esposa e mãe. Todavia, sinto em mim outras vocações, a de guerreiro, a de sacerdote, a de apóstolo, a de doutor, a de mártir, enfim, sinto a necessidade, o desejo de realizar, para ti, Jesus, as mais heroicas obras. (1)

Teresinha escreve isso quase ao final de sua vida. Tendo descoberto já sua vocação específica, reconhecendo-a como um privilégio e vivendo-a, declara-se, no entanto, de certo modo “insatisfeita”, com ânsias de realizar muitas outras coisas por Jesus. Teresa sente em si a aspiração ao que hoje se denomina “missão pessoal”, objeto de estudo da psicologia e da teologia contemporâneas, que são unânimes ao afirmar que é o cumprimento da própria missão que realiza a pessoa.

Como meus desejos me faziam sofrer um verdadeiro martírio na oração, abri as epístolas de São Paulo a fim de procurar alguma resposta. Meus olhos caíram sobre os capítulos 12 e 13 da primeira epístola aos Coríntios… No primeiro, li que nem todos podem ser apóstolos, profetas, doutores etc.; que a Igreja é composta de diferentes membros e que o olho não poderia ser, ao mesmo tempo, a mão. (2)

Teresa encontra uma resposta clara, porém não suficiente para extinguir seus anseios e propiciar-lhe a paz. Sente dentro de si um chamado especial, particular, que a atrai e a impele a cumpri-lo. Persevera, então, em sua busca:

Sem desanimar, prossegui com minha leitura e esta frase aliviou-me: “Aspirai também aos carismas mais elevados. Mas vou mostrar-vos ainda uma via sobre todas sublime”. E o apóstolo explica como todos os mais perfeitos dons não valem nada sem o amor… Então, na minha alegria delirante, exclamei: Ó Jesus, meu Amor… enfim, encontrei minha vocação! Minha vocação é o amor!”. (3)

Segundo González (2004), à luz da definição atual do conceito de missão, podemos deduzir que quando Teresa emprega o termo “vocação” nesse trecho de seus escritos está querendo falar na verdade de sua missão. Teresa já está vivendo sua vocação de carmelita, porém sente o desejo de vivê-la de uma maneira particular, e é isso a missão pessoal. A ela se dedica, a partir de então, com todo o afinco.  Sua vida confirma o que a teologia contemporânea nos recorda: A pessoa funda a missão e a missão realiza a pessoa.

Portanto, cada ser humano enquanto pessoa possui um encargo na vida, uma tarefa a desempenhar. Disso depende sua realização pessoal. Segundo Viktor Frankl, “o ser humano é uma criatura responsável e precisa realizar o sentido potencial de sua vida… Quanto mais a pessoa esquecer de si mesma – dedicando-se a uma causa ou a amar outra pessoa – mais humana será e mais se realizará”. (4)

Busquemos, então, com desejo e perseverança, a nossa missão pessoal. Perguntemos ao Autor e Dono de nossa vida, o nosso Deus, o que espera de nós e Lhe sejamos fiéis. Assim nossa vida será plena, fecunda e feliz!

(1) TERESA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE. Manuscrito B [2v], Obras Completas. São Paulo, Loyola,1997.

(2) TERESA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE. Manuscrito B [3f], Obras Completas. São Paulo, Loyola, 1997.

(3) TERESA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE. Manuscrito B [3v], Obras Completas. São Paulo, Loyola, 1997.

(4) LUIS JORGE GONZÁLEZ. Psicologia de Teresa de Lisieux. São Paulo, Paulinas, 2004.

                                                               Elica Melo, missionária da Comunidade de Vida Shalom


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