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O Amor ainda não é amado

Em Chaves toquei em um nível de vulnerabilidade e risco social que só via em livros e imaginava não existir mais.

comshalom

Imagine um barco, agora adicione no interior deste meio de transporte várias redes, não redes de pescar, mas aquelas que usamos para descanso. Neste instante se prepare para viajar por oito horas, maré baixa, maré alta e quando eu digo alta, se veja trombando no coleguinha que também está deitado a sua esquerda e direita. Para que sua audição entre no clima dessa viagem, adicione como trilha sonora um barulho de motor de carro e de chuva. Pronto, agora você viveu comigo a experiência do trajeto do Porto de Macapá a Chaves, na Ilha do Marajó. Trajeto que fiz apenas duas vezes, mas que para muitos é algo constante. E sim, eu quero voltar!

Chegamos em terra firme, me deixe lhe apresentar este belo solo que vamos pisar agora. O chão é de areia, em alguns lugares lama, as casas em sua maioria são de madeira, bem pequenas e cheias de rede como as que usamos para chegar. Algumas construções são de alvenaria, mas isso é raro. Sabe aqueles principais pontos que temos nas cidades? Prefeitura, escola, Conselho da Criança e do Adolescente, Delegacia, etc? Gire seu corpo em 360 graus. Girou? Então já conheceu todas esses locais em uma só rodada. Sim, ficam todos lado a lado.

Vamos continuar andando. Espere! Está tocando uma música, parece que ecoa em toda a cidade uma voz, “Igreja marajoara formada por todos nós, igreja Marajoara levanta tua voz”. De onde vem? Ah, esse canto de entrada das missas, está vindo das caixas de som espalhadas pela cidade. Sim caro leitor, é a rádio comunitária que mantém todos informados e ainda ajuda na evangelização. A viagem deu fome não é? Para comer temos carne de búfalo, peixe da raça filhote, que chega a pesar 35 quilos na sua fase adulta (mesmo assim ainda é chamado de filhote), açaí (para comer com tudo, com frango, feijão, etc) e muita farinha temperada na manteiga pastosa. Agora sim, tu já conheceste o local, a comida típica e ouviu uma boa música.

Wallace Freitas

Só faltou descobrir quem está te descrevendo tudo isso.  Sou Samuel Costa, missionário da Comunidade de Aliança em Belo Horizonte. Dos dias 10 a 17 de fevereiro, tive a missão de te levar para Chaves, por meio das matérias do comshalom que escrevi durante o Programa de Voluntariado. Mas hoje, escrevo de maneira pessoal para testemunhar o que vivi naquele lugar.

Em Chaves toquei em um nível de vulnerabilidade e risco social que só via em livros e imaginava não existir mais. O que mais causou dor em meu coração na viagem não foi à pobreza material em si, mas foi descobrir que o Amor ainda não é amado por muitos, como disse uma das médicas que participou conosco.

Me fazia feliz ensinar as crianças durante a evangelização porta a porta como se fazia o sinal da cruz, como se rezava para o papai do céu. Ficava tocado quando elas nos ajudavam a fazer os pedidos a Deus e diziam: “quero uma caixa de peteca”; “quero que a construção da nossa casa termine logo para que eu já não acorde mais de madrugada para carregar areia”; “quero que meus pais fiquem em casa”.

Recordo da missa da quarta-feira de cinzas, quando o padre disse que as pessoas que habitam nas ilhas do interior da cidade vivem em condições ainda mais precárias do que as do lugar onde estávamos. Pessoas que tem acesso à eucaristia apenas uma vez por semestre, que soltam fogos de artifício com a chegada do padre. Isso me fez refletir o quão muitas vezes me pego reclamando de ter que correr para assistir uma missa ou da distância entre a igreja e o meu trabalho.

Nesta ilha eu e todos os voluntários fomos acolhidos de portas abertas por todos os moradores que a todo tempo partilhavam conosco o que tinham. Lembro-me de quando entrevistei uma produtora de açaí, a qual extraía dessa produção todo seu sustento. Mesmo sendo a fonte de receita da família, a senhora insistia em nos dar gratuitamente um litro do seu produto.

Fui amado. Deus me permitiu ser um pobre entre os irmãos. Torci o pé ao dançar carimbo, daí, aquele que foi para tentar ajudar, passou um dia sendo cuidado e amado pelos voluntários e moradores da região. Em Chaves, vi criança que quase nunca tem guloseimas, ganhar dois pirulitos e vir me oferecer um. Vi uma família unida na comunidade de vida que evangeliza com a vida e luta e para levar o Amado a todos que o desconhecem. Fui amado como filho pela responsável local que cuidou de todos como uma mãe. Amei, me amaram, vi que só Deus é e basta.

Peço a você que leu essa partilha que coloque sempre em suas orações a vida de muitos que ainda desconhecem a existência do ressuscitado que passou pela cruz. Convido-te a valorizar tudo o que tens, lembre-se que enquanto reclamamos às vezes de alguma comida que não gostamos, tem gente que nem nada na mesa tem e isso é real. Seja grato, grato por mesmo miserável e pequeno ter sido apresentado de maneira pessoal ao Amado. O que defini meu atual sentimento é a nossa frase vocacional: obrigado Senhor por me teres escolhido! Sim, gratidão.

Motivo também à oração pela Escola de Paz. Abrace a coleta motivada pela comunidade durante a quaresma em vista desse projeto que levará uma melhor qualidade de vida para a juventude de Chaves.

 

Samuel Costa

 

 

 

 

 


Comentários

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  1. Linda a sua história! Continue firme em sua caminhada. Esta representa, certamente, apenas uma Na imensidão de histórias que você viveu e ainda há de viver. Parabéns pela capacidade de amar o amor e levá-lo a tantas pessoas.

  2. Nossa, sem palavras!
    Realmente, precisamos todos nos unir em oração e ação!
    Levar o Amor onde Ele não é Amado, por não ser conhecido. Enquanto muitas vezes não O amamos mesmo tendo O conhecido.
    Obrigada por sua partilha, irmão!
    Deus seja louvado pela desinstalação e oferta de cada um dos voluntários e missionários que atuam em Marajó e em tantas regiões como esta pelo mundo todo.
    “Vai, resposta, vai!”

  3. Samuel estou simplesmente emocionada com o seu testemunho de vivência com essas pessoas. Que Deus seja louvado a todos vocês que levaram amor e puderAM sentir mais perto o amor de Deus em cada irmão que teve contato.