Formação

A arte de conversar

comshalom

O título acima pode surpreender. Pois, conversar exigirá umacerta arte? Estamos conversando a toda hora, a respeito de tudo, e alguémpretenderá haver nisto arte?!

 Não se confunda conversa com falatório.

 Outrora, as relações sociais chegaram a atingir um alto graude requinte, de finura, e – por que não? – também de nobreza. Aquilo queconstitui um dos atributos mais próprios do ser racional, que é a interlocuçãointeligível entre indivíduos, adquiriu as características de uma arte, no seusentido mais elevado.

 Como é sabido, o período do Ancien Régime, na Françasobretudo, mas também em várias outras nações da Europa, alcançou este altopatamar da interlocução humana, transformando‑o em arte consumada. Foi nochamado século das luzes que essa arte expandiu‑-se por inteiro, atingindoentão seu apogeu com o aparecimento dos salões de conversa, que constituíram umdos fenômenos mais fascinantes da cultura europeia. Neles as pessoas se reuniamtão ‑só para conversar, com dia e hora marcadas.

 Troca de opiniões repetitivas não é conversa

 Claro está que não se contentavam com uma simples troca deideias ou, menos ainda, com uma banal permuta de palavras ou de opiniões repetitivas,tão a gosto de alguns atualmente. Os salões de conversa exigiam de seusfrequentadores, além de elevada cultura geral, uma forma de apresentação dodiscurso que deixava transparecer justamente todo o seu charme. Conversar eraapresentar um assunto de modo elegante, atraente, inédito às vezes, além deprofundamente ligado à realidade, podendo até mesmo ter sua nota de inesperado.

 Não raro, lamentamo-nos em ter acabado o tempo no qual aspessoas tinham a superioridade de se reunir para conversar sobre temaselevados. Hoje em dia, malgrado a boa vontade existente, as condições concretasda vida tornam este tipo de arte quase impraticável.

 Justamente, a tal propósito, tomei conhecimento de uma obra-Les Salons européens. ‑ Les beaux moments d’une culture féminine disparue-(1), que traça a história dos salões de conversa europeus, de suas pré‑-origensaté seu desaparecimento no século atual, após um período de agonia.

 A conversa como favorecedora da cultura

 Transcrevo, em tradução um pouco livre, trechos do capítulofinal, intitulado "Último adeus a um paraíso perdido":

 "A vida de salão, enquanto fenômeno cultural único,acabou no conjunto do espaço europeu.

 Como encontrar, por um golpe de varinha mágica, o tempo e olocal para fundar um laboratório de conversa altamente espirituosa? Atranquilidade necessária para usufruir isto encontra-‑se estrangulada pelarapidez da vida moderna. Manter um local, com frequentadores habituais, nãocorresponde mais às tendências do homem de hoje, o qual, na maior parte dasvezes, atribui mais importância ao esporte e às viagens do que a dedicar-‑se àarte da conversa.

 A conversa favorecedora da cultura, que se desenrola semlimites de tempo e sem obrigação de se chegar a um termo de entendimento, cedeuo lugar à formação da opinião pela mídia. A conversa recreativa deslocou‑-se,cada vez mais nitidamente, rumo a um estilo pergunta-‑e-‑resposta.

 A comunicação escrita triunfou sobre as relações por meio daconversa. As discussões culturais são levadas a cabo, na maioria das vezes,pelas redações de jornais ou das emissoras de televisão, muito mais do que noslares.

 Acrescente‑-se a isso a tendência à especialização ? golpemortal para o homem comum ? que leva aqueles que estão fartos da mídia rumo aassociações literárias e a sessões de leituras, que revestem um caráter quaseque de conspiração.

 O mundanismo, em vez da sociabilidade, é que constituipresentemente o veículo da informação. A conversa de tônus espirituoso cede opasso ante o jargão de determinado meio.

 A televisão também se apresenta, hoje em dia, como práticaliterária. Entretanto, tal ação permanece limitada ao entrevistador e a seusconvidados; o telespectador permite passivamente que lhe sirvam a conversaçãoaté em sua própria sala de visita".

 Tais observações são suficientemente cogentes e explícitas,para dispensar outros comentários. Não obstante, aproveito a ocasião para levantaruma questão. Tem‑-se falado, e com muito acerto, a respeito de certosmalefícios causados pela TV, notadamente no campo da deformação moral.

 Aqui aparece mais um dano, do qual se tem tratadoinsuficientemente: o lento "homicídio" da formação culturalindividual, quase, diria, personalizada, pela mídia de massas. Ainda mais doque a produção de uma cultura enlatada, como tem sido apelidada por certoscríticos, é a incapacidade de elaborar cultura que nos tem sido servida, quaseimpingida, a pretexto de atualidade.

 Será que o confisco do tempo necessário à conversa pode serconsiderado um benefício?

 – Claro está que na conversa devemos sempre manter um tratorespeitoso com nosso interlocutor, ainda que tenhamos objeções a debater comele.

 Muito acertadamente pondera neste sentido um escritorcatólico (2):

 "O trato respeitoso deve estar presente nainterlocução, inclusive, quando as pessoas discutem por divergências deopinião. Assim como se admira na esgrima a beleza dos movimentos, a categoria edestreza dos contendores, assim se pode compreender essa verdadeira esgrima doespírito que é a discussão bem conduzida, na qual uma das partes opõeargumentos de peso contra a outra, e esta responde à altura. Afinal, aquele quesustenta o conceito legítimo, tem ganho de causa.

 Sem dúvida, é interessante observar o confronto entre doisindivíduos com mentalidade, inteligência, feitio de alma, modos de serdiferentes, ouvir argumento contra argumento e notar o triunfo de um deles.

 Faz parte da arte da conversa, assim como este outro pontomuito importante que é o compreender a psicologia daquele com quem tratamos, afim de se conhecer sua personalidade e preparar seu espírito para aceitar o quelhe dizemos".

 Pratiquemos a arte da conversa e procuremos expandi-la omais possível. Além de uma obra de apostolado de primeira ordem, tambémajudaremos a tornar nossos relacionamentos mais culturais.


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