Parresia

A amizade segundo Santo Tomás de Aquino

Tomás relaciona a amizade com o fim último do homem, o próprio Deus, mostrando que a própria caridade, virtude central do cristianismo, pode ser entendida como uma espécie de amizade.

É correto afirmar que a amizade é uma realidade presente na vida dos homens e antes mesmo de ter sido explicada ou pensada, a amizade já era vivida, ainda que aqueles que a viviam nem soubessem como ela se definiria. Fato é que a amizade socializa o homem, pois ela pertence a sua natureza. Ao longo da história, muitos foram os que refletiram sobre a “amizade”, diversas foram as suas conclusões.

Santo Tomás de Aquino, filósofo e teólogo do século XIII, século de grandes transformações, elabora uma suma intitulada Suma Teológica que é precisamente um resumo elaborado de toda a doutrina cristã. Nesta obra, ele, apresenta por meio de questões e artigos, de modo sistemático sua reflexão teológica, com forte espessura metafísica.

Portanto, o que viria a ser então a amizade para Santo Tomás de Aquino, quais são as suas características e os seus efeitos?

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Um dicionário do pensamento de Santo Tomás de Aquino, afirma que a relação de amizade, é uma inclinação afetiva recíproca, que nasce de uma perfeita conformidade de sentir e da consequente disponibilidade recíproca de revelar também os aspectos mais escondidos da própria personalidade [1]. Essa reciprocidade se dá porque encontramos na relação de amizade elementos que nos ajudam a assegurar tais relações.

Na obra Suma Teológica, o Doutor Angélico Santo Tomás de Aquino as define como cinco elementos, vejamos: o primeiro elemento é Agir com Benevolência [2], de modo que utilizemos nossa razão para mover nossa vontade em favorecimento do outro como se fosse para si.

O segundo elemento é o Ato de amor, junto à benevolência, o ato de amor se sobressai na relação, sendo o outro dom de si, buscando apenas o bem, a felicidade daquele que está sendo amado, procurando sempre amar o outro.

O terceiro elemento que Santo Tomás destaca é a abertura ao outro, possa assim a amizade ser aberta, favorecendo a reciprocidade do amor, e este é um elemento que segundo ele é vital para que a amizade seja viva, para que pela amizade o homem possa conhecer e se dar a conhecer.

O quarto elemento seria a comunicação, fundamental na amizade: não existe relação sem comunicação, e é nela onde se torna possível os atos de caridade, a prática das virtudes e a escolha do amigo. Assim, a pessoa vai tendo o “Amigo como guardião do amor” [3]. Daí se explica o grande valor da descoberta que fazemos quando constatamos a presença de um amigo em nossa vida.

Semelhante a esta experiência, analisamos também na filosofia clássica que a “Amizade é um acordo na coisa divina e humana cheio de benevolência e caridade” [4]. Tendo assim, nesta realidade “a caridade como afeto, e a benevolência como um efeito. A primeira está na doçura do sentimento e a segunda se dá na concretização eficaz da ação” [5], ou seja, tanto a caridade como a benevolência nos possibilitam essa união de amizade com Deus e com os homens como apresenta Santo Tomás.

Por fim, como quinto elemento, o Doutor Angélico apresenta a afabilidade [6], que na obra Suma Teológica ele vem a chamar de amizade. Nota-se, portanto, que ao ordenar a virtude para o bem, isso conduz a agir com uma razão especial e assim passa a obter ordem nas relações de amizade, sendo conveniente, ou seja, afável, percebemos isso ao constatar na Suma Teológica quando ele diz que “uma vez que, a virtude se ordena para o bem, toda vez que ocorre uma razão especial de bem, aí também haverá uma razão especial de virtude. Mas, o bem consiste na ordem. Ora, é preciso que as relações entre homens se ordenem harmoniosamente num convívio comum, tanto em ações quanto em palavras, ou seja, é necessário que cada um se comporte com relação aos outros de maneira conveniente. Por isso, é necessária uma virtude especial que mantenha a harmonia desta ordem. E esta virtude se chama amizade ou afabilidade”[7].

Santo Tomás, retomando o discurso aristotélico, explica que a amizade além de virtude especial que indica dever de justiça social é modo amável que caracteriza todo estado virtuoso [8]. É como se o diferencial apresentado por ele na relação de amizade, diz o Aquinate, apresenta a expressão de amor dentro dos âmbitos das virtudes, se amo, estou agindo com virtude.

O amigo autêntico é espiritualmente livre, sabe conhecer-se a si mesmo e conhecer o outro de acordo com a realidade, sabe estar disponível para o acolhimento completo do outro, sabe oferecer o amor que engrandece o amigo [9]. Esta autenticidade, na verdade, comprova o amor sem interesse e nisso constata o fundamento da virtude que vem a ser o amor, e a prática do amor faz com que exista um crescimento de si mesmo e do outro, estabelecendo a identidade do homem em suas relações.

Tomás, partindo do pensamento de Aristóteles, inova para desenvolver um pensamento que está mais conforme com a sua fé. Para Tomás de Aquino, a palavra amizade deve ser entendida à luz de tudo o que Aristóteles falou, a respeito da mesma: sentimento de afeição, benevolência, união dos cidadãos, dos companheiros de um grupo, envolvendo a vida social e política. O Doutor Angélico, inovará ao definir a Caridade como uma espécie de amizade.

Santo Tomás diz que a amizade verdadeira e louvável é a que acontece entre os virtuosos, quando os amigos se amam porque se reconhecem mutuamente bons, ou seja, virtuosos. Ela é acompanhada de virtude ou é consequência de outras virtudes [10].

Ele estabelece que a virtude se ordena para o bem e toda vez que ocorre razão especial de bem, aí também haverá uma razão especial de virtude, ou seja, a amizade é sim uma virtude especial [11].

Mediante essa realidade, ele apresenta três características: a benevolência, que na amizade permite com que o amigo queira existir e viver, já que só se pode ser amigo de alguém que está vivo e cuja vida é reconhecida como um bem, mas isso não é suficiente para chamar alguém de amigo é preciso querer o bem dele.

A reciprocidade [12] em efeito, a amizade implica numa reciprocidade e livre escolha entre aqueles que se amam e a comunicação, que é apresentada não como uma realidade estática, mas como uma realidade dinâmica, que impulsiona a amizade.

O pensamento de Santo Tomás, afirma que “a caridade é uma certa amizade do homem com Deus fundada sobre a comunicação da Bem-Aventurança eterna. Esta comunicação não é segundo os bens naturais, mas segundo os dons gratuitos [13].

Ele afirma que o dom comunicado gratuitamente é sobrenatural, coincide com o próprio Espírito Santo, que é o Amor entre o Pai e o Filho, o único que permite aos homens participarem da Bem-Aventurança de Deus. Só deste modo pode existir uma comunicação entre Deus e o homem, que seja capaz de fundar uma amizade [14].

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Santo Tomás descreve também que a amizade apresenta alguns efeitos que permitem reconhecer esse processo de crescimento e amadurecimento da relação.

Ele cita que os efeitos são:

A união dos amigos, quando a relação é de reciprocidade, a união tem outra força, pois cada um está unido ao outro pelo próprio afeto [15]. Na amizade, não só o amante está no amado, como amante, e o amado no amante, como amado, como, pela reciprocidade, cada um está no outro como amante e como amado [16].

Um outro efeito que o Aquinate cita é o convívio, sem ele a amizade seria algo abstrato. O convívio é uma relação concreta, que se manifesta e se dá a conhecer. E a partir desta experiência temos a existência da comunicação, nos relacionando na vida. Não sendo apenas uma ligação, mas um viver com o outro, seja pela conversa ou pela concórdia [17].

A concórdia vem a ser essa união das duas vontades numa só, a vontade comum entre os dois, pela qual se diz terem o mesmo coração, e aí se vê a origem do nome. E a forma mais comum para se falar de concórdia é dizendo que há o mesmo querer e o mesmo não querer [18]. A essa realidade, Santo Tomás ainda complementa dizendo que a concórdia é um elemento fundamental do convívio e que é um efeito da amizade, nasce do amor recíproco e dela surge a comunhão [19].

A relação de amizade tende para a universalidade. Tendo em vista que o ato de benevolência em todas as amizades deve tender para o bem último comum a todos os homens, ou seja, para Deus, percebemos que a amizade tende para a Caridade. E isso faz da amizade universal, a amizade humana tende para a universalidade da Caridade, na qual todos podem ser alcançados pelo amor [20].

Outro efeito da amizade é a misericórdia, para Tomás a misericórdia pela qual socorremos as deficiências dos outros, é o sacrifício mais agradável a Deus. Assim, reconhecer e ajudar as necessidades do amigo torna-se um ato concreto da misericórdia que é reconhecida na amizade. Na amizade encontramos também a alegria, ela como fonte de vida e de satisfação dos amigos.

Santo Tomás reconhece ainda como efeito da amizade o gozo, ele como ato da razão. Dizemos isso porque a palavra gozo muitas vezes se expressa por algo negativo, e é em Tomás que encontramos a finalidade do bem superior, supremo, do gozo que está em Deus. Assim, faz parte dos amigos esse gozo, esse prazer de estarem juntos, afinal, na amizade os amigos não só querem o bem um do outro, querem estar um com o outro.

Daí o gozo vem quando temos a presença do amigo e quando também fazemos um bem para nosso amigo, e isso nos dá prazer. Referindo-se à Caridade como amizade, Santo Tomás afirma que a caridade nos oferece o gozo eterno, pois ela nos conduz à perfeição do gozo, que neste caso vem a ser o próprio Deus.

Somente em Deus, já dizia o Aquinate, o homem é capaz de atingir esse repouso último, esse gozo máximo [21]. E isso já nos é possível tê-lo quando vivemos essa união com Deus como fruto de sua amizade, embora só venha a ser plena na glória. A Caridade que já entendemos como amizade, nos ajudará a fazer com que nossos amigos tenham, assim, atos de bondade, prática do bem e isso nos ajuda a chegarmos ao bem supremo.

Santo Tomás resgata em sua obra Suma Teológica o conhecimento dos valores, da essência do amor, da prática da caridade e a real comunicação e reciprocidade da amizade. Fornecendo-nos como se fosse um manual sistemático de questões e artigos no que se revelam de grande atualidade para o homem de hoje.

Ele mostra que a grande riqueza da amizade para a vida humana está no convívio entre os amigos, na concórdia, na união aos amigos do amigo, no agir com misericórdia com os outros, na vivência da alegria como fonte de vida e gozo, e também o gozo eterno como aquele que nos conduz ao próprio Deus. O santo deixa claro que a amizade, portanto, realiza a natureza humana.

Tomás relaciona a amizade com o fim último do homem, o próprio Deus, mostrando que a própria caridade, virtude central do cristianismo, pode ser entendida como uma espécie de amizade. A Caridade vem a ser o coração da moral cristã, e por meio dela chega a ser possível a amizade com Deus e com os homens.

Poderíamos, então, dizer que a religião cristã é a religião da amizade, a religião da amizade com Deus e da amizade com os homens, revelando assim a caridade como realidade sobrenatural e a amizade como natural.

Portanto, Santo Tomás revela que o tema da amizade, tão estudada pela filosofia e por demais outras ciências, é de suma importância para o homem. Longe de ser um tema marginal, periférico, o tema da Amizade é central, fundamental, pois só através da amizade o homem terá abertura para sua plenitude, para sua essência, encontrará a realização humana.

Mais do que um sentimento, ou qualquer lei, a amizade deve ser reconhecida como uma realidade natural e necessária a todo e qualquer homem, pois não vem somente a ser uma possibilidade para se viver, mas algo essencial para o bem viver do homem.

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Referências Bibliográficas

[1] Cf. MONDIN, Battista. Dicionário Santo Tomás de Aquino. “Inclinazione affettiva reciproca, Che nasce da uma perfeitta conformità di sentire e dalla conseguente disponibilità recíproca a svelare anche gli aspetti più reconditi della propria personalità” (tradução nossa), p. 3.

[2] Cf. GENNARO, C. Dizionario Enciclopédico de Spiritualitá, org. Ermano Ancilli, Roma, v.I, 1995. p.117-120.

[3] RIEVAULUX, Aelredo. L’Amicizia Spirituale. “Dico Che l’amico è come um custode dell’amore” (tradução nossa), p. 96.

[4] CÍCERO apud RIEVAULUX, Aelredo.L’Amicizia Spirituale. “L’amicizia è un accordo nelle cose divine e umane, pieno di benevolenza e carità”(tradução nossa), p. 46.

[5] CÍCERO apud RIEVAULUX, Aelredo.L’Amicizia Spirituale. “Per Il momento Aelredo, giocando sulle parole, connette La carità con I’afetto, e La benevolenza con I’effetto: come dire Che La prima inserisce nell’acordo La dolcezza Del sentimento, e La seconda gli dà La concretezza efficace dell’azione” (tradução nossa), p. 47.).

[6] Cf. Sum.Theo. IIa-IIae, q.114, a.1, r.1, p. 643.

[7] Cf. Sum.Theo. IIa-IIae, q.114, a.1, r.1, p. 643.

[8] Cf. Sum.Theo. IIa-IIae, q.23, a.3, ad.1, “consequência da virtude mais que uma virtude”.

[9] Cf. GOFFI, T. Amizade in Dicionário de Espiritualidade. p. 14.

[10] AQUINO, T. apud CUNHA, D. Amizade segundo Tomás de Aquino, p. 385.

[11] Cf. Sum.Theo. IIa-IIae, q.114, a.1, r.1.

[12] Cf. Sum. Theo. IIa-IIae, q.23, a.1.

[13] Cf. Sum. Theo. IIa-IIae, q.24, a.2, c.

[14] Cf. CUNHA, D. Amizade segundo São Tomás de Aquino, p. 358.

[15] Cf. CUNHA, D. Amizade segundo São Tomás de Aquino, p. 386.

[16] Cf. Sum. Theo, Ia-IIae, q.28, a.2, c.

[17] Cf. Sum. Theo. IIa-IIae, q.29.

[18] Cf. Sum. Theo. Ia-IIae, q.28, a.2, c.

[19] Cf. Sum. Theo. IaIIae, q.29, a.3; q.37, a.1.

[20] Cf. CUNHA, D. Amizade segundo São Tomás de Aquino, p. 393.

[21] Cf. Sum. Theo. Ia-IIae, q.34, a.3.

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Padre Thiago José Rocha | Missionário da Comunidade Católica Shalom


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