Já a 50 metros de distância, percebo o sinal indo de amarelo para vermelho; paro de acelerar e a primeira coisa que faço é olhar ao redor, notando se há algum flanelinha com seus instrumentos escassos e sujos para “limpar” o para-brisa do meu carro. No conforto do meu carro, o ar-condicionado já está ligado, os vidros levantados e o fumê garantindo a pouca visibilidade se olharem de fora para dentro; isso me dá certa tranquilidade e sensação de segurança, contudo, naqueles próximos 60 segundos, precisarei estar alerta. Alguns deles não oferecem a limpeza do meu carro educadamente, e nem todos aceitam bem um “não” como resposta. Podem até mostrarem-se agressivos. Fico ainda mais nervoso com isso. 50, 40, 30 metros… Faço de tudo para não chegar na faixa de pedestres antes que o sinal fique verde outra vez. Infelizmente, há mais carros atrás de mim e vejo-me sem saída a não ser aproximar-me da área de risco.
O carro para totalmente e observo o movimento desses pobres sujos andando entre os carros. Alguns motoristas sacodem o dedo freneticamente negando a prestação de serviço a troca de algumas moedas, outros motoristas baixam o vidro e começam a gritar, pois mesmo depois de dizerem “não”, o flanelinha ignora a negação e limpa o vidro mesmo assim. Por fim, outro motorista aciona a água automática do carro e ele mesmo ativa o limpador de para-brisa deixando clara a resposta que não precisa dos seus serviços.
Até que enfim, chega a minha vez, e o sinal ainda não ficou verde! Para minha surpresa, o flanelinha repara no terço pendurado no meu retrovisor, solta-me um sorriso e colocando a mão no bolso retira um terço bem simples, desses de bolinha de plástico com o barbante bem fraco que quebram por qualquer coisa. Ele olha para mim novamente e exclama:
– Eu também rezo o terço todos os dias! Meu irmãozinho católico, me ajuda a voltar para casa hoje com o jantar da minha família?
Senti o peso de uma sacola com um milhão de terços de plástico de barbantes bem fracos, pesando uns 100 quilos caindo sobre mim. Em um segundo percebi que os meus olhos estavam sujos pelo julgamento, cheios de dados sociais, estatísticas de violência, notícias de roubos e assassinatos nos jornais. Meus olhos estavam sujos e a sujeira daquele homem revelou a minha sujeira. Na verdade, eu não rezava mais o terço há um bom tempo; aquele pendurado no meu retrovisor estava só de enfeite, ou amuleto de proteção, sei lá… O fato é que, ao se identificar como católico, aquele homem mostrou-me que eu e ele tínhamos algo em comum, éramos da mesma família, membros da mesma casa e filhos do mesmo pai, e eu estava o considerando como uma ameaça, um desconforto, um mal de uma sociedade corrompida, veja só, meu irmão!
Por providência de Deus, havia um supermercado ali perto. Estacionei, pedi-lhe que limpasse meu para-brisa, enquanto comprava-lhe mantimentos básicos para que levasse o jantar para casa. No frigir dos ovos, nunca saberei se ele usou os produtos que comprei para vender e tomar o dinheiro para si, ou se realmente levou os alimentos para casa. Nunca saberei. Mas sei de uma coisa, tinha feijão naquela sacola, não drogas; tinha macarrão instantâneo naquela sacola, não armas, tinha ovos e não pedras de crack!
Espero encontra-lo de novo e nas próximas vezes perguntar seu nome e como anda sua família. Espero estar com o carro sempre com algum alimento para dar-lhe. Espero pedir-lhe orações no terço por mim e falar-lhe dos programas de promoção humana que existem no Shalom e, assim, ajuda-lo um pouco mais a ter mais dignidade, para que não haja nenhum necessitado no meio de nós.
