A câmera colocada quase ao nível do chão, registra, entre manchas vermelhas na lente, o descarte de toneladas e toneladas de tomates maduros a rolar de dezenas de enormes caminhões caçamba. Equilibrando-se sobre os tomates, homens fortes de botas brancas apressam com pás a queda dos frutos.
Na cena seguinte, tratores amassam as frutas enquanto outros homens com o mesmo uniforme cuidam para que nenhuma fruta se salve do esmagamento. Era necessário destruir tudo. Talvez sem intenção, antes de iniciar a entrevista com um desvairado agricultor, a câmera foca em suas botas brancas manchadas de vermelho.
Segue-se a entrevista do agricultor que esbraveja, como outros atrás de si, dizendo que haviam tomado a decisão de “descartar” os tomates em retaliação à política econômica de exportação.
Em minha memória volta a cena do ano anterior, onde dezenas de caminhões tanque “descartavam” milhares de litros de leite bom, fresco, proteico. Junto a ela, o comboio de ônibus e trens a “descartar” refugiados para fora do país. Com eles, atropelavam-se em minha memória fotos que todos conhecemos, todos nós!, de crianças esquálidas na África, no Brasil, no Haiti.
Perdida em meus pensamentos, visualizei centenas, milhares de lixeiras no Brasil onde são “descartadas”, diariamente, toneladas de comida “que sobrou”. A revolta começa a tomar conta de mim e fico aliviada ao me lembrar que me recuso a comprar em certo supermercado e a comer em certa rede de alimentos desde o dia em que soube que toda sobra e todo alimento não vendido e prestes a vencer eram, diariamente, “descartados por segurança”.
Insanidade das insanidades! Até onde irá nossa loucura? Quem porá limites à nossa indiferença?
Não há, em plena lucidez, justificativa ou explicação para o descalabro do “descarte” de alimentos em condição de consumo enquanto houver necessitados entre nós! Seu nome é desperdício! Seu nome é crime!
Alguns “gatos pingados” fazem protesto contra o desperdício. Outros encontram soluções engenhosas e se oferecem para distribuir o que está para vencer ou seria descartado. Porém, ainda assim, os tais supermercados, restaurantes e lojas de fast-food, rejeitam seus serviços. Alegam o risco de ser processados caso faça mal a alguém.
Outros “gatos pingados”, em número menor, educam seus filhos para não desperdiçar. Número menor ainda, obriga-se a comer até o fim a comida de que não gosta ou o que colocou no prato oferecendo o sacrifício pelos que não têm o que comer.
A câmera, colocada quase ao nível do chão, focaliza as caçambas cheias de tomates. Diante delas, os caminhões tanque repletos de leite. Os homens que os manejam, com suas botas brancas, exaustos da viagem sem parada até a África, distribuem leite e tomates aos irmãos esquálidos. Em seus rostos, as lágrimas escondem o sorriso do coração. Não há especulação. Não há rebelião. Não há desperdício.
Felizes botas brancas brilham à luz do sol que as torra e ofuscam o devaneio que precisa tornar-se realidade.
Emmir Nogueira
Obrigada, Emmir. Pelo texto.
O pano de fundo é sempre uma batalha espiritual.