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A Bioética cristã é a mais preparada para responder ao homem de hoje

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O PapaBento XVI, na Caritas in Veritate chamava a atenção para o perigo que existe naadoção de uma ética sem um forte compromisso cristão, pois acaba-se por"designar conteúdos muito diversos, chegando-se a fazer passar à suasombra decisões e opções contrárias à justiça e ao verdadeiro bem dohomem" mas é necessário uma ética "amiga da pessoa" (n. 45).Ora, continua ele, a Igreja "tem um contributo próprio e específico paradar, que se funda na criação do homem ‘à imagem de Deus’ (Gn 1, 27), um dado doqual deriva a dignidade inviolável da pessoa humana e também o valortranscendente das normas morais naturais" (n. 45).

Oproblema com uma dignidade meramente ética é que ela permanece sempre relativae sujeita a juizos morais em desenvolvimento, instáveis. Torna-se necessário orecurso a uma dignidade humana que seja ontológica, e, portanto, inevitavelmentetendente à metafísica, além de uma dignidade teológica que se fundamente noabsoluto, complementando-se ambas.1 Há que prestar atenção, pois quando se fazum apelo à ética, esta não deve consistir num qualquer sistema, vazio oualienado em conteúdos. Esta questão envolve uma importância que deve estarlonge de ser descurada. É perigoso considerá-la um negócio, passar por um jogode interesses ou mesmo algo passageiro, mas tem de tornar-se um compromissosério, radicado numa ética original e originária.2

Quando abioética se funda em qualquer ética, corre-se sempre o risco de atropelar dignidadehumana com ideologias impregnadas de utilitarismo, consequencialismo, eprocessualismo, aliás, várias faces de uma mesma moeda, cunhada inicialmentepor Bentham e Mill, baseando em cálculos de felicidade e utilidade para oshomens, valorizando o hedonismo, e julgado a bondade ou maldade do ato por suautilidade, e não pelo fato em si, parecendo repetir o dito maquiavélico de queos fins justificam, ou absolvem os meios,3 desde que a satisfação, no seugeral, seja alcançada.

Não setardaria a cair em morais populistas como as de Peter Singer, com todos os seuserros perniciosos, pois o homem não tardaria também a ser avaliado segundo essemodelo: assim, aqueles que não possuem uso da razão, quer seja porque não opossuem, ou porque o perderam, deixam de estar incluídas na categoria depessoas, talvez por não serem úteis…4. Parecem estar assim justificadosalguns dos maiores crimes que se cometem hoje contra a dignidade da pessoa.

ABioética, para ser, de fato, uma ética da vida, terá de ter um referencial quea transcenda. Nós não inventamos a existência, ela é-nos dada, portanto, domgratuito. Do ponto de vista da vida que recebemos, desse ato de amor de Deuscriador, o nosso ponto reto tem necessariamente de se transcender, poismaterialmente falando, não fundamenta nem justifica o nosso ser. Um mundo quevira as costas ao seu autor, e que dirige a visão para causas puramentemateriais, torna-se incapaz de dar o necessário valor à vida, e ao própriohomem, para relativizá-los.

Escreveude modo acurado o Cardeal Elio Sgreccia, presidente da Pontifícia Academia paraa Vida, que o "silêncio da metafísica", deu lugar ao relativismo, auma ética racionalista laica, que não deveria deixar de se confrontar com oabsoluto, pois a razão pede ao homem que se confronte com valores humanos enormas éticas cuja origem é transcendental.5 Realmente, uma ética sem qualquerfundamentação teológica ou metafísica está sujeita às frágeis bases docompromisso social.6

Acrescentao Côn. Jorge Teixeira Cunha, no seu excelente Manual de Bioética, que a faltade confrontação com a evidência metafísica e o Absoluto nos pressupostos destamatéria, leva a um "bater de asas no vazio de uma egolatria semhorizonte", pois "justificar racionalmente a norma do bem moral"não deve excluir, quanto ao seu juízo, a consideração do pensamento religioso eteológico cristão.7

Vemos,deste modo, que um conúbio entre a ética e a mística é fundamento e base para avida em plenitude do homem peregrinante nesta terra, dom do Criador, preâmbulodaquela mesma felicidade eterna à qual todos estão chamados. Nas belas palavrasdo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

"Seo nosso fim próprio é conhecer, amar, louvar e servir a Deus, nossa natureza,máxime enquanto elevada à ordem sobrenatural, deve tender inteiramente paraeste fim. Ou seja, todas as nossas atividades mentais e físicas devemdirigir-se para o conhecimento da verdade e prática do bem. Tanto quanto noCéu, esta finalidade é real na vida terrena, pois nossa natureza se orientatoda para o que será na eternidade. Suas tendências fundamentais já são o queeternamente serão.

E como avida terrena não pode ser contrária à nossa natureza, segue-se que ela já é dealgum modo, a sua substância, no que tem de mais interno, essencial e íntimo,no plano natural como no sobrenatural, a mesma vida de contemplação, amor,louvor e serviço de Deus que teremos no Céu".8

Por Padre José Victorino de Andrade, EP  

 


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1Cf. ALZATE RAMÍREZ, Luis Hernando; OSORIO, Byron. Op. Cit., p. 47;50-51.

2 "El reto que se plantea para la ética es fundamental. Lasposiciones éticas cotidianas de los cristianos simplemente se confunden con laética dominante que puede ser una defensa coyuntural de los derechos humanos. Otambién puede aparecer la iglesia defendiendo un vago humanismo como cualquierOrganización no Gubernamental. O se predica un amor a los demás,universalizante y abstracto sin compromiso de la persona. La ética no se reducea ser un ‘buen negocio’. El recurso al compromiso ético no es cuestión de‘imagen’ (se puede ser ético para obtener ganancias y estatus) o de estar a lamoda, sino de fundamentación y fundamentación en una ética original yoriginaria. Original por ser propia del cristianismo y originaria pues esfundante de toda acción social en el mundo". (ARBOLEDA MORA, Carlos.Experiencia y testimonio. Medellín: UPB, 2010. p. 22).

3 Cf. MAQUIAVEL. O Príncipe. Trad. Lívio Xavier. São Paulo: Ediouro,2005. p. 73.

4 "Niños muy pequeños, débiles mentales, ancianos en demencia ysujetos permanentemente inconscientes no deberían ser considerados personas niserían, por tanto, sujetos de los derechos básicos que habitualmenteadscribimos a las personas. Desde semejante planteamiento tienen cabida elaborto, la eutanasia y todos aquellos males que se ciernen sobre los débiles dela sociedad". CARRODEGUAS NIETO, Celestino. El concepto de persona a laluz del Vaticano II. In: Lumen Veritatis. São Paulo. No. 12 (Jul. – Sept.,2010); p. 44.

5 Cf. SGRECCIA, Elio. Manuale de Bioetica. 4. ed. Milão: V&P, 2007.Vol. 1. p. 30.

6 Esta ideia está fundamentada na conferência feita pelo ArcebispoJean-Louis Bruguès, abordando a Encíclica de João Paulo II Veritatis Splendor,no Seminário São Tomás de Aquino (São Paulo – Brasil) no dia 1 nov. 2010. Vertambém o nº 53 do documento.

7 Cf.TEIXEIRA DA CUNHA, Jorge. Bioética Breve. Apelação (Portugal): Paulus, 2002. p.6.

8 CORRÊADE OLIVEIRA, Plinio. A contemplação terrena, prenúncio da visão beatífica. Em:Revista Dr. Plinio. São Paulo. Ano IV. No. 42 (Set., 2001); p. 21.


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