“Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?” O que levaria um jovem a fazer esta pergunta? Com certeza essa não é uma pergunta vazia, ela surge a partir de um anseio e de uma necessidade interior do coração do homem Seguramente, nós poderíamos afirmar que aqueles que renunciam os prazeres do mundo e o conforto de uma vida cômoda para seguir Jesus estão verdadeiramente no caminho da paz, mesmo quando tudo não parecer tão tranquilo. Entendemos que seguir a Cristo não significa uma fuga da realidade, mas acima de tudo abraçá-la com tudo o que ela comporta. “Aquele que não toma a sua cruz e não me segue não é digno de mim. Aquele que acha a sua vida, a perderá, mas quem perde a sua vida por causa de mim, a achará”. (Mt 10,38-39) A paz que buscamos e precisamos não é a ausência de conflitos, tribulações, guerras. “Cristo é a nossa paz” (Ef 2,14). Somente Jesus é o portador da verdadeira paz, e todo aquele que quiser encontrá-la deve, sem medo, seguir os seus passos. Quando falamos de seguimento de Jesus, sabemos que isso implica vários desafios, sobretudo nos dias de hoje. Mas nós não somos os primeiros a enfrentar esses desafios, e o Evangelho nos prova essa verdade. Se olharmos para a figura do jovem rico relatado pelo evangelista Mateus, perceberemos que os desafios sempre existiram. O evangelista nos apresenta a figura de um jovem que faz uma pergunta radical e obtém uma resposta decisiva para a sua vida. A inquietude do coração do jovem “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?” (Mt 19,16) O que levaria um jovem a fazer esta pergunta? Com certeza essa não é uma pergunta vazia, não é uma simples curiosidade, ela surge a partir de um anseio e de uma necessidade interior do coração do homem. Na verdade, ele quer saber o que fazer para ser feliz, porque essa é a finalidade da sua existência. Não existe outra felicidade verdadeira fora do seguimento de Jesus. Tudo mais que se apresenta é ilusório e passageiro. Santo Agostinho nos ajuda a compreender esse anseio, quando, depois de percorrer diversos caminhos, encontra a paz e a felicidade que tanto buscou na sua juventude. “Fizeste-nos para ti, e inquieto estará o nosso coração, enquanto não repousa em ti” (Confissões I,I). E ainda: “Longe de mim, Senhor, longe do coração do teu servo, que se confessa diante de ti. Longe do pensamento de que uma alegria qualquer possa torná-lo. Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor: essa alegria és tu mesmo. E é esta a felicidade: alegrar-nos em ti, de ti e por ti. É esta a felicidade, não outra. Quem acredita que exista outra felicidade, persegue uma alegria que não é verdadeira”. (Confissões, X,22,32, p.273) O Catecismo da Igreja Católica nos fala que “o desejo de Deus está inscrito no coração do homem”. É exatamente este desejo que estava no coração do jovem rico, que provavelmente cansado da vida que levava, não estava satisfeito, embora tivesse tudo. Mas isso não lhe era suficiente. O mestre Agostinho nos ensina também que quando colocamos o desejo de felicidade nas coisas que passam vivemos em uma constante tensão, pois a todo instante temos medo de que alguém nos tire. Só Deus é a felicidade do homem. Nada nem ninguém podem fazer o homem feliz. A pergunta do jovem exige uma resposta radical, e a resposta exige uma ação que nem todos que perguntam estão aptos a correspondê-la. “Se queres entrar na vida eterna observa os mandamentos” (Mt 19,17d). O jovem vivia a Lei muito bem. Desde cedo seguia o que a Lei orientava e, diante dos homens, talvez fosse irrepreensível. Mas para seguir Jesus não basta o conhecimento da Lei, é necessário o desprendimento de si mesmo, de todas as coisas e pessoas. É preciso ser pequeno e humilde. “A pessoa faz os seus planos, mas quem dirige a sua vida é Deus, o Senhor.” (Pv 16,9) A radicalidade para seguir Jesus Observando a resposta de Jesus, nos perguntamos: o que ainda faltava ao jovem rico? A inquietude do seu coração o fez ir além no seu diálogo com o Mestre: “O que ainda me falta?” Jesus fitou-o com amor e disse-lhe: “Uma coisa te falta, vai, vende tudo que tens, dá aos pobres e terás um tesouro nos céus, depois vem e segue-me (Mt 19,20)”. Eis o ponto central do chamado que Jesus faz ao jovem rico. O jovem agora se encontra diante de uma decisão. A todo instante da nossa vida nos deparamos com situações assim, onde precisamos fazer opções, tomar decisões. Na nossa juventude, essa realidade se torna mais acentuada e todo o nosso futuro depende dessas decisões, das nossas escolhas. É sobretudo na fase da juventude que escolhemos nossa faculdade, nossa profissão, nosso estado de vida, nossa vocação. As decisões mais significativas da nossa vida são tomadas na juventude, por isso precisamos agir com responsabilidade, até mesmo nas coisas simples e corriqueiras. Diante da realidade em que vivemos, em uma cultura hedonista, na qual o relativismo é cada vez mais presente e o homem se torna cada vez mais egocêntrico, precisamos ser radicais nas nossas escolhas, cuidando para não cair nas ilusões de uma vida passageira. A reação do jovem rico “Ao ouvir isso, o jovem se foi muito triste porque possuía muitos bens” (Mt 19,22)”. “Esta frase refere-se indubitavelmente aos bens materiais, de que aquele jovem era proprietário ou herdeiro. Talvez esta situação seja peculiar somente de alguns; e assim não é típica. Por isso as palavras do Evangelista sugerem uma outra forma de enquadrar o problema: trata-se do fato de a juventude em si mesma (independentemente de quaisquer bens materiais) ser uma riqueza singular do homem, de uma moça ou de um moço e o mais das vezes ser vivida pelos jovens como uma riqueza específica. O mais das vezes, digo, mas nem sempre, nem