Vivemos em um tempo em que ser visto parece ser condição para existir. Você já parou para pensar que a lógica do mundo nos empurra para a evidência, para o reconhecimento, para a necessidade constante de provar que somos alguém?
O problema é que, quase sem perceber, passamos a medir o valor da nossa vida não pelo que somos, mas pelo quanto somos percebidos.
Apesar de sermos constantemente tentados pelo desejo de ser alguém. Essa lógica nos cansa.
A tentação sútil em desejar ser alguém, não apenas no sentido de identidade e do caráter, que é legítimo, mas no sentido de reconhecimento, de relevância, de importância aos olhos dos outros nos coloca em um esforço constante de afirmação.
Nunca é suficiente. Sempre depende do olhar alheio.
No fundo, é como se a vida só tivesse valido a pena se pudesse ser notada.
Corremos o risco de perder de vista algo essencial
Temos uma missão particular nesse mundo. Não há ninguém com o nós. Somos uma vocação única e irrepetível como bem afirmava São João Paulo II.
Mas há uma verdade silenciosa para além disso tudo: as vocações mais fecundas são, quase sempre, as mais escondidas.
Existe uma verdade no escondimento. Ele tem por fruto, a maturidade humana e espiritual. De repente a necessidade de reconhecimento perde força. O coração aprende a descansar no fato de que “ser” já é suficiente.
E provamos da liberdade de quem compreende que não precisa oferecer ao mundo aquilo que não possui, mas aquiloa que tem. E isso basta.
Talvez nunca sejamos a pessoa mais notada. Talvez nossa vida não produza resultados grandiosos aos olhos humanos.
Existem muitas possibilidades. Mas nunca podemos duvidar que há uma obra acontecendo. Uma obra silenciosa, profunda e real que se constrói na fidelidade à vida cotidiana, nas pequenas escolhas, na virtude e realização contida no ato de “permanecer”. Plantamos a semente em silêncio, para colher o fruto no tempo certo.
O Reino de Deus não segue a lógica da visibilidade, mas a da fecundidade.
E a fecundidade está ligada ao ato de dar tudo de si. Na verdade, há algo profundamente belo em quem decide dar tudo, mesmo que esse “tudo” pareça pouco. Porque, no fundo, nada do que fazemos – por mais que o façamos bem – pode superar a alegria de se dar por inteiro.
Aqui acontece uma virada de chave. O valor da vida não está no que se faz, mas no que se é. Porque o que alguém é sempre será maior do que aquilo que faz.
Mesmo que pareça pouco. Mesmo que ninguém veja. Mesmo que não haja reconhecimento. Existe uma paz silenciosa em quem já não precisa se provar. A liberdade de quem encontrou o seu lugar. De quem deixa de tentar fazer muito e passa a dar-se por inteiro.
Não importa se é pouco ou muito. Importa que seja inteiro.
Às vezes pode ate surgir a pergunta: e se, no futuro, não houver frutos? Mas a pergunta não estaria mal colocada? Não seria melhor refletir se o presente está sendo vivido intensamente? Sim, porque toda fecundidade nasce de um presente bem vivido.
Quem é fiel no pouco não vive ansioso pelo muito. Se concentra naquilo que pode oferecer no presente.
Existe beleza na vida escondida
As vocações mais santas, no fim, continuam sendo as mais escondidas. E quanto mais escondidas, mais livres são.
Livres do peso da aprovação. Livres da necessidade de se afirmar. Livres para amar com verdade.
Quem experimenta tal liberdade entende um pouco mais sobre o que importa na vida. Encontra na vida, em sua forma mais plena, o que dizem ser a felicidade.