“O Senhor fez em nós maravilhas!” (Sl 125)
Belo Horizonte (MG). Nem toda história pode ser contada apenas por datas. Algumas precisam ser sentidas.
Ao completar 25 anos de missão em Belo Horizonte, a Comunidade Católica Shalom não celebra apenas o tempo, mas tudo o que aconteceu dentro dele: encontros improváveis, decisões que mudaram destinos, caminhos que começaram ali e nunca mais foram os mesmos.
Fundada oficialmente em 8 de abril de 2001, a missão nasceu de um pedido do então arcebispo Dom Serafim Fernandes de Araújo e da resposta concreta de pessoas que decidiram dar um passo sem garantias. A oferta de vida do casal Lúcia e Lízias, junto a outros primeiros membros, deu origem ao que ainda era apenas um início discreto: os Amigos do Shalom.
Vinte e cinco anos depois, o que era pequeno se tornou presença. E o que era presença, se tornou história.
Reconhecimento institucional e marco simbólico
As comemorações do jubileu incluíram dois momentos principais: a Missa Jubilar, realizada realizada no dia 11 de abril, na Catedral Cristo Rei, reunindo membros, antigos participantes e novos rostos em uma celebração marcada pela memória e pela gratidão.
Ao final da Missa Jubilar, Gabriel Azevedo, responsável local da missão, resumiu o sentimento que marcou toda a celebração: gratidão.
Segundo ele, olhar para os 25 anos da missão em Belo Horizonte não significa apenas recordar acontecimentos, mas reconhecer a fidelidade de Deus em cada etapa da caminhada.
“Celebrar esses 25 anos é, antes de tudo, reconhecer que essa obra nunca foi nossa, ela sempre foi de Deus. Nós apenas respondemos com o nosso pequeno sim. Quando olhamos para trás, vemos muitas cruzes, muitos desafios, muitas renúncias, mas vemos sobretudo a fidelidade de Deus sustentando cada passo.”
E a concessão do Diploma de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belo Horizonte, por iniciativa do vereador Maninho Félix. A homenagem reconheceu a contribuição da Comunidade ao longo dos anos, tanto no campo religioso quanto no impacto social indireto, especialmente na formação de jovens.
Gabriel também destacou que o jubileu não representa um ponto de chegada, mas um novo envio para a missão.
“Não celebramos apenas o que passou. Celebramos aquilo que ainda virá. Se Deus nos sustentou até aqui, é porque ainda há muito mais a ser feito. A missão continua jovem porque continua sendo resposta para os jovens, para as famílias. Enquanto houver alguém precisando encontrar Cristo, haverá sentido para a nossa oferta. E enquanto houver alguém disposto a dizer sim, essa história continuará sendo escrita.”
Uma obra que cresceu antes de tudo nas pessoas
Nos primeiros anos, não havia estrutura consolidada, planejamento estratégico ou projeção de longo prazo. Havia disponibilidade.
Os missionários que chegaram em 2001 iniciaram suas atividades no Lar dos Meninos São Vicente de Paula, onde a evangelização caminhava junto com a realidade concreta de milhares de crianças e adolescentes. Era ali, no cotidiano simples, que o carisma começava a ganhar forma.
Ao mesmo tempo, surgiam os primeiros grupos de oração, cursos de formação e encontros com jovens, muitos deles sem saber exatamente o que buscavam, mas percebendo que havia algo diferente naquele ambiente.
Com o tempo, a missão foi se expandindo pela cidade, mudando de endereço, ocupando novos espaços e, sobretudo, alcançando novas histórias. O Centro de Evangelização percorreu bairros importantes da capital, enquanto eventos como o Renascer, o Réveillon da Paz e os acampamentos começaram a marcar gerações inteiras.
Mas, mais do que os eventos, o que consolidou a missão foi algo menos visível: a repetição de experiências pessoais profundas.
Foi assim que Mariana Alves, de 22 anos, descreveu sua primeira experiência na missão há apenas três meses.
“Eu fui porque uma amiga insistiu muito. Não estava buscando nada específico. Só que, naquele dia, eu senti algo que nunca tinha sentido antes. Não era só emoção… era como se eu estivesse sendo vista de verdade. Desde então, eu comecei a voltar. E quanto mais eu vou, mais eu entendo que tem algo ali que faz sentido pra minha vida.”
Se hoje novos jovens chegam, é porque outros ficaram
Lucas Fernandes, 34 anos, conheceu a missão ainda adolescente. Hoje, casado e pai, ele resume a experiência de forma direta:
“Eu cresci aqui dentro. Não só espiritualmente como pessoa mesmo. Foi aqui que eu fiz escolhas importantes, construí amizades e entendi o que queria pra minha vida. E o mais curioso é que, mesmo depois de tantos anos, eu ainda volto. Porque esse lugar continua fazendo sentido.”
Essa conexão entre gerações se tornou uma das marcas mais evidentes da missão. Quem chega hoje encontra um ambiente jovem e vivo, mas ao mesmo tempo diverso, formado por famílias, celibatários, profissionais, estudantes e pessoas em diferentes fases da vida.
O que se vive aqui não termina quando se vai embora
Ao longo desses 25 anos, milhares de pessoas passaram pela missão. Algumas permaneceram. Outras seguiram caminhos diferentes. Mas há um ponto em comum entre elas: poucas saíram indiferentes.
É o caso de Marcelo Oliveira, hoje empresário, que participou da comunidade por cerca de seis anos.
“Foram anos muito intensos. Eu vivi coisas ali que não vivi em nenhum outro lugar. Amizades verdadeiras, decisões importantes, experiências com Deus que me marcaram de um jeito difícil de explicar. Até hoje, muita coisa em mim foi construída naquele tempo. E, sempre que lembro, vem uma saudade não só das pessoas, mas de quem eu era quando estava ali.”
A fala de Marcelo revela algo recorrente entre quem passou pela missão: a experiência não se encerra no tempo em que se participa. Ela continua ecoando.
Uma fé que se adapta sem perder o essencial
Belo Horizonte tem um ritmo próprio. Mais reservada, mais relacional, construída na confiança e no tempo das relações. E a missão aprendeu, ao longo dos anos, a dialogar com esse jeito mineiro de ser.
Na prática, isso significou compreender que a experiência de fé não se sustentava apenas nos momentos formais de evangelização ou nos grandes encontros, mas sobretudo no que acontece depois.
Um dos símbolos mais concretos dessa cultura é a lanchonete da missão, uma releitura da primeira lanchonete que marcou o início da Comunidade Shalom. Mais do que um espaço físico, ela se tornou um ponto de encontro onde a evangelização ganha outro ritmo: mais próximo, mais humano, mais acessível.
É ali, entre um lanche e outro, que muitos vínculos começam a se formar.Sem pressa, sem formalidade.Porque, em Belo Horizonte, a fé também se constrói assim:na amizade que cresce aos poucos e que, muitas vezes, é o caminho por onde Deus se revela.
E o que ainda está por vir
Celebrar 25 anos não encerra uma trajetória. Pelo contrário, posiciona.
A missão em Belo Horizonte segue ativa, recebendo novos rostos, formando novas histórias e atravessando um tempo em que as perguntas das pessoas mudaram, mas a busca continua.
E é nesse ponto que a missão continua encontrando espaço. Porque, no fim, o que começou lá atrás com um pedido, uma resposta e um pequeno grupo ainda responde a uma pergunta muito atual:
Onde as pessoas encontram, de fato, algo que transformem suas vidas?
Ao longo de 25 anos, a missão Shalom em Belo Horizonte construiu mais do que uma presença institucional. Construiu um percurso reconhecível na vida de quem passou por ela por alguns meses, alguns anos ou por toda a vida.